Manter Mourinho não é apenas uma decisão desportiva. É uma declaração estratégica. Significa aceitar que o erro não está apenas no banco — Foto: SL BENFICA
Manter Mourinho não é apenas uma decisão desportiva. É uma declaração estratégica. Significa aceitar que o erro não está apenas no banco — Foto: SL BENFICA

Entre a promessa e o abismo

Este Benfica tem-se habituado a triturar treinadores. E fá-lo sempre da mesma forma. Promete-lhes um projeto, entrega-lhes um puzzle incompleto e, quando as peças não encaixam, questiona o homem que tenta montá-lo. Bar Nilo é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Há clubes que vivem de vitórias e há clubes que vivem de ciclos. O Benfica, nos últimos anos, parece ter-se condenado a um lugar intermédio, uma espécie de purgatório onde a esperança renasce a cada verão apenas para ser consumida lentamente até ao inverno seguinte.

A discussão sobre a continuidade de José Mourinho não é nova. Na verdade, tornou-se quase estrutural, como se o treinador fosse apenas mais um capítulo de uma narrativa que se repete com pequenas variações.

Antes dele, foi Roger Schmidt. Antes dele, foi Bruno Lage. Em ambos os casos, a pergunta nunca foi apenas sobre o treinador. Foi sempre sobre o que o rodeava, sobre a qualidade das decisões tomadas acima dele, sobre a coerência de um projeto que parece dissolver-se ao primeiro sinal de frustração ou, simplesmente, que parece nunca existir.

Desta vez, porém, há um agravante que torna o cenário mais pesado. O investimento. Mais de 130 milhões de euros gastos para construir um plantel que, paradoxalmente, parece inferior ao anterior. Não se trata apenas de perceção, mas de uma comparação direta, quase cruel na sua simplicidade. Onde havia estabilidade, há agora dúvida. Onde havia rendimento, há intermitência.

A substituição de peças-chave revela mais do que um erro pontual. Expõe uma lógica falhada. Trocar segurança por potencial pode ser um risco calculado. Trocar rendimento comprovado por incerteza recorrente é outra coisa. E o Benfica fez isso demasiadas vezes num só mercado.

O problema não é apenas quem chegou. É o que se perdeu sem reposição à altura. A sensação de que o plantel ficou mais caro e menos competitivo é o tipo de equação que raramente termina bem. No futebol moderno, gastar muito não é garantia de sucesso, mas gastar mal é quase sempre garantia de falhanço.

O mercado de inverno, que tantas vezes serve de correção, funcionou aqui como amplificador de erros. Mais investimento, menos retorno. Mais ruído, menos soluções. E no meio disso, jogadores incapazes de se afirmar, mesmo aqueles que chegaram com estatuto ou expectativa, como aconteceu com Rafa.

É neste contexto que se avalia Mourinho. E é aqui que a análise exige alguma honestidade intelectual. O treinador cometeu alguns erros, tem várias opções discutíveis, procurou e mudou a fórmula muitas vezes. Nas escolhas, nos momentos, na gestão emocional de uma época que rapidamente se tornou instável. Mas reduzir o problema a Mourinho seria conveniente e, ao mesmo tempo, profundamente errado.

Este Benfica tem-se habituado a triturar treinadores. E fá-lo sempre da mesma forma. Promete-lhes um projeto, entrega-lhes um puzzle incompleto e, quando as peças não encaixam, questiona o homem que tenta montá-lo.

Para Rui Costa o dilema é claro: resistir à tentação de recomeçar ou ceder à pressão de um ambiente que exige respostas imediatas. A história recente sugere que a mudança de treinador é o caminho mais fácil. Também sugere que é o menos eficaz.

Manter Mourinho não é apenas uma decisão desportiva. É uma declaração estratégica. Significa aceitar que o erro não está apenas no banco. Significa dar poder, mas também assumir responsabilidade.

Tudo isso obriga a um mercado diferente. Um mercado onde o Benfica terá de ser mais pragmático do que ambicioso, mais criterioso do que exuberante. Vender abaixo do que investiu, sim, é inevitável tendo em conta a desvalorização de alguns jogadores contratados por valores entre €20 M e €27 M. E aqui, de todas as contratações, salva-se Dedic como o único que realmente acrescentou qualidade à posição, sendo o menos dispendioso do mercado de verão (€12 M).

A obrigatoriedade de reinvestir melhor e a inevitabilidade (mais ainda sem o apuramento para a UEFA Champions League) de usar receitas futuras, como a  verba dos direitos audiovisuais para duas épocas que ronda os €100 M. No fundo, uma fuga para a frente sem hipótese de novo capítulo caso volte a falhar.

Mas há outra dimensão, menos tangível e igualmente decisiva. A postura institucional. O futebol português tornou-se um espaço de confronto permanente, onde o silêncio é frequentemente interpretado como fraqueza. Mourinho, como sempre, não é um homem de silêncio. Quer um clube alinhado com a sua forma de estar, combativa, assertiva, quase beligerante quando necessário.

Essa não tem sido a identidade recente do Benfica. E talvez seja aqui que reside a maior divergência. Não nas ideias de jogo, não nas escolhas táticas, mas na forma como o clube se posiciona no ruído constante que o rodeia.

No fundo, Mourinho e Rui Costa precisam um do outro. O treinador precisa de provar que ainda pertence ao topo do futebol mundial, que a sua narrativa não terminou num banco distante de Istambul. O presidente precisa de provar que consegue construir algo sustentável, que não vive apenas de memórias e símbolos. E, no entanto, apesar desta necessidade, parecem olhar para o mesmo problema a partir de ângulos diferentes.

O futuro do Benfica não será decidido apenas nos resultados da próxima época. Será decidido nas decisões tomadas antes dela começar. No tipo de plantel que for construído. No grau de confiança que for estabelecido. Na capacidade de aprender com erros que já não são novos. Porque, no fim, a questão nunca foi apenas quem treina o Benfica. A questão é que Benfica quer existir, como quer estruturar-se, como quer jogar. E essa é uma pergunta à qual o clube não tem conseguido responder. E que ultrapassa muito Mourinho ou qualquer outro treinador.