Treinador do Saint Etiénne aborda o desafio que tem pela frente
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Ian Cathro foi para o Saint Étienne «tentar fazer algo maior do que subir de divisão»

O treinador já tem saudades de Portugal, após dois anos à frente do Estoril. Agora está no Saint Étienne com um objetivo claro, que abordou numa entrevista com A BOLA, na qual fala de um arranque de temporada prometedor, que coloca a equipa na liderança da Ligue 2

Ao fim de sete jornadas, é o Saint Étienne de Ian Cathro que comanda a Ligue 2 com 16 pontos, mais dois do que o Red Star. A equipa tem também o melhor ataque da prova (19 golos), mas o escocês salienta que é preciso trabalhar muito mais para alcançar tudo o que pretende, num desafio diferente do que encontrou no Estoril.

— Ganhou os primeiros cinco jogos o Saint Étienne, nos quais marcou 16 golos e só sofreu quatro. Neste início de época, têm sido os jogadores que se adaptam mais às suas ideias, ou o Ian é que se adaptou mais ao plantel?

— A resposta a essa pergunta é sempre um bocadinho das duas coisas. Obviamente que tivemos que começar a pré-época a construir alguma coisa e tudo começa com estrutura, e ao longo do tempo começas a conhecer os jogadores cada vez mais. Eu acho que também conseguimos trabalhar bem no mercado, na identificação dos perfis, e estamos mais perto de ter uma equipa que consegue manter um bom equilíbrio entre os dois momentos do jogo, quer seja ofensivo ou defensivo. Ainda temos muita coisa para fazer, mas acho que vamos fazer uma equipa preparada para ganhar.

— Nos últimos dois jogos, perdeu (1-2) com o Dunquerque e empatou (2-2) com o Metz, este por culpa da própria equipa, como disse após o jogo; como é que encarou estes primeiros desaires na época?

— O jogo com o Dunquerque foi estranho. Disse logo aos jogadores que se fizéssemos esse jogo 10 vezes, ganhávamos oito e talvez empatássemos uma. Mas perdemos porque é o futebol, às vezes a bola entra, às vezes bates à porta e ninguém a abre. Tivemos uma vitória (3-2) com o Dijon da qual ninguém fala e que foi um jogo mais complicado para nós. E na parte final com o Metz, depois de ter essa vantagem de dois golos… Acho que os jogadores fizeram uma entrada na segunda parte espetacular. Conseguimos tudo o que foi preciso para ganhar esse jogo. E não o conseguimos. Fizemos uma série de erros que deram um bocadinho de oxigénio para o adversário. Isto são lições e têm que ser aprendidas muito rapidamente, porque a nossa obrigação é melhorar mais depressa que os outros, porque o nosso objetivo é máximo.

— Na sua apresentação no Saint Étienne, disse que quer «formar uma equipa que ganha com ou sem bola». Após estes resultados menos positivos, sente que o jogo sem bola é um aspeto a melhorar?

— Vocês são como a Imprensa francesa, eles também estão muito negativos ao falar sobre isso.

— Eu comecei por falar das vitórias, pelo menos.

— Sim, sim (risos). Eu acho que é importante ver os jogos e perceber o que está a acontecer em campo. Também falou disso, ganhámos cinco jogos seguidos, fizemos história, blá blá blá… Mas dentro desses jogos tivemos problemas e andámos a trabalhar nesses problemas. Tivemos a felicidade de, talvez, os problemas que tivemos nesses jogos, o adversário não conseguiu tirar proveito deles. Mas nós fizemos sete jogos e não os vou separar, porque são cinco vitórias e são dois que não são. Temos os pontos que temos, estamos no sítio onde estamos e sabemos que vamos ter que melhorar mais rápido que os outros se quisermos ser a equipa que queremos ser. Pelo menos eu sinto essa motivação extra para conseguirmos construir essa equipa que nós queremos ser.

— A segunda divisão de França é um campeonato muito competitivo?

— Sim, primeiro, tens Saint Étienne, Nantes, Montpellier, Metz e Stade de Reims. Estes são clubes de Ligue 1. Há cinco, seis equipas deste nível, e outras tantas capazes de se baterem com qualquer uma. Todas as equipas têm jogadores com enorme potencial físico, as equipas conseguem manter uma intensidade muito alta ao longo de quase todo o jogo. E o jogo pára poucas vezes, os jogadores não querem parar. 

— Como se equipara a segunda divisão francesa à Liga portuguesa?

— Aqui pode ser mais intenso e mais físico. Do outro lado, as nuances táticas, o nível médio do jogador, de uma forma técnica, já há alguma diferença. Não em todas as equipas, há aqui equipas que facilmente se batiam com quase todas em Portugal. 

— Acredito que os estádios na segunda divisão francesa estejam mais cheios do que os da Liga portuguesa, no geral.

— Isso é algo que… eu falei disso algumas vezes, é muito triste. Lembro-me dos nossos jogadores saírem para campo para aquecerem e não há ninguém. E nós sabemos que vamos fazer alguma coisa, durante uma hora e meia, que pode mudar a nossa vida, e naturalmente ficas num estado emocional muito alto e quando sais e há um vazio enorme. Acho que os jogadores merecem mais e não consigo perceber. Mas esse problema não há aqui.

— Em Portugal disse que não tinha medo de jogar ao ataque; agora também quer transmitir isso no Saint Étienne? Até mais que a tática e a abordagem de cada jogo, é a construção dessa uma mentalidade destemida que tem mais importância?

— Essa mensagem de instalar uma certa mentalidade vai depender sempre da pessoa, por isso, vai haver alguma semelhança, mas no Estoril era algo muito específico. Era tentar tirar uma certa ansiedade que muitas pessoas tiveram porque era a realidade antes. Não sei, mas durante quatro ou cinco anos a estar envolvido na luta pela manutenção até fevereiro ou março, abril, isso não é saudável para um clube. Não permite a planificação da próxima época. Até os donos, os investidores têm que estar um bocadinho mais cautelosos e não permite olhar muito para frente. Eu senti a responsabilidade de mexer com isso. Uma das ideias era tirar essa ansiedade, tirar o medo na forma como jogamos, na forma como encaramos os jogos. Porque o futebol que a equipa produz vai naturalmente ser alinhado com o ambiente, com o espaço psicológico das pessoas, dos jogadores e da estrutura. E era uma tentativa de mudar isso. Aqui é diferente, porque este clube não vive assim. Este clube tem a história de ganhar, é um grande. A mentalidade tem a ver com a história, com a zona, com a identidade das pessoas, porque é uma região muito específica, com uma história muito específica. E eu estou a tentar conectar as várias partes, porque a nossa maneira de estar em campo pode representar o sentimento das pessoas que vão encher o nosso estádio cada vez que a bola rola.

— Já sentiu essa conexão com os adeptos?

— Acho que está a crescer. O primeiro passo não é pedir nada aos adeptos. É tentar mostrar a nossa competência para que os adeptos tenham confiança no líder ou no projeto. Isso é algo que tem que ser conquistado e não em sete jogos, demora mais tempo, porque nós estamos a tentar fazer algo muito maior do que tentar subir de divisão.

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