Descoberta chocante: treinador bicampeão europeu foi agente secreto
Stefan Kovacs tem um processo na rede dos Arquivos do Conselho Nacional para o Estudo dos Arquivos da Securitate (CNSAS), a polícia secreta da Roménia. A Gazeta Sporturilor, jornal desportivo romeno que pertence ao Ringier Sports Media Group, tal como A BOLA, descobriu documentos que revelam que o antigo treinador, vencedor de duas Taças dos Campeões Europeus, com o Ajax de Cruyff, nos anos 70, foi recrutado e assinou um angajament como informador da Securitate comunista em outubro de 1955, aos 35 anos, atuando sob a alçada do Serviço de Vigilância e Investigação da Regional de Cluj. O volume existente no CNSAS, de 31 páginas, abrange o período de 1955-1963.
Processo pessoal n.º 5858 do registo da Região M.A.I. Cluj, Serviço VII, Gabinete 2. Data de abertura: 28.10.1955.
Estas são as coordenadas do informador Stefan Kovacs, nome de código Vasile Munteanu, fundo de rede no Conselho Nacional para o Estudo dos Arquivos da Securitate (CNSAS) - R178768.
O lendário treinador de Johan Cruyff, bicampeão da Taça dos Clubes Campeões Europeus com o Ajax (em 1972 e 1973), antigo selecionador da Roménia e campeão com o Steaua (1968), diversas vezes nomeado por publicações internacionais entre os maiores treinadores de todos os tempos, foi agente da Securitate comunista, conforme revelam documentos descobertos pelo GSP no arquivo do CNSAS.
«Executarei várias tarefas»
O processo de Stefan Kovacs contém 31 páginas e abrange um período de 8 anos da vida do antigo técnico: outubro de 1955 – outubro de 1963. Trata-se do período passado em Cluj como treinador no Universitatea, Dermata e CFR.
Kovacs assinou o angajament com a Securitate a 28 de outubro de 1955, quando tinha 35 anos e estava no início da sua carreira de treinador. O oficial que o recrutou para o Serviço VII (Vigilância e Investigação) foi o tenente Noros Iacob. O texto integral é o seguinte, mantendo a grafia original:
«Eu, Stefan Kovacs, nascido a 2 de outubro de 1920, em Timisoara, residente em Cluj, rua Rakoczi n.º 11, comprometo-me voluntariamente a comunicar atempadamente aos órgãos de segurança do Estado tudo o que souber sobre o trabalho de subversão levado a cabo por elementos hostis contra a R.P.R., sem fazer exceção para familiares ou amigos, e executarei várias tarefas dadas por estes órgãos.
As informações que fornecerei, assinarei com o nome Vasile Munteanu, em vez do meu nome verdadeiro. Comprometo-me a manter em segredo absoluto a minha ligação e trabalho com os órgãos de segurança. Pela divulgação destas ligações e das informações que fornecerei, serei penalmente responsável de acordo com as leis da R.P.R.»
Em outubro de 1955 estava Gheorghe Gheorghiu Dej no poder, a Roménia era um estado-satélite da URSS, as tropas soviéticas ainda estavam presentes na Roménia após a Segunda Guerra Mundial, e o Departamento de Segurança do Estado subordinado ao Ministério do Interior, dentro do controlo do Partido Comunista.
«Elemento apegado ao regime»
Num relatório de 30 de junho de 1955, que justificava a necessidade de recrutar Stefan Kovacs, o subtenente Noros Iacob anotou: «Considerando que, no bairro Rakoczi, a maioria dos habitantes são elementos burgueses, por um lado, e por outro, para facilitar o trabalho de investigação neste bairro, para apurar o estado de espírito e uma série de manifestações dos cidadãos, procedi ao estudo do referido Stefan Kovacs, que deveria ser recrutado como informador não qualificado na questão do trabalho de investigação».
«Não é membro do PMR (Partido Operário Romeno), mas na sua atividade como sindicalista, desde 1945, sempre cumpriu as tarefas atribuídas em boas condições. Tem um nível político e cultural bastante elevado, vê as coisas com justiça e sabe comportar-se bem em sociedade. É um elemento modesto, facto que se provou quando recusou receber o prémio em dobro, como pretendiam outros treinadores de futebol anteriores. Esforça-se ao máximo para elevar o nível técnico da equipa de futebol, politizando ao mesmo tempo as discussões que tem com os atletas, mostrando-se um elemento apegado ao regime», acrescenta o relatório.
