Faltas de respeito, filho enxovalhado, pressão que vale bola e o futuro. Tudo o que disse Rui Borges
- Seis dias, três jogos. Olhando para dentro. Como está a equipa e o que pretende para este ciclo que se segue?
- A equipa está motivada para dar uma resposta diferente, como é óbvio. Sabemos todos o clube que representamos, já disse isso várias vezes, e a exigência do que é jogar no Sporting e o que é querer ganhar sempre e todos os jogos. Por isso, a equipa está motivada para fazer um bom jogo. Sabemos das dificuldades que será o jogo. É tentar abstrair ao máximo de tudo aquilo que é ruído dos resultados menos positivos com o LASK e com o Académico, temos de saber viver com isso. Dentro disso, é focar-nos naquilo que é o nosso trabalho, tentar fazer o nosso melhor, focar-nos no adversário. É um jogo diferente, estratégia diferente, características diferentes, mas, acima de tudo há uma vontade grande de voltar às vitórias.
- Em caso de um resultado que não seja a vitória perante o Casa Pia, sente que irá sair do Sporting ou, mesmo ganhando, se também sente, até pelas notícias que vão surgindo, que está a curto prazo como treinador do Sporting?
- Isso a prazo os treinadores estão sempre, desde o primeiro dia. Desde que estou no Sporting, desde o primeiro dia, estou sempre a prazo. Por isso... Estou focado naquilo que controlo, que é o jogo, e fazer o melhor pelo Sporting, pela equipa, ajudar a equipa ao máximo e trazer de lá a vitória, que é esse o nosso único foco.
- Qual o seu estado de espírito em torno de todo este ruído, que está a prazo, fala-se em treinadores que podem vir ocupar o seu lugar. Como é que o Rui também vive isto? Diz que tem falado quase sempre com o presidente. Isso é um assunto que aborda com ele ou é completamente imune a este tipo de questões?
- Como é óbvio, não vou estar aqui a dizer tudo das conversas com o presidente todos os dias. Falamos muito daquilo que é o nosso dia a dia, da equipa. De resto, aquilo que é ruído para mim, já disse isso várias vezes, bola, zero. Passa-me completamente ao lado, mas podem acreditar mesmo que me passa ao lado. Não me preocupa absolutamente nada. Muito focado no meu trabalho. Já disse aqui várias vezes: não cheguei ao Sporting de paraquedas. Não era o melhor treinador do mundo quando fui campeão, não sou o pior quando alguns resultados são menos positivos. Jamais duvido daquilo que somos enquanto equipa.
- Sente que numa época em que houve uma revolução no plantel, numa altura em que o treinador e a equipa são muito criticados, é preciso pedir tempo para ter uma equipa à imagem do treinador? E quem é que teve a ideia da revolução: treinador ou a SAD?
- Sei bem o clube em que estamos. Já disse aqui desde o primeiro dia que o diálogo é muito positivo. Por isso sabemos bem aquilo que é a estratégia do clube, o que é olhar para o futuro do clube também. Foi sempre em concordância de todos juntos, naquilo que foram as opções. É óbvio... podia estar aqui a dizer que precisávamos de tempo mas no futebol não há tempo. Os treinadores não têm tempo, por isso digo sempre que o treinador está a prazo desde o primeiro dia, não é quando os resultados são bons ou menos bons. Há treinadores que dizem que as malas estão sempre prontas, não é? Por isso, estamos sempre a prazo. Mas não vou justificar com o tempo. Sabemos aquilo que é a exigência do Sporting. Claro que posso dizer: «Precisamos de mais tempo?» Sim, claro, é óbvio que precisamos. Já disse várias vezes isso. É preciso algum tempo, basta olhar para o contexto que vieram muitos dos jogadores para jogar numa equipa que luta pelas competições todas. A exigência é totalmente diferente, os comportamentos que tinham nas equipas já eram totalmente diferentes.
- Tendo em conta esta sequência até à paragem das seleções, o quão importantes são estes três jogos para si, também para a equipa, até porque, depois da pausa, vem ali uma sequência de jogos teoricamente mais difíceis para a equipa?
