André Villas-Boas critica vários comportamentos à volta do futebol - Foto: IMAGO

FC Porto: Villas-Boas denuncia práticas ilegítimas com menores

Presidente dos dragões volta a evocar 'caso' Cardoso Varela para dar um exemplo concreto

André Villas-Boas concedeu uma entrevista à revista alemã Kicker, na qual criticou duramente a exploração de jovens talentos e a forma como as regras de transferências são contornadas para maximizar lucros, usando o caso de Cardoso Varela como exemplo.

Para o dirigente portista, a transferência do jovem jogador para um clube amador na Croácia, o NK Dínamo Odranski Obrez, teve dois objetivos claros. «Primeiro, retirá-lo do FC Porto sem que o clube recebesse uma verba pela transferência», afirmou. O segundo propósito, segundo AVB, seria «levá-lo o mais rapidamente possível para outro clube de topo, provavelmente numa das cinco melhores ligas», algo que considera que ainda pode acontecer.

Villas-Boas sublinha que a saída de um jovem de um clube como o FC Porto, com um historial de desenvolvimento de talentos, para um clube amador croata «sem historial nem condições adequadas» é, «no mínimo, muito estranha». O presidente dos dragões acredita que toda a operação foi desenhada para contornar os regulamentos da FIFA, nomeadamente o artigo 19, e não teve relação com uma genuína mudança do pai do jogador para a Croácia.

«Nesse sentido, a única coisa que podíamos fazer era alertar as grandes instituições do futebol — a UEFA, a FIFA e a Federação Portuguesa de Futebol — para uma possível violação», explicou, acrescentando que era crucial denunciar estas manobras. «Consideramos que era importante denunciar veementemente estas maquinações para consciencializar que estas práticas ilegítimas com jogadores menores, infelizmente, continuam a ocorrer em todo o mundo».

Na altura, tanto a Federação Portuguesa como a croata partilharam da suspeita de que se poderia tratar de uma «transferência-ponte», o que levou a FIFA a negar inicialmente a autorização para a transferência internacional do menor. Contudo, a partir do momento em que o jogador completou 16 anos, o FC Porto ficou impossibilitado de agir.

A legalidade da mudança para a Croácia foi justificada pelo facto de o pai de Varela ter arranjado emprego numa empresa local, que, segundo Villas-Boas, pertence a um amigo do empresário que agora representa o jogador. Questionado sobre a razão pela qual a mãe do atleta, que reside em Angola, não interveio, o presidente do FC Porto revelou a existência de uma procuração.

«Há alguns anos, a família assinou uma procuração que transferia plenos poderes de representação e a custódia para outra pessoa, o senhor Wilson Sardinha, para que este pudesse agir em nome da família», detalhou. «Nesse momento, a mãe pouco poderia ter feito, a não ser revogar essa procuração, o que, por sua vez, exigiria outras diligências legais».

Agente e família ao barulho

De acordo com Villas-Boas, este empresário, Wilson Sardinha, utilizou essa procuração para oferecer Varela a vários clubes, com o objetivo de o retirar do FC Porto. «Segundo as informações que temos, foram prometidas ao senhor Sardinha comissões muito elevadas pela transferência do menor para outro clube, as quais, naturalmente, não lhe teríamos pago», concluiu.

O caso da saída de Cardoso Varela do FC Porto para o NK Dinamo Odranski Obrez, um clube amador croata, antes de rumar ao Dínamo Zagreb, continua a gerar controvérsia. O FC Porto acusa um esquema de «transferências-ponte» envolvendo agentes e clubes para contornar as regras, apontando o dedo a práticas que parecem ser recorrentes, especialmente com clubes croatas.

A controvérsia adensa-se com a suspeita de que o pai do jogador terá recebido uma comissão, ou pelo menos a promessa de uma, após ser abordado por um grupo de agentes envolvidos na transferência. A ligação tornou-se mais clara quando se soube que o pai de Varela era funcionário de uma gráfica pertencente a um amigo do agente que viria a representar o jovem jogador. Curiosamente, durante o tempo em que Cardoso Varela esteve no clube, o seu pai nunca foi visto nas instalações, nem o jogador alguma vez o mencionou.

Este método não parece ser um caso isolado. Há suspeitas de que se trata de um modelo de negócio para contratar talentos menores através de clubes mais pequenos, infiltrados por agentes. Acredita-se que pessoas ligadas à agência Niagara estejam envolvidas, sendo que esta já terá utilizado táticas semelhantes no passado. Casos como os de Mika Faye, Dani Olmo e agora Cardoso Varela levantam «questões sérias» sobre estas práticas.

