João Pinheiro, árbitro português que estará no Campeonato do Mundo de 2026 - Foto: Imago
João Pinheiro, árbitro português que estará no Campeonato do Mundo de 2026 - Foto: Imago

Quem de nós é dos melhores do mundo?

'Livre e Direto' é o espaço de opinião semanal do jornalista Rui Almeida

Vamos lá tentar explicar, de uma vez por todas: João Pinheiro não é apenas o mais reputado árbitro português de futebol da atualidade. É um dos melhores da Europa, e esse reconhecimento tem vindo a ser crescente e notório. A UEFA, no que diz respeito à classe arbitral, não brinca em serviço. Coloca ao dispor dos colegiados as mais diversas valências, monitorizando cada treino e cada passo. Dos exames físicos muito exigentes à realização de provas técnicas e psicotécnicas, passando pelo trabalho de campo e pelas sessões de aprimoramento e de criação de espírito de grupo. Também a comunicação é treinada, talvez faltando apenas a vertente externa da mesma, com vista a dar à estampa com maior regularidade e rigor todo o imenso trabalho efetuado behind the scenes.

Pinheiro tem vindo a subir paulatinamente os degraus de uma atividade tão exigente quanto mediatizada. Promovido ao grupo de Elite da UEFA há pouco mais de um ano (em janeiro de 2025), esteve já em dois Mundiais (sub-17 na Indonésia e sub-20 no Chile), foi árbitro da última Supertaça Europeia e, um pouco antes, tinha integrado, como quarto árbitro, a equipa que dirigiu a final da Liga dos Campeões de 2025.

A sua designação para o Mundial era quase certa. Mas, como em tudo na vida, há imponderáveis e, por vezes, razões que a razão desconhece. Neste caso, importa sublinhar que existe uma perfeita articulação entre as Comissões de Arbitragem da UEFA e da FIFA, desde logo porque são italianos os seus máximos responsáveis: Roberto Rosetti pela Europa, Pierluigi Collina pelo planeta futebol. Mas também porque importa aos dois organismos reunir todos os dados que permitam uma tomada de decisão segura, plena, responsável.

Com o aumento do número de jogos da fase final do Mundial de 2026 (o primeiro com 48 seleções e, portanto, com mais 40 jogos do que os anteriores, para um total de 104), era natural que a arbitragem europeia pudesse, também, ser beneficiada com mais dois ou três lugares na listagem final, que, sublinhe-se, integra juízes de campo, árbitros assistentes, árbitros de suporte (normalmente destinados às funções de fourth official) e árbitros assistentes de vídeo (VAR), das seis confederações continentais membros da Federação Internacional de Futebol.

Portanto, nesta geografia alargada, importa contentar todos os recantos do mundo e, na medida do possível, acomodar uma ampla representação geopolítica.

A Europa contribui com 15 árbitros para o Mundial das Américas. Mas apenas 13 são juízes centrais, e far-se-ão acompanhar dos habituais assistentes. É o que sucede com João Pinheiro, que terá ao seu lado os inseparáveis (e muito experientes…) Luciano Maia e Bruno Jesus. A Inglaterra e a França continuam com os seus dois árbitros principais. Franceses com Clément Turpin (vai para o terceiro Mundial consecutivo, depois da Rússia e do Qatar) e François Letexier, juiz da final do Euro-2024 e nova coqueluche da arbitragem gaulesa, e ingleses com os inevitáveis Anthony Taylor e Michael Oliver. O que diminui ainda mais o número de países do velho continente representados na lista final. Apenas 11, porque há dois árbitros que cruzarão o Atlântico Norte como juízes de suporte (o espanhol Alejandro Hernández Hernández e o suíço Sandro Scharer). Serão, neste caso, acompanhados apenas por um assistente, o que, no caso de Scharer, aumenta o contingente português, uma vez que se trata de Stéphane de Almeida, com dupla nacionalidade e raízes na transmontana cidade de Chaves.

Serve tudo isto para enquadrar mas, sobretudo, para enfatizar a proeza extraordinária de João Pinheiro. O homem de Barcelos que, hoje, representa a arbitragem portuguesa de futebol ao mais alto nível mundial, fruto de uma inegável vocação, aliada a muito e denodado trabalho.

Hoje, os árbitros de elite são comparáveis, na sua dimensão física e técnica, a atletas de alto rendimento e a profissionais de elevado calibre. Estima-se que cada juiz, ao longo de um normal jogo de 90 minutos, tome mais de 800 decisões, das mais simples (cujo visionamento em tempo real provoca imediata certeza), às mais complexas, entrando neste domínio fatores como a intensidade e a intencionalidade.

O estudo prévio dos modelos de jogo das equipas envolvidas e do comportamento habitual dos jogadores é, portanto, essencial para garantir suporte a montante do apito inicial. O auxílio pleno dos assistentes, a comunicação entre a equipa de arbitragem, o apoio indispensável do quarto árbitro (que, desenganem-se, não se limita a levantar placas e a registar substituições!…), e o backup concedido pela tecnologia e pela articulação com a equipa VAR são elementos fundamentais para garantir o sucesso do trabalho ao longo de uma partida de alta voltagem, intensidade e dimensão mediática.

O João, o Luciano e o Bruno já ganharam a temporada. Na próxima quinta-feira, estarão de novo em ação para um decisivo encontro europeu, e, nos meandros da arbitragem internacional, sustenta-se que é um dos nomes muito bem colocados para dirigir a final da Liga Europa.

Nas Américas, é expectável que possam ser nomeados, no mínimo, para apitar três jogos da fase final do Mundial.

São do melhor que o Mundo tem nesta arte. Quantos de nós, nas nossas profissões, integramos os melhores da Europa e os 52 melhores do planeta?

Quanto ao resto, tão habitual em Portugal, é mesmo o resto, e só justifica o velho ditado luso: «Os cães ladram e a caravana passa…»

Cartão branco
A receção feita pelo FC Porto (quer a nível institucional, quer pelos adeptos a partir das bancadas do Estádio do Dragão) a Vítor Pereira confirma que o futebol ainda pode ser grato e bonito. Pereira foi adjunto de André Villas-Boas e, depois, campeão, ele próprio, pelos dragões. Escreveu páginas brilhantes vestido de azul e branco, e partiu, naturalmente, para construir a sua vida e a sua carreira fora de portas. Mas a memória, que jamais pode ser curta, veio à tona de água na noite de quinta-feira, com a visita do treinador ao que fora o seu estádio e o seu clube. Homenageado, aplaudido, recordado. É assim que sempre deve ser, numa atitude (também institucional) muito bonita por parte dos responsáveis do FC Porto. A História escreve-se com as conquistas, mas constrói-se com as memórias.