O orgulho de ser do Porto
Falta menos de um mês para fazer as contas finais da Liga, mas já é possível tirar algumas conclusões com base em números e estatísticas do que já foi jogado até agora. E há um indicador especialmente interessante de analisar, que pode explicar o sucesso de uns e o insucesso de outros: os jogos entre os quatro primeiros classificados. É um mini-campeonato que permite tirar algumas conclusões e que está, naturalmente, sujeito a muitas e diferentes interpretações. Mas os factos são indiscutíveis.
Cada uma destas quatro equipas (FC Porto, Benfica, Sporting e SC Braga) disputou ou vai disputar seis jogos neste mini-campeonato. São 18 pontos possíveis.
O FC Porto é a equipa com o melhor índice de aproveitamento nestes jogos: conquistou 12 pontos, relativos a três vitórias (uma contra o Sporting, duas contra o SC Braga) e três empates nos restantes jogos. É uma taxa de sucesso de 2 terços dos pontos em disputa.
O Sporting, em contrapartida, apenas somou 4 pontos: dois empates com o SC Braga, um com o FC Porto e outro com o Benfica, tendo perdido dois jogos em casa com FC Porto e Benfica. É um fraco pecúlio, talvez dos mais fracos das últimas cinco épocas, só comparável aos piores momentos do Sporting nas últimas décadas. Sem qualquer vitória nestes jogos, o Sporting teve menos de 25% de aproveitamento.
Deixei Benfica e SC Braga para o fim porque ainda têm um jogo em aberto, no estádio da Luz, referente à 33.ª jornada. Mas, na melhor das hipóteses, o Benfica pode somar 10 pontos e o SC Braga, se ganhar em Lisboa, pode chegar aos 6.
São estatísticas que valem o que valem, mas que podem ajudar a perceber melhor esta época do FC Porto, que conseguiu criar uma equipa combativa, corajosa e eficaz nos duelos maiores. Onde na época passada existia medo, incompetência e falta de atitude, há hoje garra, intensidade e combatividade. Enfim, tudo o que define o FC Porto tradicional que se impôs em Portugal, na Europa e no Mundo, com um futebol jogado em cada momento, em cada lance e em cada disputa de bola.
Um clube orgulhosamente regional
O FC Porto é, evidentemente, um clube regional. Orgulhosamente regional, mas de dimensão mundial. E é um clube regional porque representa, no seu âmago, na sua alma, a força do Norte. É regional não porque esteja confinado geograficamente à região Norte, mas porque absorve do Norte a sua forma de estar, de ser e de agir. É um clube regional porque contraria, com sucesso, o esgar monocéfalo de um país centrado em Lisboa. Portistas, há-os em todo o lado e por todo o mundo. Mas mesmo os que nascem a milhares de quilómetros do Porto ou do norte de Portugal sentem no FC Porto a força telúrica de um povo, de uma vontade indomável, de uma necessidade constante de superação. Somos, sim, um clube orgulhosamente regional, que lutou contra poderes historicamente cristalizados e estabelecidos como imutáveis.
Nascemos Futebol Clube do Porto, mas com ambições nacionais: as cores da nossa bandeira eram o azul e branco do Portugal monárquico. Fomos o primeiro clube português a disputar jogos no estrangeiro (em Vigo, primeiro, e em Madrid, logo depois). Mas a força da nossa afirmação assentou na resistência ao desprezo e à desconsideração do poder central esmagador e sobranceiro. Somos regionais por oposição e por afirmação. E não se pense que foi Jorge Nuno Pinto da Costa ou José Maria Pedroto que criaram a guerra norte-sul. Ela, a guerra, entre aspas, existe desde que a balança do poder se inclinou para Lisboa. Mas é uma guerra que nos engrandece e dá força, uma guerra sem sangue nem vingança.
Somos regionais porque não há nada que possamos fazer para o deixar de ser. E que orgulho tenho eu nesse consolo de ser do Porto e do FC Porto, nesse ímpeto generoso, mas raçudo, de ser de uma região que luta, que resiste e que conquista!
Os que usam a expressão clube regional para nos tentarem denegrir, desconhecem de onde vem a nossa origem e a nossa força. Porque ser um clube regional não é abdicar dos horizontes da glória nem viver condenado a fronteiras ou limites. É, pelo contrário, fazer dessas fronteiras culturais e sociais o ponto de partida para as conquistas da imortalidade.
Hegemonia total
A poucas semanas do fim da época do futebol, estamos muito bem. Muitíssimo bem, aliás. Lideramos em todos os escalões da formação (juniores, juvenis e iniciados) e no escalão principal. É um sinal de pujança e de planificação cuidadosa. E, também, um sinal claro de hegemonia do futebol português, baseada em resultados desportivos. E o que dizer do futebol feminino? A equipa foi criada há dois anos (uma promessa eleitoral de André Villas-Boas), subiu de escalão logo na primeira época de competição e está a um passo de voltar a subir, agora para o primeiro escalão. E, mais importante, está na final da Taça de Portugal. Quem diria! É um sinal claro, repito, de pujança e de planificação cuidadosa.
O Jogo da Glória
O Jogo da Glória, de Carlos Maria Bobone, é uma obra extraordinária sobre o futebol. São cerca de 150 páginas de ensaio sobre o que faz do futebol o maior, mais belo e emocionante espetáculo do Mundo. Carlos Maria Bobone divide o livro (que ele próprio subdefine como um «ensaio sobre a paixão pelo futebol», em três partes: a pulsão aristocrática, a pulsão popular e a pulsão da técnica. São abordagens verdadeiramente brilhantes sobre o desporto, os protagonistas, os adeptos e tudo o que gira em torno do fenómeno futebolístico. O mais extraordinário desta obra extraordinária é o modo como nasceu.
Escreve Bobone: «Este livro surgiu quando me foi diagnosticado um cancro, pouco depois de eu fazer 31 anos, e a possibilidade de não acompanhar o crescimento dos meus filhos, de 6, 5, 4 e 1 anos, se tornou subitamente mais real. A ideia de não assistir aos primeiros brilhos do fascínio pelo mundo e pela cultura afligiu-me durante algum tempo. Pensei, por isso, escrever um livro para eles. A única certeza que tinha sobre as paixões dos meus filhos era a de uma obsessão de agora, uma paixão violenta e pura, que lhes ocupa os sonhos e as horas vagas, como só as crianças sabem ter: a paixão pelo futebol. É, assim, um livro agradecido ao futebol, por, através dele, me permitir continuar a ser pai, mesmo quando talvez já não o puder ser.»
Afortunados filhos, e nós também, que podemos ler, aprender e saborear a paixão pelo futebol, no seu estado mais puro: o futebol «enquanto veículo para transmitir o que encontro de mais admirável, extraordinário e divino na humanidade». Se ao menos o futebol pudesse ser sempre assim…
Falta dizer que Carlos Maria Bobone não está sequer remotamente ligado ao futebol, o que não deixa de ser ainda mais notável. Na sua nota biográfica, Bobone é identificado como alfarrabista e crítico literário no Observador e Editor-principal na revista Crítica XXI, além de ser o autor dos livros Alfarrabistas, Livrarias e Livreiros; Monarquia — História, Doutrinas e Ideias; Camões — Vida e Obra.
Quem gosta de futebol, quem se interessa pelo jogo, quem comenta, quem simplesmente quer ficar a saber mais, deve ler: O Jogo da Glória, de Carlos Maria Bobone; Edição Zigurate
Uma nota final de parabéns para o SC Braga, o último resistente de Portugal nas competições europeias. A final de Istambul não é uma miragem.