Técnico dos encarnados destacou a importância de presunção de inocência, mas admitiu fim da linha para o extremo argentino caso as acusações de racismo correspondam à verdade

Mourinho esclarece futuro no Benfica e polémicas com Sidny e Prestianni — sem meias palavras

Treinador foi assertivo na conferência de Imprensa de antevisão ao jogo com o Gil Vicente

José Mourinho, treinador do Benfica, falou pela primeira vez, este domingo, desde a eliminação da Champions aos pés do Real Madrid. O técnico fez a antevisão do jogo com o Gil Vicente, na 24.ª jornada do campeonato, mas falou de muito, muito mais.

Que espera do Gil Vicente? Que sensações tem a equipa do jogo em Madrid na Champions? 
— Sobre o Gil, não há muito a dizer. Estão em quinto lugar no campeonato, têm feito um campeonato extraordinário, penso que com um grande trabalho estrutural e um mister que tem sabido potenciar ao máximo os jogadores e fazer da sua equipa uma grande equipa. Vai ser um jogo difícil, esperemos que seja difícil apenas para o adversário. Em relação à equipa, ela está bem, não está ótima porque fomos eliminados da Champions, mas a equipa sabe o que fez, sabe o que deu, e está bem. Temos algumas lesões, o Bruma teve uma lesão de alguma importância e o Sudakov já está fora há algum tempo. O facto de ter estado em Madrid no banco foi só para uma situação de ultrarrisco ou de emergência. Estes dois estão deste jogo [Gil Vicente], que se espera difícil.

Como analisa o pedido de Sidny a Vinícius para trocarem a camisola? Como foi ver o jogo fora do banco? 
— A questão da camisola não acho criticável, acho que seria evitável. Não é criticável porque é uma prática normal e corrente em jogos grandes os jogadores trocarem as camisolas; natural que tentem fazê-lo com jogadores com os quais se identificam, ou dos quais já foram companheiros, ou admiram por serem de nível estratosférico. Não vejo que seja criticável, simplesmente evitável em função do que aconteceu durante a semana. Sobre ver o jogo de fora, claro que foi uma coisa que me entristeceu e frustrou, mas o trabalho foi feito. O facto de ter ficado a ver o jogo no autocarro, uma prática que tenho quase sempre quando sou suspenso, mas tive à minha disposição quatro monitores, com quatro ângulos diferentes do jogo. A única coisa que senti falta foi do contacto direto, da empatia, da adrenalina, mas se calhar o futuro e as modernizes empurram cada vez mais os treinadores para uma situação privilegiada de controlo sobre tudo, num espaço diferente, como já se faz em alguns desportos. Mas sinceramente fiquei frustrado, mas não entendo que tenha existido qualquer tipo de impacto, positivo ou negativo. 

Como viu o penálti assinalado a favor do FC Porto [frente ao Arouca] no campeonato? Se fosse árbitro marcava aquele penálti?
 — Não vi. Qual é a tua opinião?

 — Que não é penálti. 
— Que és um gajo sério já eu sabia, há muito tempo, por isso é que somos amigos. Mas não vi.

