Prestianni fez as assistências para os dois golos do Benfica — Foto: Miguel Nunes

Jogar (bem) para uma goleada e continuar a viver intranquilo (crónica)

Pode parecer paradoxal, mas foi mesmo assim: Benfica marcou cedo dois golos, e desperdiçou uma boa meia dúzia (até um penálti). Como se ficou pelo 2-0, abriu portas a que, a qualquer momento, o Nacional entrasse na luta pelo resultado…

Ainda com as feridas provocadas pelo golo do ganso Rafael Brito por sarar, a equipa de José Mourinho teve, no Nacional, um adversário que podia ter servido para suavizar as relações com o Terceiro Anel.

Galeria de imagens 20 Fotos

Apesar de uma versatilidade que lhe permitiu alterar posicionamentos — especialmente através das várias colocações que Matheus Dias assumiu —, alguns dos quais contemplavam a utilização de defesa a cinco, a turma insular não estacionou nenhum autocarro em frente da baliza do inspirado Kaique, e sempre que se estendeu em 4x3x3 (a base) ou em 4x4x2 (com o recuo de Daniel Júnior), deu ao Benfica espaços para explanar um futebol vistoso e alegre.

Foi, pois, sem surpresa, que os encarnados, a jogar ao ritmo de Prestianni (fez um jogo de mais a menos) cedo chegaram ao 2-0, e ficaram-se a dever-se alguns golos mais, ao longo dos primeiros 45 minutos, em que a equipa de Tiago Margarido, tolhida pelo bom futebol do Benfica, foi praticamente inofensiva. 

Mas o que fizeram, de tão positivo, os encarnados ao longo da primeira parte? Basicamente, aplicaram os princípios de jogo de uma equipa moderna, com pressão alta a sufocar o adversário na saída de bola, com dois extremos bem abertos e bem apoiados, com um elemento mais solto (Rafa), nas costas de Pavlidis, e com muito compromisso defensivo por parte de Ríos e Barreiro.

Foi assim que, não fora o poste da baliza de Kaique e um desmesurado altruísmo de Rafa, a que se aliou falta de instinto matador numa mão cheia de situações, o Benfica construiu condições para ter ido para o balneário com um resultado substancialmente mais folgado. 

Valerá a pena, por uma questão pedagógica, falar de um lance, aos 22 minutos, em que Fábio Veríssimo mostrou o cartão amarelo a Dahl, por alegadamente ter tocado na cara de Daniel Júnior. Trata-se de uma situação que carece de revisão urgente, porque se tornou moda entre os jogadores, cada vez que são atingidos pela mão do adversário, independentemente da geografia corporal, se agarrarem à cara. No caso vertente, o toque foi no peito, mas valeu admoestação ao sueco. E o que é preocupante é que esta forma de estar é transversal a todos os emblemas, e os árbitros, sem hipótese de reversão-VAR, estão a dar-lhe cobertura.

Menos Benfica

Tem sido norma (Qarabag à parte) as segundas partes do Benfica serem melhores do que as primeiras. Com o Nacional foi ao contrário. Os jogadores de Mourinho regressaram ao relvado como que anestesiados, e não se opuseram quer à pressão alta que Tiago Margarido ordenou à sua equipa, quer a períodos de posse de bola prolongados por parte dos insulares.

Foi preciso Trubin aplicar-se a fundo aos 54 minutos perante José Gomes, para evitar males maiores aos encarnados que, dois minutos depois dispuseram de um castigo máximo (por falta sobre Schjelderup, que está numa forma notável). Parecia que o 3-0 anunciado ia acabar com todas as dúvidas, mas a desinspiração de Pavlidis estendeu-se aos onze metros e Kaique, um especialista na matéria, manteve a diferença em dois golos. 

A partir da hora de jogo, com o refrescamento da equipa insular (Pablo Ruan e Filipe Soares, e o progressivo apagamento de Prestianni, que deixou de acompanhar as subidas de José Gomes, o Nacional cresceu na partida e o Benfica, mesmo que tenha sido perdulário em duas ocasiões (63 e 68), foi-se revelando crescentemente ansioso, provocando um efeito de contágio nas bancadas, que já depois de terem apanhado um susto (Chucho Ramirez, aos 66 minutos, meteu a bola no fundo das redes de Trubin, mas o lance foi invalidado por falta precedente sobre Pavlidis), manifestaram o seu desagrado (76 minutos, quando Jesús Ramírez rematou para Trubin defender), à laia de puxão de orelhas à equipa encarnada.

José Mourinho foi então ao banco (78) buscar reforços — Ivanovic, Aursnes, Lukebakio e Enzo Barrenechea — e o Benfica recompôs-se, voltou, com o reforço do meio-campo, a pegar no jogo e a fechar a porta à ambição madeirense, ao mesmo tempo que a maior lucidez de Ivanovic e Lukebakio criou várias situações de golo, duas delas desfeitas por Kaique, primeiro a dar o peito à bala de Ivanovic e depois ao realizar a defesa da noite a um petardo de Barreiro.

Mourinho ainda teve tempo para dar a Gonçalo Moreira a oportunidade de ouvir uma ovação do Terceiro Anel,  mas a história do jogo estava escrita: o Benfica tinha presenteado os seus adeptos com uma exibição de muito bom nível na primeira parte; não respondeu bem à maior ousadia insular no início da segunda; e teve de se reagrupar para regressar ao domínio de uma partida em que teve tudo para golear, mas deixou-se sujeitar à ingratidão do 2-0, um resultado que nunca permite dar por encerrada a função.