- O importante é este jogo. Não adianta pensar nos outros. A Champions, temos três jogos, seis pontos. Já tínhamos que ter nove para todos, certo? As expectativas são altíssimas porque ganhámos os dois primeiros jogos. Se calhar, se tivéssemos perdido em Rennes e ganho ao LASK estava tudo bem, estava tudo top e tínhamos na mesma seis pontos com duas vitórias e uma derrota. Agora, aquilo que é foco é Casa Pia, porque sabemos que vimos de um resultado negativo em nossa casa, a distância pontual já é significativa apesar de estarmos numa fase inicial do campeonato. Mas queremos muito voltar às vitórias e seguir o nosso caminho na luta daquilo que é os nossos objetivos.
- No início do campeonato disse que a equipa tinha dores de crescimento. Essas dores ainda existem? Ou na 10.ª jornada já era para, pelo menos, ter passado e haver um equilíbrio para não desconfiarem tanto quando sofrem um golo?
- Acho que não tem a ver com o que é paciência ou não, crescimento ou não, dos jogadores. É óbvio que já queríamos estar mais à frente nesse crescimento. Infelizmente, até por um ou outro resultado negativo, acabámos por essa confiança não ser a melhor para dar consistência a esse crescimento individual e coletivo. O que nos resta agora é continuar a trabalhar, como disse, sempre na procura de melhorar, de extrair o melhor de cada um deles, de lhes fazer entender melhor.. Agora, não me vou agarrar a isso. Tínhamos que fazer melhor. Em alguns jogos, tínhamos que fazer mais e melhor. Não fomos capazes, por isso o meu foco está apenas e só a tentar sempre melhorar nesse sentido.
- Já disse por várias vezes que sente pressão desde o primeiro dia que entrou no Sporting. Pergunto-lhe, na ótica do plantel, se os jogadores também sentiram essa pressão?
- É natural, de alguma forma, que um ou outro jogador sinta essa pressão. É natural. E eu já disse: basta ver os contextos que chegaram muitos deles. Sentir aquilo que é a exigência Sporting quando há um resultado menos positivo, perceberem realmente o que que significa não ganhar aqui. Esse sentimento, pressionados ou não, de ganhar sempre, pode levar aqui ou ali a algum desconforto, desconfiança no jogo. É natural. Resta-me a mim, como treinador, arranjar soluções e fazer ganhar essa confiança no dia a dia, explicar, mostrar, hã, e tentar melhorar em termos coletivos e individuais como é que nos encaixamos de melhor forma para conseguirmos ser mais fortes. E o Sporting agora parece que sofre um golo, ganha, mas parece o fim do mundo na mesma. E olhamos para os outros jogos, os outros clubes passam por mais dificuldades, se calhar, e têm mais ações defensivas que o Sporting. Olhamos para a fase menos positiva do Sporting e, mesmo o Sporting a ganhar, parece o fim do mundo em algumas coisas. E não é assim tão fim do mundo quanto parece.
- O que espera deste Casa Pia?
- O Casa Pia tem crescido em termos daquilo que é a equipa defensivamente e ofensivamente, apesar de não ser uma equipa com muitos golos marcados, mas ganhou consistência coletiva. Defende bem, defende melhor dentro daquilo que é a sua estratégia, às vezes num bloco médio-baixo, é certo, mas depois são muito competitivos, uma equipa muito forte em duelos e também forte em bolas paradas. A dificuldade será grande, porque não iremos ter muito espaço, teremos que ter boas decisões. Têm homens à frente muito rápidos, potentes, fortes no um para um, bons finalizadores.
- O Rui Borges sempre defendeu os jogadores, mesmo quando há erros gritantes, tem dado o peito às balas e defendido os jogadores. Sente que também os jogadores o têm defendido dentro de campo enquanto treinador?
- Obviamente que sim e vou defender sempre os meus jogadores. Mesmo quando as coisas correrem muito mal. Eles dão o máximo deles e isso, para mim, é bem demonstrativo todos os dias e naquilo que é o meu diálogo com eles. As coisas vão correr sempre bem? Não. Haverão jogos maus de alguns jogadores? Sim. Mas vou sempre defendê-los, sempre. E quando tiver que lhes chamar a atenção, vou chamar-lhes individualmente, sempre em prol daquilo que é melhorar o rendimento individual. Jamais apontar o dedo a quem quer que seja.
- Imagino que esse ruído seja da comunicação social, das notícias. Mas como é que se vive com o ruído dos adeptos?
