Natan Costa promoveu a equipa de Cernache do Bomjardim à Liga 3 - Foto: Vitória de Sernache
Natan Costa promoveu a equipa de Cernache do Bomjardim à Liga 3 - Foto: Vitória de Sernache

Natan Costa: «'Equipa sensação' é um rótulo que nos fica bem»

O Vitória de Sernache surpreendeu todos e diz 'olá' à Liga 3! Em entrevista a A BOLA, o treinador do emblema do distrito de Castelo Branco revela as adversidades superadas durante a temporada

Natan Costa aceitou o desafio de treinar uma equipa da distrital pela primeira vez, o Vitória de Sernache, e acabou a subi-la à... Liga 3.

— Tinham acabado de subir das distritais de Castelo Branco. O objetivo inicial era atacar a Liga 3?

— Pelo contexto, chamar objetivo à subida não era totalmente assertivo. Tínhamos, sim, a ambição de consolidar o clube no patamar nacional e fazer uma época nivelada por cima. Talvez pudesse ser uma época de transição, para preparar um ataque mais claro à subida de divisão, no próximo ano. Mas era sempre um sonho.

— Sentiu, ainda assim, que tinha as condições para poder levar a equipa ao sonho?

­— Nesta competição, não conhecemos os opositores, porque não é como estar na Liga, em que se avaliam os plantéis e se percebe onde podem chegar. Os plantéis do Campeonato de Portugal mudam muito de ano para ano. Quando construímos o nosso, fiquei com a consciência de que íamos ser uma das melhores equipas da nossa série e havia a sensação de que íamos fazer uma boa época. No entanto, não sabíamos até onde podíamos ir, porque há muitos factores que não controlamos.

Quando vi os efeitos da tempestade pensava que a época estava fatalmente afetada...

— A Direção alguma vez fez imposições?

— Não, a Direção também tinha esse sonho e transmitiu sempre ambição. Na segunda volta da primeira fase, tivemos um momento duro porque perdemos um jogador muito importante, o Roberto Embaló, que foi operado ao coração. Também tivemos algumas lesões, tudo em simultâneo. Ainda assim, se calhar com menor brilhantismo, conseguimos sempre manter o pragmatismo necessário para ir somando pontos e mantendo sempre uma distância de conforto para a linha do apuramento. Isto para dizer que houve dois momentos em que a direcção foi fundamental. Um foi na forma como tratou esse jogador que teve de ser operado. Felizmente, o Roberto está bem e ainda nos ajudou muito, é um jogador muito importante.

— E o segundo momento?

— Foi na forma como reagiu à tempestade Kristin... O Vitória de Sernache foi uma das equipas mais afetadas. O nosso estádio foi brutalmente destruído. Havia uma bancada nova que ficou sem cobertura. O estádio tinha oito quartos novos que ficaram destruídos. O relvado ficou contaminado com pedaços da bancada. Foi o plantel, na manhã a seguir à tempestade, que limpou o relvado. Quando vi os efeitos da tempestade, pensava que a época estava fatalmente afetada. Contudo, depois de falar com o presidente, ele disse-me: ‘Vamos encontrar soluções’. Perdemos alojamentos, a logística do clube deixou de ser igual, tivemos de cancelar treinos, adiar jogos... Houve ali toda uma logística que podia ter prejudicado muito a equipa. Felizmente, conseguimos ser fortes e competentes e continuar sempre em primeiro lugar.

Os efeitos da tempestade Kristin - Foto: Vitória de Sernache

— Aceita o rótulo de equipa sensação?

­— Sem desprimor por outras equipas, que tiveram muito mérito, a verdade é que o Vitória de Sernache é uma equipa de uma vila do interior. Não é vulgar ver isto com uma equipa que veio do distrital de Castelo Branco. Por isso, acho que sim, é um rótulo que fica bem. Aceita-se.

Do «são malucos...», à subida «recorde»

— Porque decidiu abraçar o projeto do Vitória de Sernache, no início da temporada 2024/25?

— Porque senti, da parte de quem me fez o convite, que havia muita ambição. Senti que havia um clube com vontade de crescer a nível estrutural, humano e, consequentemente, desportivo. Apesar de nunca ter treinado no distrital e nesse ano até ter tido convite para a Liga 3, preferi ficar aqui por perto, o que me permitiu ter férias de verão, que é uma coisa rara num treinador, porque normalmente as pré-épocas são terríveis e, além disso, sou professor de Educação Física. Conciliar as coisas não tem sido fácil. Acabei por aceitar, porque senti que as pessoas tinham ambição e que o clube ia crescer.

— Quais foram os objetivos propostos?

— Nesse primeiro ano, quando o presidente me convida, faltavam 20 dias para começar o distrital e não tínhamos plantel. A ideia era construir um plantel competitivo e eu disse ao presidente que não ia estar ali a perder muito tempo. Acabámos por fazer uma época muito interessante, sem derrotas. Depois havia a ilusão de pôr o clube na Liga 3. Contudo, se, em agosto de 2024, me dissessem‘daqui a 21 meses esta equipa tem de estar na Liga 3’, eu dizia que eram malucos. Porque é um clube humilde, tinha uma história de subir e descer entre o nacional e o distrital. Havia esta ilusão a médio/longo prazo de podermos subir ao terceiro escalão, mas as etapas foram superadas ou antecipadas e acabámos por subir em tempo recorde.

Das distritais para a Liga 3 em 21 meses

Os vitorianos viveram duas épocas de sonho e, com Natan Costa ao comando, escalaram dois patamares no mínimo tempo possível.

Na época de estreia do treinador, o emblema do distrito de Castelo Branco não perdeu nenhum duelo (25 triunfos e dois empates). Nesta, perdeu apenas quatro, de 34 partidas (contabilizando onze empates e 19 vitórias).

Os tiques da invencibilidade foram levados, pelo conjunto cernachense, para a fase de subida do Campeonato de Portugal. Isto porque - considerando as zonas Norte e Sul - o Vitória foi

a única equipa a não perder nenhum encontro. «Houve talento e qualidade», enaltece Natan Costa.

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