— Os regulamentos dizem que podia ter estado nas conferências em Madrid, qual o motivo de preferir não o fazer? E a sua continuidade no Benfica, até tendo em conta a classificação, depende da conquista do campeonato? 
— Por que não estive? Por que não estive todas as vezes em que estive castigado? Porque é um princípio que é meu, que podem respeitar ou não, mas é meu. Estás impedido de ir ao balneário, de comunicar diretamente com os teus jogadores, não vejo razão para ir falar a uma conferência de Imprensa. O João Tralhão [adjunto] é um treinador como eu, com formação, experiência, muito representativo daquilo que é o Benfica, tranto ele como qualquer um dos meus assistentes, uma palavra dele é uma palavra minha, não vi absolutamente motivo nenhum para que não me fizesse representar pelo João. Se fosse uma coisa que tivesse feito pela primeira vez na vida, podia aceitar que tentassem relacionar isso com uma tentativa de fugir a alguma pergunta menos simpática, mas quem sabe da minha história sabe que perfeitamente que em todas as situações em que estive suspenso não fui a uma única conferência. Em relação ao meu futuro, tem de perguntar ao presidente Rui Costa, não a mim. A cláusula é simplesmente de facilidade de separação, seja para o lado do Benfica seja ou para o meu. É fácil, não é uma cláusula que possa hipotecar a situação económica dos clubes, como acontece muitas vezes, em que treinadores que quiserem sair têm de entrar em negociações para reduzir os montantes. É uma cláusula que em tempos chamei de cláusula de ética e respeito pelos candidatos à presidência do Benfica, neste momento chamar-lhe-ia cláusula da facilidade. É fácil, tanto para mim como para o Benfica, tomar a decisão. Falou também da classificação, há duas: a real e a virtual. Temos de nos agarrar à real, porque no fundo é aquela que conta, mas se nos quisermos agarrar à virtual, e devem saber do que estou a falar, e começarmos a contar que este tem menos dois pontos e aquele tem mais dois pontos, vai ver que pela classificação virtual há uma diferença fundamental. A real é a real, mas eu enquanto treinador e líder de um grupo tenho também de me agarrar à virtual. E a virtual é também uma motivação para nós, porque sabemos perfeitamente aquilo que tem acontecido.

O que correu bem e mal em Madrid? Qual foi a razão de ter lançado Ivanovic como ala esquerda na parte final do jogo? 
— Acho que seria mais, não diria ético ou lógico, mas justo que direcionássemos as coisas noutro sentido, que é: como é possível, o que foi feito, que crédito é que vocês têm para esta equipa, em alguns meses, passar de ser humilhada em casa contra o Qarabag a ter três jogos contra o Real Madrid da maneira como jogou, de ter saído da competição do modo como saiu. Em relação à especificidade da pergunta, há coisas que vocês não sabem, nem tem de saber, porque também faz parte do nosso trabalho de treinadores e gestores selecionarmos o que queremos que saiba e não se saiba. Sudakov estava lesionado para Madrid. Não jogou com o Aves SAD, hoje está fora dos convocados. Foi para Madrid por uma razão muito simples: no campeonato só se podem ter nove jogadores no banco, nas competições europeias podemos ter 12, o que nos abre um bocadinho mais o espaço para levarmos alguns que em condições normais não seriam convocados; por exemplo, em Madrid estiveram no banco dois guarda-redes, o Samuel Soares e o Diogo Ferreira, quando obviamente no campeonato não há espaço para dois. Sudakov foi a Madrid com muito poucas possibilidades de jogar. O Lukebakio, que parece que espantou muita gente o facto de não ter jogado, não é um jogador que está lesionado, mas está numa situação não fácil e, antecipando cenários para amanhã, amanhã volta a não jogar, principalmente de início. Temos dados científicos e objetivos que analisam o desempenho dele seja em treino, seja nos minutos que jogou frente ao Aves SAD e no jogo da primeira mão com o Real Madrid, e o Lukebakio só poderia ser utilizado nos últimos 10 minutos de jogo, qiue estávamos a prever que fossem mais cinco, seis ou sete minutos, porque houve uma lesão de um jogador do Real Madrid que se alongou muito; no caso de estarmos empatado um a um, ou estarmos a um golo de podermos prosseguirmos a nossa luta. E mesmo nesse caso ficávamos com uma dúvida, a nós, equipa técnica, que era: e se formos a prolongamento, como ele jogará 15, mais 30, que seria outro problema para nós. Há coisa internas que vocês não sabem, nem têm de saber, mas que depois é muito fácil falar e criticar. O Ivanovic entrou, como poderia ter entrado outro jogador, mas porque queríamos dar um bocadinho de mais velocidade ao lado esquerdo e ao mesmo tempo porque é um atacante de origem, que poderia atacar mais espaço e pudesse ser mais uma presença na área.

