Nuno Santos e Bragança: quando a superação também faz golos
O regresso de Nuno Santos e Daniel Bragança aos relvados ganhou novo significado na vitória do Sporting frente ao Estoril (3-0). Depois de longos meses afastados devido a graves lesões ligamentares no joelho, os dois jogadores voltaram a brilhar em Alvalade, num momento que se tornou mais especial por ser combinação direta entre os dois. Aos 90+4', um passe delicioso de Nuno Santos encontrou Bragança, que fintou Ferro e rematou de pé direito, com a bola a passar entre as pernas de Joel Robles, selando o resultado. Um golo que em nada mudou o jogo, mas que significou tanto para os jogadores e para os adeptos leoninos.
Bragança, que já soma três golos desde o regresso, tem dado sinais consistentes de recuperação competitiva. Já Nuno Santos, que havia reaparecido na Taça de Portugal, voltou à Liga 16 meses depois. Ambos estiveram cerca de um ano fora dos relvados, a lidar com processos de recuperação exigentes, não só fisicamente, mas também do ponto de vista mental.
Filipa Marques, mental coach com incidência na área desportiva, explicou a A BOLA que uma lesão grave representa um verdadeiro processo de luto para o atleta. Baseando-se no modelo de Elisabeth Kubler-Ross, a especialista recorda que o jogador pode atravessar fases como negação, raiva, negociação, depressão e, por fim, aceitação. «Há sempre a incerteza do futuro, o medo de não voltar ao mesmo nível. Muitas vezes surge a pergunta: ‘porque é que isto me aconteceu a mim?’», referiu.
Segundo a mental coach, quanto mais cedo o atleta aceitar a lesão, mais facilmente a mente se predispõe à recuperação. «Quando estamos com algumas emoções como raiva, frustração, o nosso corpo, os nossos músculos também estão mais tensos e isso condiciona todo o processo. Quanto mais leve estiver o jogador a nível mental e emocional, também o corpo - já que existe uma ligação enorme entre a mente e o corpo - vai responder melhor», sublinhou.
O regresso à competição traz também novos desafios. O medo de recaída é frequente e a confiança precisa de ser reconstruída gradualmente. Nesse contexto, momentos como um golo ou uma assistência assumem peso redobrado: «Trazem confiança, claro. Um atleta quando volta de uma lesão e de estar tanto tempo afastado dos relvados, precisa de ir ganhando confiança aos poucos. Quando eu regresso à competição e faço golo, isso vai-me dar confiança. Acaba por haver aqui uma libertação psicológica.»
«O plantel também recebe dois atletas e isto é bom porque é como se fosse uma lufada de ar fresco, nomeadamente nesta altura da época. Estamos aqui na segunda fase da época, portanto para o plantel também é bom e traz-lhes segurança, confiança, mais motivação e até vontade de continuar a trabalhar», considerou.
A especialista destaca ainda que muitos atletas regressam mais «maduros» após uma lesão grave, fruto da disciplina e resiliência exigidas durante a recuperação: «Há sempre uma maturidade que se ganha nesta recuperação, até por toda a resiliência pela qual eles passam, muita disciplina que eles também têm de ter. Agora, também temos que ver que os atletas regressam com os adeptos à espera que eles voltem na melhor versão e, às vezes, isto constitui uma pressão extra. Porque o adepto espera que regressem e que os voltem a presentear com aquilo que estavam habituados e isso pode demorar algum tempo. Vai tudo depender também do plantel, dos treinadores, da equipa médica, que têm um papel fundamental para voltar a restabelecer a confiança do jogador», concluiu.
Pelos lados de Alvalade, uma coisa é certa: a combinação entre Nuno Santos e Daniel Bragança foi mais do que um simples golo. Foi a confirmação de que, depois da dor e da ausência, há espaço para recomeçar e voltar a fazer a diferença.