14 meses depois, quando Kovacs já tinha começado a colaborar como informador, um outro relatório, de 18 de agosto de 1956, mostrava que o treinador tinha sido recrutado «com o objetivo de ser usado como agente na resolução de trabalhos de investigação, especialmente nos trabalhos de passaportes dos atletas, tendo vastos conhecimentos entre estes».
Este trabalho, relativo aos passaportes dos atletas, visava um controlo político e informativo, por parte da Securitate, para a concessão de parecer positivo ou negativo para viagens ao estrangeiro. Eram de interesse a origem social, familiares no estrangeiro, antecedentes políticos, processos mais antigos, atitude em outras deslocações, avaliação do comportamento (disciplina, declarações, etc.), eventuais planos de permanecer no estrangeiro (evasão).
«O recrutamento foi feito com base em sentimentos patrióticos, pois é um elemento honesto e apegado ao nosso regime, aceitou facilmente o recrutamento, manifestando o desejo de apoiar os nossos órgãos na denúncia de elementos hostis», referia ainda o relatório, que indicava ainda que Kovacs não quis ser renumerado de forma alguma, nem levantou tais pretensões.
O mesmo documento revela que Stefan Kovacs «manifestou sinceridade nos materiais fornecidos, facto que foi verificado tanto através do restante da rede de agentes, como por fontes ocasionais, confirmando a sua justeza». «Nos encontros agendados, foi sempre pontual e respeitou os prazos para a execução das tarefas que lhe foram atribuídas. O visado é um elemento inteligente, tem uma série de conhecimentos na cidade de Cluj, com a ajuda dos quais nos poderia auxiliar no trabalho. É correto e disciplinado, sendo bem apreciado entre os seus colegas de trabalho, bem como entre os seus conhecidos. Considerando as qualidades e possibilidades futuras, o agente poderá dar conta das tarefas e do trabalho de investigação. Quando lhe foram atribuídas tarefas da nossa parte, o agente manifestou um vivo interesse em resolvê-las, procurando também ser objetivo nas informações posteriormente fornecidas», referia ainda o documento de caracterização do agente.
Recrutado entre dois períodos no comando técnico da Univ. Cluj
A 28 de outubro de 1955, uma sexta-feira, quando Kovacs assinou o angajament com a Securitate, Kovacs era um treinador sem contrato. Tinha liderado o Stiinta Cluj (Universitatea) até ao verão de 1955, na primeira parte do campeonato que decorria durante um ano civil. Saiu a meio da época, após uma derrota por 0-3 fora de casa, contra o Locomotiva Constanta.
Regressou ao comando dos estudantes no início de 1956, mas, entretanto, tornou-se o agente Vasile Munteanu nos registos da Securitate.
«Após o recrutamento, ajudou-nos efetivamente na resolução de alguns trabalhos, fornecendo-nos informações preciosas, que nos foram úteis na elaboração de relatórios de investigação de boa qualidade», concluiu a análise de agosto de 1956 sobre o trabalho de Kovacs, que rapidamente entrou em missão.
«Um aspeto negativo do seu caráter...»
Um relatório sobre o recrutamento de Stefan Kovacs descreve o encontro em que o técnico aceitou colaborar com os serviços secretos comunistas.
«No dia 28 de outubro de 1955, desloquei-me ao local de trabalho do referido Stefan Kovacs, com o objetivo de o recrutar como informador na questão do trabalho de investigação», escreve o tenente Noros Iacob.
E detalha: «Para que o recrutamento decorresse em boas condições, discuti sobre várias pessoas que o referido conhecia. Além disso, discuti sobre a sua atividade, onde ele tomou uma posição justa. Depois de tudo isso, fiz-lhe a proposta de colaborar com os nossos órgãos. Depois de lhe dar esclarecimentos sobre como deveria ajudar-nos e manter o segredo, ele concordou e passamos à assinatura do angajament.»
Acrescenta: «Depois de o referido ter escrito o compromisso sem fazer objeções, pediu alguns esclarecimentos sobre o nome de código e sobre como deveria desenvolver a sua atividade. Dei-lhe uma pequena instrução, explicando-lhe detalhadamente sobre o nome de código e sobre as notas.»
«Um aspeto negativo do seu caráter, no que diz respeito à colaboração connosco, é que é curioso. Faz várias perguntas ao trabalhador sobre o objetivo pelo qual lhe são pedidas informações sobre uma ou outra pessoa», acrescentou ainda o recrutador.
Que informações deu?
Entre as 31 páginas do processo de Stefan Kovacs não existe nenhuma das notas informativas assinadas por Vasile Munteanu, (“forneceu um total de 34 notas informativas”), mas referências aos materiais oferecidos por Kovacs aparecem nos 9 relatórios de análise da sua atividade.
