Daniel Bragança, de pé esquerdo, faz o golo solitário do Sporting (Foto Miguel Nunes)
Daniel Bragança, de pé esquerdo, faz o golo solitário do Sporting (Foto Miguel Nunes)

Nas várias faces duma Estrela reluz a fé inabalável do leão (crónica)

Contra ventos, marés e até gatos mais ou menos pretos, Sporting continua a pressionar o FC Porto. Dá um jeito imenso ter jogadores com centelha de génios. Rui Borges geriu e retirou juros elevados da poupança

Uma estrela, já se sabe, tem diversas pontas e faces, mas na da Amadora, contas feitas, manteve-se a fé inabalável do leão na conquista de um tricampeonato que, a chegar, será histórico.
O Sporting não teve o brilhantismo de outros jogos. Rui Borges geriu a equipa e a taxa de juro continua bem elevada: o técnico retirou do onze os centrais Diomande e Gonçalo Inácio, por estarem em risco de exclusão para o dérbi da próxima semana, que muito pode decidir. Pelo meio, convém notar que há o encontro com o Arsenal, nos quartos de final da Champions, onde os de Alvalade ainda mantêm esperanças de chegar às meias-finais, embora Rui Borges pareça apostar as fichas quase todas no campeonato.

«Quando faltar a inspiração, que não nos falte a atitude», costuma dizer o técnico, e foi também por aí que o Sporting segurou mais três pontos. De facto, os leões tiveram muita bola, sobretudo na primeira parte, mas um Estrela muito bem organizado edificou uma muralha à frente da sua baliza, tornando dificílimo o ato de criar perigo.
Como o destino é fértil em ironias, a melhor oportunidade do leão na primeira parte foi construída pelo adversário: na sequência de um canto, Doué desviou para a própria baliza e valeu Lekovic que, de cabeça, salvou quase em cima da linha.

No entanto, a equipa de João Nuno, em contra-ataques venenosos, ia colocando o leão em alerta. O facto de os verde e brancos não criarem lances de golo iminente deveu-se à densidade da zona central, com o médio defensivo a encaixar entre os centrais, formando uma linha de cinco defesas intransponível. Por outro lado, o Sporting insistia pelo lado direito, mas Bruno Langa estava em noite sim e ia negando os intentos a Geny Catamo e a Fresneda — este último foi solicitado diversas vezes, mas raramente correspondeu no plano ofensivo.

A inspiração parecia morar longe do José Gomes. Luis Suárez saía muito da posição para abrir espaços e tentou diversas incursões mas, como não tem o dom da omnipresença, faltava quase sempre alguém no coração da área para finalizar. Assim, o intervalo chegou sem golos, sob o olhar de um gato preto e branco que apareceu no relvado. Seria mau presságio para os de Alvalade?

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No recomeço, saiu Fresneda e entrou Vagiannidis, mas o cariz do jogo não se alterou sobremaneira. Os homens de Rui Borges continuavam a ter posse, mas sem rasgo, até que, perto da hora de jogo, Geny descobriu o espaço onde estava Trincão; este entregou a Daniel Bragança e o médio, de pé esquerdo, fuzilou para o golo.

O Sporting quis fechar as contas, mas o Estrela não se rendeu. Os de Alvalade começaram a ceder espaço no meio-campo e os da casa cresceram. Max Scholze, do meio da rua, disparou forte; a bola resvalou em Suárez e Rui Silva, com uma defesa fantástica, evitou o empate aos 70’.

Os tricolores insistiam e o leão mantinha-se em guarda. Geny ainda podia ter sentenciado o encontro aos 79’, num lance que já é a sua imagem de marca, mas a bola bateu no ferro. Desesperava o leão, as pernas pesavam e esperançava-se o Estrela. Porém, entre o deve e o haver, dá imenso jeito ter futebolistas com centelha de génio, mesmo que esta só apareça num ou dois lances.
O (forte) vento condicionou muito o desenrolar do encontro, mas contra ventos, marés e gatos mais ou menos pretos, lá continua o leão a pressionar o FC Porto e a manter o Benfica à distância.