Ian Cathro: «José Mourinho é um senhor, só dá para aprender com ele»
Ian Cathro não esconde que quase tudo é diferente entre o que fez no Estoril e o que quer alcançar à frente do Saint Étienne. Certo é que já captou a atenção de José Mourinho, depois de enfrentar o ex-técnico do Benfica em duas ocasiões na época passada.
— O Saint Étienne é o segundo clube com mais títulos de campeão da Ligue 1, com 10, só atrás do PSG, isso teve peso na decisão de assinar pelo clube, mesmo indo para uma segunda divisão?
— Nunca pensei que estava a ir para uma segunda divisão. Conheço o momento do clube, mas só olhei para a grandeza dele. É um grande, num momento diferente da sua história, mas continua a ser um grande, com boas pessoas e muita competência na direção. E senti que queria fazer parte do projeto.
— Só um clube dessa dimensão é que o faria sair do Estoril?
— Houve várias coisas. O futebol está feito de ciclos e talvez estivesse a chegar o fim de um ciclo. Conseguimos o nosso objetivo no Estoril. Estava a falar da competência dos donos e dos dirigentes do Saint-Étienne, também senti isso quando estava a iniciar as conversas com o Estoril. E optei por ir para o Estoril, não tanto por ser um adepto do clube, que conhecia um pouco, mas mais do que isso, por ter uma boa sensação com as pessoas responsáveis.
— O Saint Étienne sempre lhe disse que o objetivo era subir de divisão?
— Nem era preciso dizer. Isso é algo tão óbvio que não perdemos tempo a falar disso. Acho que o nosso foco no dia a dia tem de estar muito mais em construir uma equipa, em construir algo novo para que as pessoas possam sentir que, desta vez, vai ser diferente. Estamos completamente focados nisso.
— A imprensa em França diz que a equipa se adaptou bem às suas ideias; essas ideias que está a aplicar no Saint Étienne são parecidas com as que aplicou no Estoril?
— Acho que vai haver sempre semelhanças no trabalho de um treinador, porque uma das coisas que uma pessoa tem de ser sempre é autêntica. Mas eu tinha um plano muito específico para o Estoril, que tinha muito a ver com a capacidade de mudar algumas ideias, algumas mentalidades, o não jogar com medo, foi disso que andei a falar quase todas as semanas. Aqui o objetivo e o contexto são completamente diferentes, por isso, o futebol também tem de ser diferente, porque não há comparação entre as duas coisas. Esta época temos de ter sucesso e a equipa precisa de ter outras coisas porque tem outra responsabilidade.
— Passou de um clube que não lutava por títulos para um clube que quer subir de divisão. Sente uma pressão diferente por isso? E como tem lidado com ela?
— Isso até pode ser um ponto bom, e de certeza que me trouxe algumas frustrações durante os dois anos no Estoril. Eu já passei por grandes clubes e por grandes competições. Então isso [a pressão] não é nada de novo. Sentir essa responsabilidade, ou às vezes dizemos pressão, acho que já estou um bocadinho velho para andar a sentir pressões. É uma grande oportunidade e acredito que vamos constuir algo que perdura. É disso que este clube precisa.
— Procura alcançar essa estabilidade a longo prazo, olhando para os desafios sem medo e não tanto para a pressão, mas sim para a responsabilidade de alcançar algo?
— Sim. Nós temos que trabalhar de uma maneira que permita ter sucesso hoje, mas a maneira como nós fazemos as coisas hoje também têm que ajudar o próximo passo na semana seguinte, no mês seguinte, na próxima janela de transferências. Não é que olhemos muito para próxima época, mas ela vai chegar, não é? É preciso um bom equilíbrio em muita coisa para tentar fazer o melhor trabalho possível.
— Qual é a maior diferença do Saint Étienne de Ian Cathro para o Estoril de Ian Cathro?
— Estou mais feliz porque tenho dois campos de treino lado a lado. Posso beber um café e sair do campo, não tenho que ir para o autocarro perder 40 minutos do meu dia. No dia a dia é mesmo isso. Mas sinto-me muito confortável. Eu acho que temos conseguido uma boa energia entre as pessoas. Estamos a colaborar bem e com cada treino e a cada jogo que passa tenho mais sentimento pelos jogadores também. Acho que está a crescer alguma coisa. Há poucas equipas e grupos que têm algo um pouco mais especial, um pouco diferente. Tive sorte em alguns sítios, sempre falei da equipa do Wolverhamptons, onde aprendi muito neste ambiente e, sinceramente, os principais jogadores do Estoril naqueles dois anos foram espectaculares, boas pessoas. E sinto que aqui temos um grupo que está a crescer muito bem.
— José Mourinho enviou-lhe uma mensagem quando chegou ao Saint Étienne, voltou a receber mensagens dele?
— Aqui e ali.
— É uma relação curiosa, até porque passaram pouco tempo no mesmo campeonato.
— Sim, ele é mesmo um senhor. Só dá para aprender com pessoas deste nível.