Trincão, Hjulmand e Pedro Gonçalves celebram com Daniel Bragança, autor do golo da vitória do Sporting na Reboleira - Foto: IMAGO
Trincão, Hjulmand e Pedro Gonçalves celebram com Daniel Bragança, autor do golo da vitória do Sporting na Reboleira - Foto: IMAGO

O rato, o gato, o leão e o título

Vitória suada do Sporting na Reboleira coloca pressão máxima sobre o FC Porto de Farioli, que visita este domingo o Estoril sob a sombra do fantasma do Ajax e com os leões a morderem-lhe os calcanhares

O futebol português, na sua infinita capacidade de produzir momentos surreais, ofereceu-nos neste fim de semana uma metáfora zoológica difícil de ignorar. Primeiro, foi o rato a passear-se pela conferência de imprensa de Rui Borges na sexta-feira; depois, na noite deste sábado, foi o gato a invadir o relvado da Reboleira, interrompendo por instantes um duelo de nervos.

No meio desta fauna inesperada, o Sporting de Rui Borges foi, acima de tudo, um animal de competição. O triunfo por 1-0 do leão sobre o Estrela, selado pela sobriedade de Daniel Bragança, não foi um hino à estética, mas foi um manifesto de sobrevivência.

A metamorfose que Rui Borges operou neste Sporting em pouco mais de um ano é digna de registo. Onde antes havia uma equipa que se perdia no labirinto da sua própria ansiedade, existe agora uma estrutura de ferro, capaz de ganhar sem inspiração, mas com uma transpiração inesgotável.

O leão não jogou bonito, mas jogou como um candidato: soube fechar os caminhos, soube sofrer e soube morder no momento certo. Esta alma de aço injetada por Borges é o que permite aos leões manterem-se vivos na perseguição, transformando-se no gato que espreita, de garras afiadas, o deslize do líder.

Agora, a pressão muda de código postal. Hoje, o Benfica recebe o Nacional na Luz com a obrigação de não se deixar desligar da tomada, mas é na Amoreira que o coração do campeonato vai bater mais forte. O líder FC Porto visita o Estoril de Cathro sob o peso insuportável de um empate caseiro frente ao Famalicão e, sobretudo, sob a sombra do próprio Farioli.

Estará o técnico italiano a sentir o déjà-vu de Amesterdão? O fantasma da ponta final do Ajax, onde uma vantagem confortável se evaporou num ápice perante o PSV, terá viajado com ele para o Douro?

No Estoril, onde mora uma equipa que já provou ser capaz de olhar o dragão nos olhos e ser-lhe superior em largos momentos, Farioli terá de provar que é mais do que um teórico da posse; terá de mostrar que tem estofo para não deixar que o rato do título fuja por entre as mãos.

O Sporting cumpriu. Com raça e o oportunismo de Bragança, os leões deixaram a Liga em ponto de rebuçado. Se o FC Porto treme na Amoreira, o jogo do gato e do rato pode muito bem terminar com a hierarquia da Liga invertida antes de chegarmos à curva final.

Na Reboleira, entre bichos e bola, o Sporting mostrou que, para ser campeão, às vezes é preciso ter a astúcia do rato e a agilidade do gato. Resta saber se o dragão ainda tem fogo para afastar os fantasmas.