Mauricio Macri com Maradona no Boca Juniors - Foto: IMAGO
Mauricio Macri com Maradona no Boca Juniors - Foto: IMAGO

Ex-presidente do Boca recorda «convivência traumática» com Maradona

Mauricio Macri disse não quando o astro argentino quis assumir o comando técnico da equipa

Mauricio Macri, antigo presidente do Boca Juniors, descreveu a relação com Maradona durante como uma «convivência traumática» e um «padecimento», marcada por momentos de grande tensão.

Numa entrevista ao podcast 'La Fábrica del Podscast', o ex-dirigente e antigo presidente da Argentina recordou a difícil gestão da relação com o astro argentino.

«Quando cheguei a presidente do Boca, ele estava lá. Foi tremendo. Foi um padecimento», afirmou Macri, ilustrando o mau momento pessoal de Maradona na altura com um episódio marcante: «Ele falhou cinco penáltis consecutivos, cinco! Se tivesse apostado cem libras na bolsa de Londres que ele ia falhar cinco penáltis, acho que teria ganho cem milhões de libras, porque as probabilidades eram de milhões para um. Claro, o homem estava tão mal a nível pessoal e com as suas dependências, que não conseguia sequer marcar um penálti».

Nega foi um dos momentos mais difíceis

Um dos momentos mais difíceis, segundo Macri, foi quando teve de recusar o pedido de Maradona para assumir o comando técnico da equipa após a saída de Veira. «Aí passas um mau bocado, porque tive de lhe dizer que não quando ele quis ser o treinador do Boca. Isso, na verdade, foi muito traumático», confessou.

Morria por ele. Estava à frente dele com cara séria, mas por dentro queria abraçá-lo, queria tirar mais 28 fotos e tinha de fazer o meu papel, porque queria que as regras fossem respeitadas

Macri explicou que nunca se zangou com Maradona, pois compreendia a atitude, dado que era «tratado como um Deus no mundo».

O antigo presidente partilhou uma conversa que exemplifica a autoimagem do jogador: «Nas discussões, ele dizia-me: 'O que tu não entendes é que estou entre Deus e os homens, no meio'. Mas era porque toda a gente o tratava assim: os reis, os presidentes e até o Papa».

Matar-me-ão, mas vou fazer o que é correto, que é colocar um treinador que possa estar à altura do desafio e dizer-lhe o que lhe disse, que sonhava que ele fosse o treinador do Boca, mas que primeiro tinha de tratar do seu problemazinho e resolvê-lo...

Apesar das dificuldades, Macri admitiu que Maradona também era o seu ídolo. «Morria por ele. Estava à frente dele com cara séria, mas por dentro queria abraçá-lo, queria tirar mais 28 fotos e tinha de fazer o meu papel, porque queria que as regras fossem respeitadas», revelou.

Esta postura, segundo ele, levou a um «castigo» por parte de Maradona, mas reforçou a convicção de que «se deve fazer o que é correto, não o que é conveniente».

A decisão de não o nomear treinador foi tomada quando Maradona anunciou a candidatura pela imprensa, numa altura em que o clube ponderava nomes como Bianchi ou Brindisi. «Levantei-me um dia, o Veira tinha saído e estávamos a ver se vinha o Bianchi ou o Brindisi, que eram os três pré-candidatos, e vejo aquilo. Chego ao clube e toda a gente a dizer-me: 'Temos de o pôr, senão matam-nos'», recordou.

Macri manteve-se firme, argumentando que o clube estava acima de tudo e que a disciplina era fundamental. «Como vamos fazer isso se o pobre coitado não pode garantir onde vai acordar amanhã?», questionou na altura.

A decisão foi clara: «Matar-me-ão, mas vou fazer o que é correto, que é colocar um treinador que possa estar à altura do desafio e dizer-lhe o que lhe disse, que sonhava que ele fosse o treinador do Boca, mas que primeiro tinha de tratar do seu problemazinho e resolvê-lo».

Para concluir, Macri mostrou-se convicto de que a escolha foi a acertada para o sucesso do clube: «A verdade é que o tempo deu-me razão. Não haveria qualquer possibilidade de, se tivéssemos aceitado colocar o Diego como treinador naquele momento, termos ganho duas Taças do Mundo [Intercontinentais], Libertadores, 17 torneios e sermos o número um do Mundo durante muitos momentos da minha presidência. E isso consegue-se porque havia regras.»