Eléctrico de Ponte de Sor conta com excelentes infraestruturas de que nem todos os clubes se podem gabar. Foto: Eléctrico FC
Eléctrico de Ponte de Sor conta com excelentes infraestruturas de que nem todos os clubes se podem gabar. Foto: Eléctrico FC

Eléctrico, «o clube mais importante entre todos os que não são famosos»

Emblema de Ponte de Sor assinalou, ontem, o 97.º aniversário. Já competiu no segundo escalão e luta pela sobrevivência nos nacionais com 'Alma' e um… guardião do templo no comando técnico

O Eléctrico de Ponte de Sor celebrou, ontem, 97 anos de vida. É um bastião do desporto alentejano e, muito particularmente, da sub-região do Alto Alentejo, cuja equipa de futebol garantiu, na época transata, um triplete (campeonato, Taça e Supertaça) nas competições distritais de Portalegre. Disputa atualmente a Série C do Campeonato de Portugal – é 13.º e penúltimo classificado - e luta pela sobrevivência nas competições nacionais.

A ‘Alma Eléctrico’, como caracterizam os seus adeptos e simpatizantes, tem um guardião do templo face aos anos que por lá trabalha: Emanuel Baleizão, de 44 anos, é natural de Ponte de Sor, conhece o clube como poucos e, além de responsável pela gestão de departamentos como as redes sociais e a organização, é também o técnico principal da equipa de futebol, numa história de entrega e paixão pela equipa da terra.

«Naquele grupo dos clubes que não têm primeiras páginas no jornal, o Eléctrico é o melhor do lote» - Emanuel Baleizão

«Desempenho tudo isto de forma gratuita, faço-o por gratidão para com o clube que me abriu as portas quando eu tinha 8 anos e me iniciei como jogador federado. Tem sido um vasto percurso, tão bonito que só tenho gratidão para com este clube. Fui também o treinador principal quando o Eléctrico disputou a II Divisão B [o máximo patamar alcançado pelo clube em futebol foi a antiga II Divisão, em 1949/1950], e também trabalhei nas camadas jovens», assinala com orgulho.

«Tem sido uma vasta história, muito bonita, no que, para mim, é o clube mais importante do país entre todos aqueles que não são famosos, naquele grupo dos clubes que não têm primeiras páginas no jornal. O Eléctrico, atualmente, é o melhor clube português desse lote», elege, colocado perante dois percursos que praticamente se misturam.

Emanuel Baleizão recorda que a sua relação com o Eléctrico não se resume aos campos de futebol. «Neste processo, enquanto era jogador federado, ajudei a fundar a primeira e única claque do clube, os Ultras da Ponte. Fiz também parte da fundação da secção de futsal, juntamente com o Rui Maside, atual treinador do Amora, fundámos a secção de futsal do Eléctrico em 2006. O Eléctrico foi a minha primeira entidade patronal», conta, com um sorriso.

«Foi aqui que, depois da minha primeira licenciatura em marketing, me iniciei enquanto funcionário e onde tenho os principais passos enquanto treinador principal, nos juniores e no patamar sénior. Atualmente sou o treinador principal, já representei o Eléctrico em praticamente todas as divisões, desde a prova distrital à III Divisão nacional - hoje o Campeonato de Portugal, quarto patamar do futebol português. É, portanto, uma ligação bem forte», sustentou Emanuel Baleizão.

Nuno Silva gere o Eléctrico e não só. Foto: Eléctrico FC

Presidente é o treinador dos iniciados no clube de sempre

No Eléctrico, as histórias de amor são férteis e até se estendem ao próprio presidente, Nuno Silva, que gere os destinos do clube e em simultâneo é… o treinador da equipa de iniciados. Algo que não abdica de fazer. «Sempre disse que se um dia tivesse de abraçar o dirigismo e pudesse conciliá-lo juntamente com a área do treino, não iria deixar de o fazer, obviamente – é o que mais me preenche, o que mais me dá prazer é trabalhar com atletas, grupos e equipas e portanto, apesar de ser neste momento o presidente do clube, de todos e para todos, sou também treinador de futebol dentro da própria instituição, prestando aqui um contributo à modalidade», descreve, realizado.

«Disse sempre a todos que, antes de ser presidente, sou primeiro um profissional de desporto porque a minha profissão é professor de Educação Física e desporto e exerço essa função na Escola Secundária de Ponte de Sor, estou muito ligado ao desporto e a minha especialidade na altura em que tirei a licenciatura foi futebol», conta o presidente do emblema alentejano e um apaixonado pela atividade física. Considera-se, por isso, um felizardo por poder dedicar-se a todas as suas paixões, com o seu querido Eléctrico.

«Estou ligado ao futebol há muito tempo não só como praticante, mas também como treinador. Antes de ser presidente, fui jogador e treinador do Eléctrico e, neste caso, pelo treino nos vários escalões de formação e inclusive também já trabalhei em projetos no futebol sénior», revelou o dirigente de 51 anos, dedicado ao clube de sempre.

«Final da Taça da Liga foi feito histórico para clube e região»

Num clube que se faz notar pelo ecletismo, o futsal é atualmente a modalidade de maior sucesso: a sua equipa disputa a Liga Placard e até protagonizou, há poucas semanas, uma das maiores surpresas da temporada até ao momento, ao ter atingido a final da Taça da Liga e apenas caindo perante o Benfica, também campeão nacional (7-1).

