Nandinho, treinador do Al Muharraq - Foto: André Carvalho

Nandinho e a conflito no Médio Oriente: «Nunca me vi numa situação destas...»

Treinador do Al Muharraq, do Bahrain, conta a A BOLA como foram os últimos dias, marcados pelo conflito armado que opõe Estados Unidos e Israel ao Irão e que já levou a ataques nos países à volta. Técnico português conta como deu pelo ataque à base militar americana na capital Manama e afirma que está em contacto com a embaixada portuguesa em Riade, na Arábia Saudita

O conflito armado que tem como protagonistas os Estados Unidos, Israel e Irão tem vindo a afetar todo o Médio Oriente nos últimos dias. A retaliação iraniana que se fez sentir nos países à volta não passou despercebida às populações, que vivem agora em clima de tensão.

Um dos países afetados foi o Bahrain, onde reside, atualmente, Nandinho, treinador do Al Muharraq, clube que está na liderança partilhada do campeonato do país, agora suspenso. «Fomos um bocadinho apanhados de surpresa. Ficámos apreensivos e um pouco sem sabermos o que fazer», começou por explicar o técnico, em declarações a A BOLA, que contou como viveu o momento em que se apercebeu do ataque à base militar de Manama, capital do país. «Estávamos num café de portugueses, reunidos com alguns portugueses. De repente ouvimos as sirenes a tocar e recebemos alertas. Pensámos que era um simulacro, mas começámos a ouvir estrondos, fumo a sair ao fundo e, claro, deduzimos logo que seria um ataque à base americana, que é um ponto estratégico. A partir daí foi uma catadupa de acontecimentos», prosseguiu.

O ambiente de apreensão mantém-se no país de 1,7 milhões de habitantes, mas não impede totalmente que a vida prossiga. «Pediram-nos para ficarmos em casa. As escolas foram suspensas, mas a verdade é que vemos carros na rua, as pessoas vão às compras. Com menos azáfama, é verdade, mas não evitam ir ao supermercado», disse Nandinho, que, ainda assim, afirmou que a expectativa era que os ataques abrandassem: «A expectativa era que isto acalmasse, que parassem os ataques, mas não. Pontualmente vão tocando as sirenes.»

Nandinho concedeu entrevista a A BOLA em julho do ano passado (Foto: André Carvalho)

Uma eventual saída do país será, segundo Nandinho, através da vizinha Arábia Saudita e os contactos mantêm-se com a embaixada portuguesa em Riade, que aconselhou os portugueses a «seguirem as ordens do ministério, a ficarem por casa, a procurarem abrigos sempre que tocarem sirenes». Contudo, mesmo com o clima de instabilidade, as competições podem retomar. «Disseram-nos que a Federação está a ponderar, daqui a 48 horas, voltar tudo ao normal, porque o país não está em guerra, estão a atacar apenas os pontos estratégicos americanos no Golfo Pérsico», referiu o técnico.

Uma opção que não agrada ao treinador português: «Não acho que seja a decisão certa. Ninguém está confortável com este tipo de situação. Apesar de dizerem que não estão a atacar o país, é evidente que, em guerra, há sempre contratempos, há sempre falhas. Há sempre mísseis que são desviados, que são abatidos e não se sabe onde. Nunca me vi numa situação destas…»

«Sinto alguma ansiedade, porque temos a família em Portugal preocupada. Não os queremos preocupar, mas as imagens estão sempre na televisão», acrescentou Nandinho, que, ainda assim, completou com uma mensagem relativamente tranquilizadora: «A realidade é que estou aqui, vejo as [defesas] anti-aéreas a passar por cima dos prédios, ouço esses estrondos, mas ainda não vimos nada perto a cair e que nos passasse algum receio.»