O sócio n.º 7616
Há muito, muito tempo, fui ao estádio do Jamor assistir com o meu pai e o meu irmão a uma das raras vitórias do Futebol Clube do Porto na altura. Foi um dia histórico, coroado com a conquista de uma Taça de Portugal diante do Vitória Futebol Clube, de Setúbal. Ganhámos 2-1 e aquele dia e aquela vitória nunca mais me saíram da cabeça. Tínhamos finalmente ganhado um troféu, depois de muitos anos de amargura, frustração e desencanto. Olho para aquele dia como se fosse hoje: Américo; Bernardo da Velha, Valdemar, Rolando e Atraca; Pavão e Custódio Pinto; Jaime, Djalma, Gomes e Nóbrega. O Américo vestia uma camisola cor de laranja e voava para defender tudo. E o Valdemar e o Nóbrega corriam para dar a volta ao resultado e ao destino. Mas ainda foi preciso esperar 10 anos, depois daquele dia 16 de junho de 1968, para desatar o nó que nos enguiçava a glória e a hegemonia. Em 1978 quebrámos um jejum de 19 anos malditos e iniciámos a mais vitoriosa caminhada do futebol português.
Temos agora 31 campeonatos. Parecem muitos, mas a verdade é que nos últimos 50 anos conquistámos 26, o que faz do FC Porto a maior potência futebolística do último meio século. É uma hegemonia incontestável, que só encontra paralelo no Benfica, com quem partilhamos o número de troféus conquistados no futebol desde sempre: 87.
Mas nada disto caiu do céu. São muitos anos de vitórias, têmpera e mística. E quando, em 2024, o FC Porto deu um passo histórico de renovação e mudança, todos quiseram acreditar que a exigência se mantinha, que a ânsia de conquista era inalterável e perene, que o sofrimento alimentava a sede de conquista. Os milhares de adeptos que votaram, em números históricos, numa nova etapa sabiam que podíamos mudar tudo, menos uma coisa: a excelência e a superação.
E foi isso que aconteceu. Em dois anos, o FC Porto operou a revolução.
Revolução habitual
Parece que nada mudou. Continuamos a correr mais do que os outros, a querer mais do que os outros, a vencer mais do que os outros. Este título de campeão nacional, o 31.º, é fruto e consequência de uma planificação cuidadosa, milimétrica, competente e profissional. É fruto de um projeto ambicioso, sustentado em contratações cirúrgicas, onde cada peça tem o seu lugar no puzzle. É fruto de uma estabilidade estrutural, que criou o conceito de Famiglia Portista, que se impregnou na pele dos jogadores e transformou uma equipa num bloco coeso, unido, solidário.
Essa união da equipa foi fundamental. Em momentos críticos da temporada, foi o espírito de grupo que prevaleceu sobre o desânimo. Quando a equipa se deixa empatar no último minuto do jogo com o Famalicão ou com o Sporting, foi preciso convocar forças e energias só disponíveis quando todos estão sintonizados com o mesmo objetivo. Foi essa a força maior de um grupo que soube competir como uma verdadeira família.
Na cabeça da equipa, Francesco Farioli, um treinador jovem, ambicioso, que liderou de forma exímia uma equipa que soube temperar a juventude com a experiência. Alguns dos jogadores mais preponderantes ao longo da época têm 21 anos ou menos: Victor Froholdt, Rodrigo Mora, William Gomes, Oskar Pietuszewski, Martim Fernandes, Samu, Deniz Gul. São jogadores que contribuíram de forma decisiva, em diferentes momentos da época, para a conquista. E, ao lado deles, estavam jogadores experientes, com extraordinárias capacidades de liderança, que enquadraram, ensinaram e orientaram: Diogo Costa, Bednarek, Thiago Silva, Luuk de Jong. É uma equipa equilibrada, que Farioli conduziu como um maestro, retirando de cada jogador o melhor que podia dar ao FC Porto. E esta foi uma nova equipa. Dos onze jogadores mais utilizados por Farioli ao longo do campeonato, sete chegaram esta época. E tão bem chegaram e jogaram, que até parecia que tinham nascido em Campanhã ou Cedofeita…
Na verdade, dois anos depois de uma revolução no Clube, voltámos ao habitual: ganhar e liderar. Com a diferença de que desta vez as contas estão certas e o clube continua a crescer. Somos mais de 175 mil sócios, o número mais alto na história do FC Porto. E tivemos esta temporada no Dragão a melhor taxa de ocupação de estádios, com adeptos entusiastas e apaixonados.