«O agente Munteanu revelou-se até agora, na sua colaboração com os órgãos do M.A.I., um elemento apegado à causa da classe operária, objetivo no material fornecido, pontual tanto nos encontros como no cumprimento das tarefas. Por ocasião da atribuição de tarefas, manifesta interesse, consciência e entrega material escrito e documentado de cada vez», refere o relatório de análise ao período de 21 de maio de 1957 a 9 de janeiro de 1958.
«No período mencionado, o referido agente colaborou connosco em boas condições. Assim, recebemos dele material informativo para a resolução de alguns trabalhos importantes, e o material fornecido por ele revelou-se real, facto que verificámos no terreno em alguns trabalhos, e noutros foi verificado pelos serviços operacionais. Normalmente traz o material escrito e procura documentar o que é posto no papel», refere o documento relativo ao período de 9 de janeiro a 18 de setembro de 1958.
«Notamos, no entanto, que o agente Munteanu não nos fornece material por iniciativa própria, afirmando que não entra em contacto com elementos que manifestam hostilidade aberta ou oculta contra nós», refere o relatório de 18 de setembro de 1958 a 20 de agosto de 1959.
«Informações reais, exceto a nota sobre o referido Jenei»
Nas análises sobre as notas provenientes de Vasile Munteanu, existe apenas uma referência a uma personagem: Jenei. Muito provavelmente, Emeric Jenei. Mas os detalhes são muito vagos, de caráter geral, impossível de decifrar o que continham efetivamente as informações entregues por Kovacs à Securitate, na ausência da própria nota.
Assim, na caracterização referente ao período de 20.08.1959 – 10.08.1960, o tenente Pintea, que elaborou o material na qualidade de oficial de ligação com Kovacs, salientou: «Verificámos as suas informações e revelaram-se reais, exceto a nota que dizia respeito ao referido Jenei, sobre o qual nos deu informações baseando-se nas suas antigas divergências pessoais».
É incerto que tipo de divergências poderiam ter existido em 1959/1960, num momento em que Kovacs e Jenei, separados por 17 anos de idade, mal tinham sido adversários algumas vezes no campeonato, um no banco, outro em campo.
«Em todo o lado onde estive, a primeira e mais importante mudança foi a das mentalidades dos jogadores. Uma mentalidade prejudicial, porque, embora talentosos, mas provenientes de meios modestos, o luxo e o bem-estar tiveram um efeito o mais negativo possível sobre eles. Tive mesmo de fazer uma limpeza, algo fácil com os jovens, mas muito difícil com os mais velhos, nomeadamente com Jenei e Constantin, de quem eu era amigo», disse Stefan Kovacs, em entrevista publicada em 2019 pelo ovidiublag.ro.
«Encontros 2-3 vezes por mês, no local de trabalho, na rua ou na casa conspirativa»
Ao longo dos oito anos abrangidos pelo processo existente nos arquivos do CNSAS, os contactos com os oficiais para a entrega de informações evoluíram de encontros na rua, no parque, para reuniões em casas conspirativas. «Em geral, uma vez por mês, e em muitos casos 2-3 vezes por mês», conforme indicado na análise de Vasile Munteanu de 10 de agosto de 1960.
«O local de encontro é o seu local de trabalho, onde vão muitas pessoas particulares e, assim, os nossos encontros periódicos não suscitaram até agora suspeitas ou desmascaramentos», sublinha um relatório referente ao período de agosto de 1956 a maio de 1957.
Numa análise que abrange o período de maio de 1957 a janeiro de 1958, é descrita outra estratégia: «Tendo um número extremamente grande de conhecidos na cidade de Cluj, com quem costuma parar na rua para conversar, pudemos até agora usar também a rua ou o parque como local de encontro, simulando um encontro casual – de modo que até agora o informador não foi desmascarado nem sequer suspeito na sua colaboração com os órgãos do M.A.I”»
«Os encontros ocorrem, em geral, na rua, quando o agente sai do trabalho. Nestes encontros é muito pontual e, na data estabelecida de comum acordo, traz também o material escrito», confirma um relatório de 20 de agosto de 1959.
No final, chega-se à solução considerada mais discreta: «Foi introduzido numa casa de encontro. Ele manifestou-se satisfeito com esta medida e considerou que assim estão asseguradas melhores condições de colaboração» (04.08.1961).
Fim da ligação
O período abrangido no processo encontrado no arquivo do CNSAS termina em 1963, quando o departamento Regional de Cluj elabora os formulários para o abandono do agente Stefan Kovacs, sem que existam quaisquer indícios posteriores a isso.