— ... 
— Depois de um Tsunami de críticas, esperava que alguém me desse oportunidade de responder, mas parece que não e tenho de ser eu a antecipar-me... Queria, de um modo muito objetivo e sintético, dizer que eu, enquanto cidadão e treinador, repudio veemente qualquer tipo de discriminação, de preconceito e ignorância. Ponto final, parágrafo. Aconselho, também veemente, algumas pessoas a perderem cinco minutinhos para lerem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que são só trinta pontos, mas há ali um ou dois que me parecem fundamentais. E a terceira coisa que queria dizer é que as críticas refletem mais os críticos, do que aquele que foi criticado.

Rui Costa já disse que José Mourinho ficava, também é essa a sua vontade? E como se gere agora um plantel, agora só para uma competição? 
— Há uma coisa que controlo que é a minha vontade, as minhas motivações e controle emocional relativamente a isso. Penso que às vezes deixam passar entre os dedos alguns sinais importantes. Quando, depois do problema dos jogos com o Real Madrid, felizmente se agarraram e disseram que eu tinha perdido uma grande oportunidade de voltar ao Real Madrid, deixaram passar, porque quiseram ou não tiveram competência, que um dia antes, nesta sala, perguntaram-me se se poderia dizer não a Florentino Pérez [presidente do Real Madrid] e a minha resposta foi: sim pode-se. Se quisesse sair do Benfica e ir para o Real Madrid, acha que diria isso? Tenho muitos defeitos, mas acha que sou estúpido? Se quisesse ir para o Real Madrid, acha que diria pode dizer-se sim ou não ao presidente do Real Madrid? Eu fui muito objetivo. Fui eu que disse que não queria ir, que entre as linhas disse que queria ficar. Agora, quero ficar e jogar um único campeonato e não dois. Jogar um campeonato real e um campeonato virtual, não gosto. Neste momento estamos a jogar dois campeonatos. Mas quero ficar, quero respeitar o meu contrato com o Benfica, se o Benfica quiser renovar o meu contrato por mais anos também assino sem discutir uma única vírgula, mas só quero jogar um campeonato, não dois.

Ainda em relação a Prestianni e Vinícius, o que espera dos jogadores num caso como este? E como reage às acusações de racismo, sobretudo por parte Álvaro Arbeloa, treinador do Real Madrid? 
— Eu amo o Álvaro e vou continuar a amar, mas continuo a achar que quem tomou a posição correta fui eu. E não ele. Mencionei isso na conferência de Imprensa quando fui confrontado com as declarações do Álvaro e de um jogador, na acusação a Prestianni e de defesa ao jogador do Real. Disse que se alguém não está a ser equilibrado eu quero seu, nem defender o meu, nem atacar o outro. Utilizei, numa flash, que não queria vestir a camisola vermelha, referindo-me ao Benfica, nem vestir a camisola branca, referindo-me ao Real Madrid, quis ser imparcial num caso que eventualmente poderá ser de grande gravidade. Quando disse para perderem uns minutos a ler a Declaração dos Direitos Humanos, referia-me à presunção da inocência. E quando digo que enquanto cidadão sou completamente, mas completamente uma pessoa que repudia qualquer tipo de discriminação, preconceito, ignorância ou idiotice, eu fiz isso, outros não o fizeram. Mas também digo se, e repito se muitas vezes, o meu jogador não respeitou estes princípios, que são os meus e os do Benfica também, esse jogador, a sua carreira com um treinador que se chama José Mourinho e num clube que se chama Sport Lisboa e Benfica, a sua carreira chega a um fim. Não sou um letrado, mas também não sou um ignorante, não tenho mestrados em Direito, nem sou licenciado em Direito, mas sou licenciado em Educação Física em Desporto, com orgulho, e tenho uma base mínima de cultura — a presunção da inocência, é um direito humano, ou não? Posso repetir 20 vezes aquilo que repudio, mas continuo com o se. A UEFA, infelizmente, para afastar o jogador do jogo, descobriu o artigo 420.328, que estava lá escondido, como motivo para o suspenderem e também eles foram na direção de não colocarem um se, que acho que deveria ter sido posto. Eu continuo com a minha: se o jogador for efetivamente culpado, não vou voltar a olhar para ele da maneira que tenho olhado e comigo... acabou. Mas tenho de colocar muitos ‘ses’ à frente.