A saúde mental do principal ativo do futebol — os jogadores
O futebol é, para muitos, apenas golos, assistências e títulos conquistados. Mas há um jogo silencioso que se desenrola longe das câmaras e dos holofotes — a saúde mental dos jogadores. Ansiedade, depressão, stress e crises emocionais não escolhem idade, talento ou fama. Dos jovens das academias às maiores estrelas mundiais, a pressão constante, as expectativas e os desafios da carreira podem deixar marcas profundas que, durante muito tempo, ficaram escondidas atrás de um sorriso ou de uma exibição irrepreensível.
Um dos casos mais trágicos e emblemáticos deste lado oculto do futebol é o de Jeremy Wisten, jovem talento da academia do Manchester City que, com apenas 18 anos, viu a sua carreira interrompida de forma cruel após ser dispensado. Sentindo-se isolado, sem apoio e incapaz de lidar com a frustração de não atingir o patamar que idealizava, Wisten tirou a própria vida, um alerta doloroso para as academias e para um sistema que, demasiadas vezes, abandona emocionalmente quem não chega lá.
Nem as estrelas estão imunes a estas batalhas interiores. Michael Carrick, antigo médio do Manchester United e da seleção inglesa, revelou que a derrota na final da Liga dos Campeões da UEFA de 2009 deixou marcas profundas. Um erro num momento decisivo perseguiu-o mentalmente durante quase dois anos e levou-o a questionar o seu lugar no futebol profissional. É a prova de que até os palcos mais grandiosos podem carregar um peso psicológico duradouro.
Também Rio Ferdinand tem falado abertamente sobre o impacto do abuso online e da exposição mediática no bem-estar emocional dos jogadores. Na sua geração, imperava a cultura do não demonstrar fraqueza. Hoje, a mensagem é outra — reconhecer vulnerabilidades é um ato de coragem.
O espanhol Andrés Iniesta, lenda do Barcelona e campeão do mundo pela seleção espanhola, confessou ter enfrentado episódios de depressão no auge da carreira, agravados pela morte do amigo Dani Jarque e pela pressão de manter um nível competitivo aparentemente infinito.
Já Josip Ilicic, antiga referência da Atalanta, passou por uma depressão severa durante a pandemia de Covid-19, num contexto de isolamento e incerteza. O seu afastamento prolongado mostrou que a recuperação psicológica exige tempo, apoio e compreensão.
Mais recentemente, Ronald Araújo falou sobre um período de ansiedade que evoluiu para depressão, levando-o a pedir afastamento temporário ao Barcelona para tratamento. A decisão foi um marco — cuidar da saúde mental é tão legítimo quanto recuperar de uma lesão muscular.
Do lado brasileiro, Richarlison revelou a sua luta contra a depressão após a eliminação do Brasil no Mundial de 2022. A terapia, segundo o próprio, foi decisiva para reencontrar equilíbrio. Dele Alli, por sua vez, partilhou batalhas profundas com a saúde mental, incluindo vício em comprimidos para dormir e traumas de infância, numa tentativa de alertar jovens atletas. E Adriano, antigo avançado do Inter de Milão, viu a sua carreira afetada por depressão e problemas com álcool após a morte do pai.
Estes exemplos mostram que a saúde mental no futebol não escolhe estatuto. Mas há uma questão estrutural que importa colocar — os jogadores são o principal ativo do jogo, o seu capital humano essencial. E, no entanto, estão cada vez mais esmagados pela densidade dos calendários. A sucessão de competições nacionais e internacionais, verões sem verdadeira pausa competitiva, um Mundial de 2026 já no horizonte e um Mundial de Clubes em 2025 que voltou a comprimir o calendário levantam uma dúvida legítima: estão os atletas a ser devidamente preservados, física e mentalmente? Lesões recorrentes, fadiga acumulada e desgaste emocional não são fenómenos isolados, são sintomas de um modelo que exige sempre mais, quase sem tempo para recuperar.
Ao mesmo tempo, importa refletir sobre o que acontece quando o apito final chega para sempre. Será suficiente a integração que o futebol faz da experiência dos ex-jogadores no desenvolvimento do próprio jogo? A formação pós-carreira, enquanto valorização de competências, é decisiva para que antigos futebolistas possam devolver conhecimento acumulado e, simultaneamente, encontrar uma saída estruturada para o abandono competitivo. Para além da formação académica tradicional, o trabalho desenvolvido por instituições como a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal, com múltiplas iniciativas formativas e programas de capacitação, tem sido crucial. Investir nesta transição é investir na sustentabilidade humana do próprio sistema.
Por outro lado, coloca-se uma pergunta essencial: estarão hoje os clubes verdadeiramente preparados, no domínio da saúde mental, para um acompanhamento que, em muitos casos, exige abordagens individualizadas? Ter psicólogos no organigrama é importante, mas será suficiente se a cultura interna não acompanhar? Justiça seja feita: em Portugal, a voz permanente de defesa do jogador tem sido exercida pelo Sindicato dos Jogadores, através do trabalho militante e consistente de Joaquim Evangelista e da sua equipa. Apesar da sua natureza sindical, o organismo tem sabido sentar-se à mesa e contribuir construtivamente nos mais diversos fóruns do futebol nacional e internacional. Importa que os restantes parceiros, clubes, ligas, federações, acolham cada vez mais o contributo que os jogadores podem e devem dar, também fora do campo.
O futebol não pode ser apenas golos e troféus. Precisa de cuidar das pessoas que o tornam possível. Desde jovens como Jeremy Wisten a capitães e campeões mundiais, todos são vulneráveis. Proteger os jogadores implica rever calendários, estruturar apoios psicológicos eficazes, preparar o pós-carreira e ouvir quem vive o jogo por dentro.
Prevenir, apoiar e educar não é opção mas sim uma necessidade urgente. Só assim o desporto-rei será verdadeiramente humano, seguro e sustentável, dentro e fora das quatro linhas.
E se tiveres um problema, não esperes em silêncio: fala, procura ajuda e recorre a um especialista. A tua saúde mental vale tanto quanto qualquer golo ou troféu.