Apesar de Varela ter chegado ao futebol profissional no Dínamo Zagreb, o FC Porto lamenta a forma como todo o processo decorreu. O clube croata, segundo os dragões, não demonstrou qualquer preocupação com as circunstâncias da transferência e nem sequer contactou o FC Porto, tentando inclusivamente evitar o pagamento da compensação de formação devida pelos anos em que o atleta esteve no Olival. «É uma pena. Varela, tal como Rodrigo Mora, já poderia estar a jogar na equipa principal do Porto», lamenta uma fonte do clube, que revela que estava planeado que o jovem fizesse a pré-época com a equipa principal nesse ano.

Ligação ao Barcelona negada

Quanto a um alegado acordo com o FC Barcelona, garantido pela agência Niagara, uma conversa com Deco, lenda do clube e atual diretor desportivo dos catalães, terá desmentido essa informação. Ainda assim, o FC Porto deseja o melhor ao jogador: «Não temos nenhum problema com ele, mas sim com a forma como a situação foi gerida».

O clube portista defende ainda a necessidade de proteger o investimento feito na formação. A dificuldade em levar os jogadores a assinar o primeiro contrato profissional, como no caso de Varela, a duração máxima de três anos desses contratos e a «compensação financeira muito modesta» prevista pela FIFA são apontados como os principais problemas. Para os clubes formadores, como o FC Porto, as receitas de transferências são cruciais para reinvestir nas academias, algo que, em última análise, beneficia os próprios jovens atletas.

Infelizmente, é a única luta que podemos travar de momento», conclui a mesma fonte, que apela a que a FIFA investigue «de forma extremamente minuciosa as circunstâncias das transferências de menores

Face a este cenário, o FC Porto continua a chamar a atenção para o caso de Varela e para todos os envolvidos, na esperança de evitar que situações semelhantes se repitam. «Infelizmente, é a única luta que podemos travar de momento», conclui a mesma fonte, que apela a que a FIFA investigue «de forma extremamente minuciosa as circunstâncias das transferências de menores».

Numa entrevista ao jornal alemão Kicker, André Villas-Boas abordou o polémico caso da transferência de Varela, criticando o papel dos agentes e apelando a uma maior solidariedade entre clubes e a uma fiscalização mais rigorosa por parte da FIFA.

Apesar de o FC Porto ter recorrido a vias legais, as autoridades consideraram legítima a mudança de Varela para a Croácia. Questionado sobre se isso ilibava os agentes envolvidos, Villas-Boas foi perentório: «De modo algum». O dirigente recordou que a transferência para o NK Dinamo Odranski Obrez foi inicialmente bloqueada pela FIFA, deixando o jovem jogador sem clube até completar 16 anos, altura em que assinou pelo Dinamo Zagreb. «Acreditamos que foi a decisão correta bloquear a sua transferência para o Dinamo Odranski», afirmou, acrescentando que, aos 16 anos, um jogador pode assinar por qualquer clube.

Villas-Boas espera que a atenção mediática sobre este caso sirva de alerta para outras famílias sobre «o papel que os agentes gananciosos podem desempenhar». Na sua opinião, os grandes perdedores nesta situação foram «o rapaz, que tinha aqui um ambiente estável e protegido para crescer e evoluir, e, claro, o FC Porto». Em contrapartida, os beneficiados foram «a família e, provavelmente, a pessoa que detém a procuração», bem como, futuramente, «os agentes de jogadores que investiram na mediação desta transferência».

Para evitar que casos como este se tornem um precedente, Villas-Boas defende que a FIFA deve ser «extremamente minuciosa» ao investigar as transferências de menores, especialmente quando implicam a mudança dos pais para o país do novo clube. Sugere que seja obrigatório comprovar a ausência de ligações a agentes, a existência de contratos de trabalho de longa duração para os pais e um período mínimo de permanência do jogador no clube.

As ditas 'transferências-ponte'

O presidente do FC Porto considera que o caso Varela vai além das chamadas «transferências-ponte», que a FIFA proíbe para evitar que as mesmas sirvam apenas para maximizar o lucro de terceiros, focando-se antes na questão mais ampla da transferência de menores. Confrontado com a questão de um abuso sistemático no futebol de formação, com jovens a serem aliciados por agentes com falsas promessas, a sua resposta foi um inequívoco «Sem dúvida».

Como solução, Villas-Boas aponta o exemplo da Federação Argentina de Futebol, que impede jogadores menores de representarem a seleção nacional caso se transfiram para o estrangeiro sem o consentimento do clube formador. «Medidas como esta surtem efeito. Obrigam as pessoas a pensar e ajudam a combater a ganância dos agentes que aliciam jovens talentos com falsas promessas», sublinhou.

Por fim, o dirigente apelou a uma maior solidariedade e respeito mútuo entre os clubes, criticando a crescente tendência de jogadores passarem das academias de grandes clubes para outras academias de topo. Segundo Villas-Boas, esta prática «apenas inflaciona as comissões para os agentes, os pagamentos às famílias e os contratos para os jogadores».