Duarte Gomes: «O presidente do CA deslocou-se sozinho para reunir com o presidente da SAD. Inadmissível!»
— Em relação às diligências que encetou depois de ter recebido os relatos do árbitro Hélder Malheiro também houve coisas que não lhe agradaram...
— Sim, e estamos mais uma vez a entrar na área daquilo que de facto é comprovável. Permita-me recuar um bocadinho e encontrar aqui cinco factos importantes que levam à minha decisão. Facto número um, nomeações antecipadas que se confirmaram na íntegra e que eram estatisticamente quase impossíveis. Facto número dois, a tal mensagem enviada pelo sr. presidente do Conselho de Arbitragem na véspera do referido jogo, dando alegado aval para que o árbitro continuasse no ativo se determinado resultado desportivo ocorresse. Depois disso, sim, comecei a tentar perceber o que tinha acontecido. Fiz três reuniões pessoais com o sr. presidente do CA, em momentos diferentes. Éramos amigos, tínhamos uma relação muito boa, de cumplicidade pessoal e profissional. Tentei perceber o que se passava, sempre a tentar sensibilizá-lo: ‘Houve algum erro que tenhas cometido, alguma questão que tenha corrido menos bem? Algum passo em falso? Vamos falar sobre isto, vamos tentar perceber, esclarecer. Vamos tentar corrigir’. E a resposta foi sempre ‘Nada disso. Nunca dei nomeações a ninguém, nunca falei sobre árbitros com nenhum presidente de clube, quem faz as nomeações sou eu e apenas eu, não cometi nenhum ilícito nem incorri em situações pouco éticas que coloquem em causa o meu trabalho'. Assim que a primeira dessas reuniões terminou, o ex-árbitro interferente, com quem não falava há algum tempo, fez-me uma videochamada. Não atendi, deixou-me uma videomensagem. Perceba isto: segundos depois de uma primeira conversa a dois, privada, houve uma ligação desse ex-árbitro assistente, o que me fez deduzir de imediato que ele teve conhecimento daquela reunião e tentou, de alguma forma, justificar a legalidade das condutas do presidente do CA. Confesso que não gostei. Segunda interferência: logo após essa reunião, e estamos a falar de um espaço de dois ou três minutos, o ex-árbitro ligou também para o árbitro denunciante, a dar-lhe nota que sabia que iria haver uma conversa a três e que ele devia pensar bem na sua carreira e futuro profissional. Alguém estava, em tempo real, a par de tudo o que eu tentava fazer para esclarecer, para ouvir justificações e argumentos. Isso foi muito, muito claro para mim e só ajudou a dúvida a instalar-se ainda mais. Fiquei extremamente desconfortável e incomodado.
— Quais foram os momento e/ou os factos determinantes para o 'timing' da decisão e da saída?
— Como imaginará, tudo isto teve um impacto emocional e profissional muito grande em mim, na minha família e circulo próximo. Muito grande. Foi uma desilusão tremenda perceber que a minha arbitragem poderia estar de novo envolvida em suspeitas, logo na altura em que tinha regressado à casa para tentar ajudar a credibilizá-la. Lidar com tudo isso foi muito penoso e chegou a um ponto de rotura total de confiança. Tomei a minha decisão aí, depois de ouvir a família e ter aconselhamento jurídico Há duas coisas determinantes. Eu diria duas cerejas no topo do bolo: a primeira é que, a dado momento,o senhor presidente do Conselho de Arbitragem disse-me que, para esclarecer tudo, ia reunir com o então presidente do clube em causa. Mas, para meu espanto, não o fez de modo oficial: deslocou-se sozinho, sem dar conhecimento a ninguém, às instalações do próprio clube, onde segundo me contou depois, reuniu a sós e pessoalmente com o referido senhor. Deu-me até feedback desse encontro. Ora, normalmente isso seria sempre absolutamente inadmissível em termos deontológicos. Naquele contexto nem merece mais comentários.
— E a segunda cereja?
— A segunda foi que tudo o que estamos aqui a falar e que determinou a minha saída aconteceu à revelia do restante Conselho de Arbitragem, ou seja, sem que fosse dado conhecimento a qualquer um dos seus elementos. Ninguém soube que confrontei o senhor presidente sobre estes factos nem das explicações daí decorrentes. Fui eu que decidi falar com os três vice-presidentes. Quis que percebessem, por mim, quais os motivos da minha renúncia. Nenhum deles estava a par do sucedido. Ficaram todos muito surpreendidos e um deles disse-me que ia falar com o presidente. Terá sido após essa conversa que o próprio presidente entendeu promover um plenário para explicar tudo aos seus pares. Nessa reunião terá então dito algo como ‘acho que falei de mais, disse o que não devia algumas vezes, mas nunca dei nomes de árbitros a dirigentes'. Os tribunais precisam de provas, mas a consciência não. Sempre tive dificuldade em funcionar em zonas pouco transparentes, sobretudo numa área tão exposta e sensível como esta. Portanto, se tudo o que aconteceu configura ou não ilícitos criminais, que sejam as autoridades a aferi-lo. O que eu sei é que a minha confiança foi ferida de morte sucessivas vezes, sobretudo tendo em conta que o meu trabalho era lado a lado com alguém em quem deixei de acreditar. Senti que aquele conjunto sucessivo de factos, de coincidências e de sequências cronológicas eram demasiado credíveis para me manter em funções. A arbitragem exige independência e equidistância a toda a hora.
