«Estávamos a construir algo com Amorim e de repente o clube decidiu mudar»
Bruno Fernandes está a ter uma época consistente no Manchester United, tendo chegado recentemente às 16 assistências numa só temporada pelo clube, superando a marca anterior de 15, que pertencia a David Beckham. A mudança de Ruben Amorim para Michael Carrick levou a equipa a um patamar mais elevado, mas só pede garantias de um plantel competitivo.
O internacional português é tema de um grande perfil no jornal Sunday Times, onde dá crédito aos colegas de equipa, aos treinadores e aos analistas, considerando que está mais «consistente e completo»: «Não acho que as minhas qualidades como jogador tenham mudado. A cada ano que passa, tenho uma melhor compreensão do jogo e do que devo fazer menos e do que devo fazer mais. É isso que quero dizer com ‘mais completo’», conta.
Em conversa franca, explica parte do seu método. «Não posso fazer o mesmo passe para o Amad [Diallo] que faço para o Benjamin [Sesko]; não posso fazer o mesmo passe para o Sesko que faço para o Bryan [Mbeumo]. Por exemplo, sei que o Bryan vai estar, na maioria das vezes, na linha do fora de jogo a tentar atacar a profundidade. Com o Ben é mais ou menos o mesmo, mas sei onde ele gosta de cruzamentos. Depois, com o Amad e o Matheus Cunha, trata-se de combinar com tabelas. Com o Zirkzee, é tudo o que aprendi em Itália: jogar curto, deixar a bola entrar nele, pequenos toques de primeira a virar o jogo. Com o Mason…».
«Prometam que vamos ser competitivos»
E se já falou do Bruno generoso, ele tem também um outro lado: o Bruno exigente; o Bruno que grita em campo com os companheiros, mas também o Bruno que fala abertamente com a Direção. Ao Sunday Times não quer falar do futuro. Vai fazer 32 anos e o contrato, que termina em 2027, terá uma cláusula que lhe permite sair para um clube fora de Inglaterra por 65 milhões de euros neste verão. Está há seis anos no clube e apenas dois troféus conquistados, e explica como pediu para ser convencido de que vale a pena ficar.
«Todos os que vêm para o Manchester United querem ganhar todos os troféus. Ninguém pensa ao entrar no clube: ‘Vamos lutar apenas por um ou dois troféus em seis anos’. Chegámos a três finais [noutras competições] e não ganhámos, pode acontecer, mas pelo menos estivemos na luta. Estivemos perto. E o que disse ao clube sempre que falei com eles, o que quero enquanto estiver aqui é apenas competir. Porque assim vou estar perto de ganhar. Se não competir, não há hipótese de chegar perto de qualquer troféu. Consegues dinheiro em qualquer lado. Há muitos clubes na Premier League que pagam bem, muitos em Itália e Espanha que pagam muito. Vens para este clube pela história, pelo que achas que podes alcançar. Mas o que eu digo sempre ao clube é: não me podes prometer que vou ganhar a Premier League, isso é impossível, mas se prometerem que vamos ser competitivos — isso é tudo o que preciso de saber.»
«Sabendo isso, cabe-me tornar-me na melhor versão de mim próprio, ajudar todos à minha volta a tornarem-se na melhor versão deles próprios, para depois nos tornarmos no clube que queremos ser», diz do alto dos seus 106 golos, 103 assistências e presença em 320 dos 333 jogos do clube desde a sua chegada em janeiro de 2020.
«Estávamos a construir algo com Amorim»
O que será preciso então para o Manchester United lutar pelo título? «Difícil dizer, porque mudámos de treinador. Estávamos a construir algo [sob o comando de Ruben Amorim] e, de repente, o clube decidiu que era preciso mudar. Com Michael Carrick tivemos este último período em que fomos muito bons até agora, com a oportunidade de voltar à Liga dos Campeões na próxima época. Se terminarmos da forma que queremos, vai parecer muito bom, mas ainda não é a imagem que queremos. Conseguiremos manter esta forma durante uma época inteira? Qualquer um pode ser bom em períodos. Ser bom durante toda a época é muito mais difícil. Isso é algo que ainda não fizemos desde que estou aqui. Tem faltado consistência, cada pequeno detalhe faz a diferença.»
Fala-se de Harry Kane, que dominou os números no Tottenham, mas acabou por mudar-se para o Bayern Munique em busca dos troféus que fugiam. Bruno Fernandes dá o exemplo que nem só de troféus se contrói uma carreira lendária - lembra Totti, sempre fiel à Roma - e analisa o inglês: «Se ele tivesse ficado mais um ou dois anos no Tottenham, teria sido o melhor marcador de sempre da Premier League. Então seria uma lenda ou não? Seria. Decidiu ir para o Bayern e a decisão é boa porque sabe que tem uma grande hipótese de ganhar troféus. E agora estamos a falar de um Harry Kane que está a marcar a mesma quantidade de golos que marcava no Tottenham, mas pode ganhar uma Bola de Ouro porque vai conquistar troféus.»
Na Premier League não lhe têm faltado rivais, mas também sobram inspirações. «Jogar contra o Kevin foi um privilégio, porque quando falo em adquirir mais conhecimento do jogo, é quando vês jogadores como o Kevin e aprendes com ele. Quando falamos de risco e recompensa, ele é esse tipo de jogador. Atualmente toda a gente diz que o futebol está a ficar demasiado robótico, mas quando os jogadores saem desse lado robótico, a crítica aparece — por isso não há equilíbrio. Queremos os jogadores a expressar individualidade, mas também que percebam que têm de transformar isso em trabalho para a equipa», critica.
Todos os jogos
O seu lado estrategista deverá empurrá-lo para um cargo de treinador - já tirou nível B em Inglaterra -, algo que já faz por vezes em campo e até…nas decisões sobre os passatempos da equipa - domina no Uno e incentiva os colegas a disputar o jogo de estratégia Lobo na Aldeia, mas… quando o tema é cartas… «Sou muito competitivo. O que vês em campo é o que sou fora dele nesses jogos. No Lobo podes ser muito competitivo. Se és o lobo, tentas ‘matar’ toda a gente. Gosto de jogar cartas. Nasci numa família onde este tipo de jogos é quase vida ou morte… toda a gente a bater com as cartas na mesa, por vezes até se passa um pouco dos limites! Os meus tios e o meu pai, jogamos sempre estes jogos. Os portugueses são muito apaixonados em tudo o que fazem.»
Obcecado por futebol, tem sempre algum jogo a passar no iPad - não raras vezes aconteceu ser… da liga polaca. «O meu melhor amigo [Francisco Ramos] esteve a jogar na Polónia. Não temos a liga polaca na televisão em Portugal, mas há muitos jogadores portugueses lá e treinadores portugueses, e é uma liga que conheço bem. Toda a gente na família se habituou a eu estar sempre a ver futebol. A minha mulher, quando vamos para a mesa ou estamos no sofá, já pergunta: ‘Há algum jogo na televisão?’ Ela até põe os jogos para eu ver. Gosto de ver qualquer tipo de jogo, qualquer liga, qualquer divisão, porque se pode aprender com todos e em qualquer lado.»
«Gosto de ter uma imagem mais ampla do futebol, porque isto é tudo o que eu sei fazer, tudo o que fiz na minha vida, e não há nada diferente que eu queira fazer. Espero que um dia, quando terminar, esteja muito orgulhoso do que fiz, e de ter conseguido expressar ao máximo aquilo de que sou capaz.»