Arriscar para ganhar
Tudo correu de forma perfeita e alinhada para uma época de sucesso. Jogadores, equipa técnica e treinador são os profissionais que construíram vitórias.
Mas, acima de todos, o autor desta obra: Luís André Pina Cabral Villas-Boas, o sócio n.º 7616 do Futebol Clube do Porto, o sócio que arriscou tudo pelo Clube. Arriscou uma campanha eleitoral perigosa, com ameaças e agressões, arriscou a segurança da família, arriscou ódios e vinganças, arriscou o conforto de uma vida segura.
André Villas-Boas sabia, no dia em que decidiu candidatar-se contra Jorge Nuno Pinto da Costa, que já não havia volta a dar. Era tudo, ou tudo. Enfrentar o líder histórico, a figura mítica do FC Porto, era algo que poucos se atreviam a fazer — especialmente sabendo que podiam ganhar.
O sócio n.º 7616 arriscou e ganhou. E, com ele, as centenas de milhares de adeptos do FC Porto que queriam mudar. Uma mudança que se tornou quase obrigatória depois de se ter percebido que o Clube estava à beira do abismo. Pinto da Costa não terá percebido — ou talvez não o tenham deixado perceber — que estava na altura de sair e de permitir que outros assumissem os riscos inevitáveis de gerir uma crise profunda. Era preciso mudar e André Villas-Boas corporizou, com a sua coragem e o seu projeto, essa vontade de mudança. Seria para melhor?
Talvez venha a ser. Depois de uma primeira época negativa, do ponto de vista desportivo, o sucesso chegou no segundo ano. Uma obra gigantesca, baseada em muitas ambições: recuperar as finanças de um clube que tinha sido rapinado, reerguê-lo, rejuvenescer métodos e estruturas e manter o espírito indomável de conquista. Também aqui, André Villas-Boas sabia que só havia um caminho. E foi a sua coragem, a sua inteligência e a sua vontade inegociável de vencer que o empurraram para o risco. Um percurso cheio de curvas e contracurvas, com algumas saídas de pista, é verdade, mas focado na meta. O presidente que já foi treinador soube construir um edifício sólido, onde todos coabitam em comunhão de ideais. Este novo Futebol Clube do Porto tem a marca de André Villas-Boas, o sócio n.º 7616 e o primeiro de todos nós. É dele esta conquista.
'Special Too'
Luís Miguel Pereira e Jaime Pinho escreveram a quatro mãos um livro que explica o percurso de André Villas-Boas como treinador. Escrito logo após a saída para o Chelsea, em 2011, o livro disseca as duas primeiras épocas de Villas-Boas como treinador: primeiro na Académica, que salvou da despromoção, e, depois, no FC Porto, onde deixou a marca histórica do segundo triplete da história do Clube: Campeonato (sem derrotas!), Taça de Portugal e Liga Europa. Uma época grandiosa, que consagrou André Villas-Boas como um dos nossos melhores.
Vale a pena ler: André Villas-Boas, Special Too.
Uma nota final — O SC Braga está a um passo da final da Liga Europa, 15 anos depois. João Moutinho, a maçã podre que ganhou tudo o que havia para ganhar no FC Porto, pode voltar a erguer o troféu. Ele merece! Boa sorte para os Guerreiros.