— Quando é que Pedro Proença, presidente da Federação, fica a saber dessas diligências e deste caso?
— Tivemos algumas conversas informais, diria informais porque não foram por escrito, sobre o que aconteceu. Falámos antes de o sr. presidente viajar para os Estados Unidos, para acompanhar a seleção. Repare, no fundo, recebi uma bomba nas mãos. Um presente envenenado. Nunca fui denunciante de nada. Mas tendo o conhecimento que tive e enquanto Director Técnico Nacional de Arbitragem, fiz aquilo que eu achava que tinha de fazer, que era tentar perceber, apurar a verdade dos factos e decidir. O sr. presidente da FPF foi colocado a par desta de toda a situação. Acredito que tenha ficado preocupado, mas com esperança de que tudo não passasse de um mal-entendido. No fundo, a mesma que eu também tinha quando comecei encetei as minhas conversas com o presidente do Conselho de Arbitragem. O presidente da FPF disse-me uma coisa que cumpriu depois: se o tema fosse colocado por escrito, dar-lhe-ia de imediato a sequência adequada. E assim sucedeu.
— Sucedeu quando o Duarte enviou o email de demissão…
— Sim. O processo teve seguimento, foi absolutamente claro.
— Foi noticiado que esteve na Polícia Judiciária mais do que uma vez. Disse aos investigadores coisas que não possa dizer aqui, até porque também já afirmou que só quer falar de factos?
— Disse tudo o que tinha a dizer em sede própria num processo que, repito, não me atreverei a qualificar em termos judiciais. Recordo que existem factos em segredo de justiça. Compreenda que estou condicionado para revelar determinados pormenores e elementos de prova. Esta entrevista é a primeira e a última que dou abertamente, com alguns factos, embora muitos deles já tenham vindo a público. No que me diz respeito, isto não é um abrir de hostilidades, pelo contrário: é um encerrar de um capítulo. Foram três meses de grande dificuldade emocional e familiar. Abdiquei do trabalho que era o meu trabalho de sonho. Não era outro. Não era ser presidente do Conselho, nunca foi. Era este e toda a gente que me conhece sabe disso. O que gosto é de estar perto do terreno, dos árbitros, treiná-los, acompanhá-los, fazer parte do processo de recrutamento e formação, da base ao topo, a começar nos conselhos de arbitragem distritais e regionais. Foi um trabalho que tentámos fazer nesse ano zero. Abdiquei de tudo isso, da estabilidade profissional, da estabilidade financeira, do estatuto, do acompanhamento a uma função que me dava muito gosto, por uma questão de princípio. Por uma forma de estar, portanto, não houve truques na manga. Não houve golpes palacianos, não houve golpes de Estado com patrocínios de clubes, como ouvi um jornalista dizer. Não houve uma agenda persecutória para derrubar ninguém, para ir para lugar de quem quer que fosse. Houve uma tomada de posição baseada na consciência. Compreendo que exista quem não saiba o que isso é. E compreendo também que coloquem em causa o mensageiro, para tentar diluir a força da mensagem. Faz parte. É verdade que qualquer mensageiro deve ser escrutinado quando toma uma decisão impactante. Mas é importante que as pessoas percebam que este mensageiro focou-se apenas na mensagem, nos seus valores e, repito, o tempo vai esclarecê-lo seguramente.
— Entregou o telemóvel à PJ?
— Disponibilizei-me para colaborar com tudo o que estava ao meu alcance e continuarei a fazê-lo sempre que quem de direito o solicite. Confio inteiramente nos órgãos judiciais em Portugal. No que dependesse de mim, cederia telemóvel, acesso a contas bancárias próprias, às dos pais, dos filhos. Cederia acesso total a qualquer informação fiscal, empresas, segurança social e até a detetarem eventuais sinais exteriores de riqueza. As autoridades são muito competentes a seguir o rasto do dinheiro e a descobrir expedientes ilícitos dessa e de outras naturezas. Felizmente. E respondendo à pergunta de há pouco, sim, houve um conjunto de situações que entretanto me foram chegando por mensagem de várias origens, incluindo de árbitros, sobre relatos não palpáveis e que, portanto, coloco num patamar diferente em termos probatórios e de avaliação pessoal.
— Ficou surpreendido pelo arquivamento do processo no Conselho de Justiça?
— Não. E não ponho em causa a justeza da decisão, porque o Conselho de Justiça, enquanto órgão disciplinar na esfera desportiva, está muito limitado na avaliação de elementos probatórios. O próprio instrutor que analisou esse processo disse-me abertamente que este seria um processo para outros caminhos. Em última instância, a decisão baseou-se em falta de competência regulamentar para avaliar determinados elementos probatórios. Nesse contexto, o arquivamento foi o resultado normal.
— Entretanto têm sido noticiados outros episódios: eventual condicionamento na nomeação de um árbitro para um Porto-Benfica, 1 milhão de euros para distribuir por eventuais benefícios em relação a alguns clubes, ou algum clube... Um fim de semana alegadamente passado por Luciano Gonçalves com Paulo Lopo no Algarve… Estes factos ou alegações também fazem parte do email que desencadeou tudo isto?
— Não, de todo. São dados especulativos, eventualmente de relatos ou mensagens de terceiros, cujo veracidade não me compete qualificar. Os factos de que falámos há pouco, e apenas esses, deixei-os por escrito no email de renúncia enviado a todos os membros do Conselho de Arbitragem.