Estrelas do circuito em guerra com Grand Slams por causa do 'prize-money'
As principais figuras do ténis mundial uniram-se para contestar a repartição das receitas dos quatro torneios do Grand Slam, que, segundo os atletas, é significativamente inferior à praticada no resto do circuito. A batalha, que já dura há mais de um ano, ganhou um novo fôlego nas redes sociais.
Nomes como Coco Gauff, Jannik Sinner, Ben Shelton, Aryna Sabalenka e Daniil Medvedev estão na linha da frente de uma disputa que opõe os jogadores aos quatro maiores torneios do mundo. O pomo da discórdia é a percentagem das receitas que os Grand Slams distribuem pelos atletas, que se situa entre 12% e 17%, apesar de estes eventos gerarem, em conjunto, mais de 1,3 mil milhões de euros anuais.
Tennis players receive 12-20% of tournament revenue.
— Corvath Draemir (@Archaicmind3000) March 24, 2026
NBA and NFL players receive 48-50% through collective bargaining.https://t.co/VWRkGVCA4G
A polémica reacendeu-se recentemente quando uma conta nas redes sociais, denominada SportsBall, publicou uma análise detalhada da controvérsia. A publicação foi imediatamente partilhada e comentada por várias estrelas do circuito. Sinner e Shelton partilharam o conteúdo, enquanto Gauff, Bianca Andreescu, Sabalenka e Medvedev manifestaram o seu apoio através de comentários.
A especialista em pares, Gabriela Dabrowski, também se pronunciou, sublinhando a importância da informação divulgada. «Um gráfico importantíssimo que esclarece por que motivo os jogadores de todos os rankings pedem há anos melhores prémios e parcerias com os torneios do Grand Slam», escreveu.
Jannik Sinner ganó el premio más grande en la historia del tenis.
— Tiempo De Tenis (@Tiempodetenis1) October 19, 2024
¡6 millones de dólares por ganar el Six Kings Slam! 🤑💰 pic.twitter.com/xtMHH2nCcg
A disparidade nos números
A diferença entre a política dos Grand Slams e a dos circuitos ATP e WTA é notória. Enquanto a ATP e a WTA garantem aos jogadores entre 22% e 26% das suas receitas em prémios e fundos de pensão, os quatro Majors não ultrapassam a barreira dos 17%.
Both Carlos Alcaraz and Jannik Sinner will receive £1.7m ($2.3m) to play in an exhibition match in Seoul 💰
— TNT Sports (@tntsports) January 8, 2026
That's more than the runner up in the Australian Open will receive and almost as much as the winner (£2m) 😱 pic.twitter.com/HyRlQysBXQ
Em 2025, o valor total dos prémios distribuídos pelos quatro Grand Slams ultrapassou os 246 milhões de euros. Contudo, este número perde expressão quando comparado com as receitas totais, que superam os 1,3 mil milhões de euros. O US Open, por exemplo, distribuiu um valor recorde de 73 milhões de euros em prémios em 2025, mas as suas receitas estimadas para essa edição rondaram os 484 milhões, o que significa que a fatia para os jogadores foi de apenas 15%.
A comparação com as ligas desportivas norte-americanas, como a NBA e a NFL, que atribuem cerca de 50% das suas receitas aos atletas, torna a situação ainda mais gritante. Novak Djokovic, que liderou o sindicato dos jogadores profissionais até janeiro de 2026, já tinha classificado a quota no ténis como «muito mais baixa».
Cartas, reuniões e uma ação judicial
A contestação formal começou em março de 2025, quando um grupo de jogadores de topo, incluindo Gauff, Sinner, Iga Swiątek, Pegula e Alexander Zverev, enviou uma carta aos organizadores dos quatro Slams. Na missiva, exigiam um aumento imediato da quota de receitas para 16%, com o objetivo de atingir os 22% até 2030, além de mais investimentos em programas sociais e maior poder de decisão para os atletas.
As reuniões que se seguiram não produziram resultados concretos. Em outubro de 2025, Sinner expressou a sua frustração ao The Guardian: «Tivemos boas conversas com Roland Garros e Wimbledon, mas foi dececionante quando disseram que não podiam dar seguimento às nossas propostas até que outras questões fossem resolvidas. Nada impede os organizadores do Grand Slam de abordar desde já as questões relativas ao bem-estar dos jogadores, como pensões e assistência médica».
Perante a falta de progresso, foi enviada uma segunda carta e, mais tarde, os jogadores decidiram boicotar uma reunião agendada em Indian Wells, acusando os Slams de não darem «respostas concretas».
A disputa escalou para o campo legal com a Professional Tennis Players’ Association (PTPA), fundada por Djokovic, a iniciar uma ação antitrust contra os Grand Slams e as organizações ATP/WTA. O objetivo é forçar o aumento da quota de receitas para os jogadores para 22% até 2030, o que representaria um aumento do valor total dos prémios de quase 258 para cerca de 345 milhões de euros anuais, com base nas receitas atuais.
Por sua vez, os organizadores dos Grand Slams justificam a atual distribuição com os investimentos que fazem no desenvolvimento do ténis a nível nacional, nos escalões de formação e no apoio a torneios mais pequenos. No entanto, a sua posição é fragilizada pela falta de transparência, uma vez que, ao contrário dos prémios, as receitas totais dos Majors não são divulgadas de forma clara.
A questão central que agita o ténis contemporâneo joga-se fora dos courts e prende-se com a distribuição de valor: pertence aos atletas, que atraem patrocinadores, público e direitos televisivos, ou às estruturas que organizam os torneios?
Enquanto os torneios do Grand Slam anunciam publicamente os seus prémios monetários — o Australian Open, por exemplo, declarou um valor a rondar os 64,7 milhões de euros este ano, um aumento de 16% face ao ano anterior —, os balanços financeiros globais permanecem pouco transparentes, conforme apurou o Sport e Finanza.
Este debate intensifica-se num momento em que, segundo o presidente da ATP, Andrea Gaudenzi, o ténis atravessa uma fase de «gigantismo». Com um calendário cada vez mais longo, torneios Masters expandidos e um ritmo que desafia a sustentabilidade física dos jogadores, a procura por um equilíbrio económico entre as partes deixou de ser um mero detalhe técnico para se tornar uma questão de sobrevivência do modelo atual.
Acresce que os recursos reinvestidos tendem a beneficiar o desenvolvimento da modalidade apenas nos países que acolhem um Slam, aumentando o fosso para as nações que ficam de fora deste círculo restrito. A isto soma-se a pressão infraestrutural, com uma competição discreta entre os quatro grandes torneios para manter o prestígio, o que exige investimentos contínuos na modernização das suas instalações.
As próximas semanas afiguram-se decisivas para o futuro deste debate. Espera-se que o Roland Garros anuncie no próximo mês os detalhes do prémio monetário para a edição de 2026, ao passo que o All England Club está a ponderar os seus próximos passos relativamente a Wimbledon.
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