- Igual, exatamente igual. Já disse isso várias vezes, mas eu falo de coração mesmo. Entendo, percebo... É claro que a gente fica sempre um pouco triste aqui ou ali, é natural. Não sou nenhum robô, sou um humano. Tive a possibilidade de ser adjunto e não a quis, quis sempre treinador principal. E sabia que, dentro disso, que iria estar exposto a muita coisa. E tinha que saber lidar com isso. A força do ruído só tem aquilo que queremos. A forma como nós olhamos para as coisas é que damos valor ou não e e e sofre impacto em nós. Por isso, para mim, não sofre impacto nenhum. E vou ser o mais honesto possível: só há uma coisa que me magoa no ruído: quem sofre não sou eu, é o meu filho, a minha mulher, os meus pais e os meus irmãos. Isso magoa-me. Isso magoa-me porque tem havido muita falta de respeito para com o Rui Jorge. Não é o treinador, para com o Rui Jorge. Muita falta de respeito, mas desde que cheguei ao Sporting! Muita falta de respeito, isso magoa-me. E vou já dizer aqui, e digo abertamente aqui: o meu filho joga futebol e foi enxovalhado no último jogo por ser filho de quem é. E isso não admito! É grave. De resto, insatisfação, ruído pela comunicação social… ao fim de dois meses no Sporting já tinha sido despedido quando perdi pontos, e fui campeão nacional depois. Por isso, isso aí passa-me completamente ao lado.
- O Rui Borges recebeu alguma garantia que fica no Sporting? Alguém já lhe disse que vai continuar a comandar a equipa do Sporting?
- O treinador está sempre a prazo desde o primeiro dia. Estou focado no jogo.
- Mas recebeu essa garantia?
- Diga-me um treinador que tenha garantias.
- Pedro Lima mostrou se pode ser o tal jogador mais cerebral para aquela posição ali do meio-campo? - O Pedro Lima é um jogador diferente. É um oito, tem apoios diferentes, características diferentes ao jogo. É um miúdo com um QI elevado, percebe muito o jogo e não se precisa de explicar muitas vezes a mesma coisa. Está sempre ligado, é um miúdo muito inteligente nesse sentido.
- E sente que esta mudança de sistema é a que melhor serve para jogar contra equipas em bloco mais baixo?
- Mudei de sistema para um pivô, ganhámos dois jogos: este é que é o sistema! O Sporting tem que jogar assim, o Doumbia tem que andar à frente. Empatamos e perdemos um jogo: o Doumbia não pode estar à frente, tem que estar atrás, duplo pivô! O futebol é top mundial nesse sentido. Por isso, mais do que o sistema, tem a ver com equilíbrios, independente de duplo pivô ou não, e que a equipa se sinta, principalmente nesta fase em que, às vezes, há algum desconforto e alguma desconfiança, se sinta mais equilibrada em termos defensivos. Temos tido dificuldade sob blocos baixos. Porquê? Porque a equipa não é comparável à que era o Sporting anterior. O ano passado era uma equipa diferente: madura, jogadores feitos, com muita qualidade, se conheciam de olhos fechados, a bola entrava aqui e eles jogavam assim, já sabia quem estava ali para passe de golo. Este ano a equipa não é essa, é diferente: características individuais diferentes. Podem ser daqui a dois ou três anos iguais se se tiverem se se mantiverem no Sporting? Podem. Podem ter outro conhecimento individual e coletivo muito mais à frente.
- Parece que a equipa se sente mais desconfortável em casa. Sente que amanhã, poder tirar esse peso de Alvalade, pode ser positivo?
- Realmente em Alvalade temos sentido um pouco mais essa essa pressão, talvez. Mas não olho nessa perspetiva. É um jogo fora, olhamos e encaramo-lo da mesma forma, com as dificuldades que temos que as encarar. É claro que em casa queremos voltar a ser o Sporting que sempre fomos. Se calhar nas fases iniciais do jogo até conseguimos criar ali qualquer coisa, mas depois vamos perdendo essa influência sobre o adversário. Somos nós que temos que ganhar isso, passar para os adeptos isso, com aquilo que é o nosso jogo, e a nossa capacidade e a nossa confiança, de puxar também por toda a gente para nos tornarmos novamente mais fortes em Alvalade.