Elina e Heorhii, sombra e luz
A tenista Elina Svitolina, de 32 anos, não aguentou mais. Entrou, há semanas, com o processo de divórcio para se separar do marido, o também tenista Gael Monfils. O casal era, até então, um sucesso de união internacional desportiva e interracial. Um sucesso que encobria um sofrimento pessoal: Elena é ucraniana e, sobretudo desde 2022, lida com tudo que uma pessoa normal lida, como profissão, casamento, filhos, com saber que o seu país natal está em guerra. Em comunicado, falou no peso insuportável que a guerra na Ucrânia teve em si como pessoa e como abalou a dinâmica conjugal. «Ninguém viu as noites sem dormir, as dúvidas e a sensação de que me estava a perder a mim própria aos poucos. Com o tempo, percebi que tenho de reencontrar o meu próprio caminho.»
Em maio, o jogador do Benfica Heorhii Sudakov fez soar alarmes com a admissão, rara num futebolista, de um certo cansaço emocional. Com 20 e poucos anos, numa idade em que a esmagadora maioria das pessoas mora em casa dos pais, tem dois filhos pequenos e está num país estranho. Pessoas que ganham muito dinheiro têm meio caminho andado para a felicidade, mas para o jogador de apenas 24 anos, ver a casa destruída em Kiev, meses antes, foi algo difícil de processar.
A 24 de fevereiro de 2022, acordámos com a notícia: a Rússia invadiu a Ucrânia e a Europa tinha mais uma guerra. A fuga em massa de mulheres e crianças do país em poucos dias, e a facilidade com que a Rússia parecia avançar, levou muita gente a elevar o stock de atum, renovar passaportes, olhar para um quarto suplente em casa e pensar que ali caberia uma família refugiada. Chorei quando um menino de 7 anos sussurrou à repórter no New York Times, um mês depois do início da invasão, na estação de comboios de Lviv, que tinha um segredo: na viagem de carro até lá, arrancara dois dentes de leite a abanar com a mão.
O assunto abria telejornais, era chocante ver plataformas de estações cheias de pessoas, filas de carros na fronteira com a Polónia. Ver aqui um carro com matrícula ucraniana suscitava um sorriso, «pelo menos estes fugiram». Mas o tema começou, para mim e muitos outros, a ser corriqueiro. A Ucrânia não se rendeu e a guerra continua. Recebemos alertas no telemóvel sobre drones que atacam aqui e ali, a par das notificações do preço dos combustíveis ou dos resultados desportivos. É só mais um tema.
Mas para Elina e Heorhii, o peso desta guerra não passou a ser apenas uma notificação no telemóvel. Ambos têm, seguramente, lembretes diários do que é aquela luta - do que é ter medo de lá voltar, ainda que milhares de pessoas continuem as suas vidas debaixo de uma ameaça que já tem mais de 4 anos.
No caso dela, o tempo sublinhou problemas, mas como diz Monfils, que se viu forçado a defendê-la, o casamento acabou, mas não a família.
No caso dele, as nuvens parecem começar a levantar e o cansaço a desaparecer. Na Luz a pressão é menos e há dias arriscou falar nas flash-interview em português, sorriso no rosto. Um pouco de empatia e paciência não fazem mal a ninguém e no Benfica parecem ter percebido isso. Espero que Elina volte a encontrar o seu sorriso.