Mas foi um marco alcançado para a história do emblema de Ponte de Sor, como assinala o treinador, Jorge Monteiro, três vezes finalista da competição. «O balanço da época desportiva só pode ser feito no final da época, sendo que nas três provas em que estamos inseridos, duas já terminaram e uma delas com sucesso - atingimos o objetivo de estar na final 8 e, com todo o mérito e distinção, acabámos por atingir a final. Foi um feito histórico para o clube e para a região... e está concretizado, isso é de realçar», identifica, muito agradado pela campanha efetuada.

Jorge Monteiro não quer só a manutenção. Foto: Eléctrico FC

Jorge Monteiro lamenta não repetir a façanha na Taça de Portugal, na qual o Eléctrico já não está em prova. «Falhámos o objetivo da Taça de Portugal. Tivemos a infelicidade no sorteio nos ter calhado logo o Sporting e fomos eliminados na 5.ª eliminatória, e não vamos estar presentes na Final 8, que era outro dos objetivos, não estaremos», constatou o técnico, que relembrou que o Eléctrico ainda tem outros objetivos para assegurar.

O emblema pontesorense aponta agora à manutenção no escalão máximo e, se possível, a um lugar entre os oito primeiros e consequente presença no play-off do campeonato. «Estamos ainda a competir para conseguirmos manter-nos e atingirmos os play-offs do campeonato, acabar a fase regular nos oito primeiros lugares. Essencialmente, o principal objetivo é fugirmos dos lugares de despromoção, é esse o foco primeiro e, conseguindo esse, convenço-me de que conseguiremos estar no play-off», estima o experiente técnico, de 55 anos.

«Representar Portugal num Mundial ou Europeu seria extraordinário»

No futsal, o Eléctrico tem ainda um internacional por Portugal – Diogo Basílio está bem colocado na shortlist de guarda-redes nacionais e há sensivelmente um ano estreou-se pela Seleção A, que se preparava para o último Europeu de futsal. O guardião de 29 anos não fez parte da convocatória final, mas continua a acalentar a ambição de disputar uma grande competição pela equipa das Quinas.

«Fui sempre definindo objetivos na minha carreira. Começou por ser a subida de divisão pelo Eléctrico, jogar a primeira divisão e representar a seleção. Estou na Liga Placard e cheguei à seleção… era um sonho, concretizei-o. Continuo a trabalhar, estou num nível mais alto, estou perto de lá chegar e então começa a ser um objetivo: quero representar Portugal numa grande competição e continuar a ser chamado, trabalho para isso», assumiu Diogo Basílio.

Diogo Basílio é expoente do Eléctrico. Foto: Eléctrico FC

«Sei que há também qualidade nos guarda-redes. A seleção portuguesa é das melhores do mundo e não é por acaso - há muita qualidade em todas as posições do campo e tenho de trabalhar. Sei que não vai ser fácil e ainda bem que não o será… acho que representar Portugal num Mundial ou um Europeu seria algo extraordinário», reconhece o guardião do recente finalista vencido da Taça da Liga de futsal.

«Basquetebol é a modalidade com mais presenças em provas nacionais em 50 anos»

O futebol tem o seu legado na vida do Eléctrico, mas o basquetebol é a modalidade com mais história neste emblema e um contributo de quase meio século que muito satisfaz o técnico desta secção, Mário Amaral. «O basquetebol é uma secção que tem quase meio século no Eléctrico - o clube é quase centenário, está às portas do centenário - e diria que criou impacto no clube em si».

Equipa de basquetebol conta com muitos jogadores da terra, o que ajuda a criar identidade e ligação com a massa associativa do Eléctrico. Foto: Eléctrico FC

«É das modalidades mais históricas, com mais anos no clube e arrisco-me a dizer que é a modalidade com mais presenças em competições nacionais nestes quase 50 anos em que existe. Esteve muitos anos na primeira Liga [incluindo a atual Liga profissional, por três temporadas] e ainda mais no segundo escalão, vários anos praticamente só com jogadores da terra e muitos anos na Proliga, o segundo patamar», relata o técnico.

«Sendo eu participante da sua realidade, estive também no outro lado, que foi jogar algumas vezes contra o Elétrico, e o basquetebol já teve, como todas as modalidades do clube, alguns altos e baixos, mas é uma das modalidades que - puxando aqui um pouco a brasa à minha sardinha - a par do futsal, que hoje está num patamar completamente diferente, é uma das modalidades pelas quais as pessoas acabam por ter um carinho especial», confessa ainda.

Temos lutado para voltar ao segundo patamar - Mário Amaral

Mário Amaral, 43 anos, sente que a sua equipa é especialmente acarinhada pela massa associativa e explica porquê. «O basquetebol tem por hábito muitos jogadores da terra e isso acaba por criar aqui uma identificação da equipa com os sócios, não é? É mais fácil criar essa ligação. Esse impacto, desde o primeiro dia que cheguei, tem muito a ver com isso, com o aspeto humano», realça.

Relativamente ao futuro a breve prazo, o objetivo está bem delineado. «Nos últimos anos temos tentado lutar para voltar ao segundo patamar e em dois anos já atingimos as finais mas não conseguimos, ficou sempre ali muito résvés, campo de Ourique - a dois pontos, três pontos, um ponto…» , constatou, com esperança de finalmente consumar a subida.