«Até agora, a ligação com este agente foi mantida diretamente pelo trabalhador investigador, e os encontros foram realizados na casa n.º 1 e no local de trabalho do agente. Até há pouco tempo, o agente apresentava-se pontualmente a todos os encontros agendados, mas desde o final de 1962 já não conseguiu apresentar-se pontualmente a estes encontros porque foi nomeado para o cargo de treinador federal em Bucareste», escreveu o tenente-major Ilie Givan na avaliação do período entre 10.09.1962 e 15.10.1963”.
«Está permanentemente ausente em diferentes Regiões ou no estrangeiro com as equipas de futebol e muito raramente vem à família na cidade de Cluj. Assim, já não se pode manter uma ligação organizada com ele, pelo que já não é útil no trabalho de investigação. Pelos factos acima expostos, o agente foi proposto para ser abandonado da rede de investigação», acrescenta.
A indicação foi aprovada pelo chefe da Direção Regional de Cluj, Major Nicolae Plesita, que ocupou este cargo entre janeiro de 1962 e fevereiro de 1967. Foi depois chefe da Direção de Segurança e Guarda do Ministério do Interior (1967-1972), secretário-geral e adjunto do ministro do Interior (1974-1978) e chefe da Direção de Informações Externas (1980-1984).
Esteve envolvido em inúmeras ações de repressão e liquidação de opositores ao regime comunista, como a repressão dos mineiros participantes na greve do Valea Jiului (1977), o atentado à bomba na rádio Europa Livre, em Munique, em 1981, resolvido pelo célebre terrorista Carlos, o Chacal, ou a investigação ao escritor dissidente Paul Goma, antes da sua partida para o exílio em Paris (1977).
Relações com atletas da Hungria
Um relatório de 29 de junho de 1955, do período em que a Securitate sondava a possibilidade de recrutar Ștefan Kovacs, mencionava sobre este: «O seu círculo de amigos é formado por atletas de origem social operária. Mantém relações por correspondência com vários atletas renomados da RP Húngara, como Puskas, Budai e outros, de onde recebe várias revistas desportivas».
Destaca-se esta referência a dois dos jogadores da Geração de Ouro da Hungria dos anos 50, Ferenc Puskas e Laszlo Budai. O primeiro, o maior futebolista húngaro de todos os tempos, recusaria regressar a Budapeste no outono de 1956, após a invasão da URSS na Hungria, construindo uma carreira espetacular com a camisola do Real Madrid (5 títulos nacionais, 3 Taças dos Campeões, 1 Taça Intercontinental, 180 jogos e 156 golos pelo clube ibérico).
Além disso, o processo contém uma nota informativa obtida de um colega de trabalho de Stefan Kovacs.
«Como funcionário, é um homem competente e bem preparado. Sabe interpretar as leis, instruções e ordens, que aplica respeitando a legalidade socialista, mas também com tato para com as pessoas e bom senso. Embora não seja membro do partido, não é inimigo da classe operária, mas pelo contrário, apegado aos trabalhadores, à causa da classe operária. Recentemente, por ocasião dos acontecimentos na RP Húngara (n.r. invasão da URSS em outubro de 1956), embora seja húngaro, não deu a entender a ninguém que simpatizava com o movimento anti-revolucionário e teve uma atitude correta.»
Assim, finalmente, no relatório estritamente secreto de 30.09.1963, aparece o fim da ligação a Stefan Kovacs. «Que se façam os formulários de abandono», aparece escrito a lápis vermelho, o parecer em relação ao agente Vasile Munteanu. Foi o momento em que Stefan Kovacs deixava Cluj para se mudar para Bucareste, onde entrava oficialmente nas estruturas da federação romena.
Foi treinador adjunto e principal na seleção, passou depois pelo Steaua, foi campeão europeu no mágico Ajax de Cruyff, esteve à frente da seleção francesa, do Panathinaikos ou do Mónaco.
STEFAN KOVACS
Data de nascimento: 2 de outubro de 1920, Timisoara
Data de falecimento: 12 de maio de 1995, Cluj
Jogou em CA Timișoara (1931-1934), CA Oradea (1934-1938), Charleroi (1938-1941), Ripensia (1941), CFR Turnu Severin (1941-1942), KAC/Ferar Cluj (1942-1947), CFR Cluj (1947-1950), U Cluj (1950-1953)
Posição: médio
Treinou: U Cluj (1952-1953, treinador/jogador, 1954-1955, 1956, 1957-1958), Dermata (1959-1960), CFR Cluj (1960-1962), Roménia (adjunto, 1962-1967; principal, 1976-1979, 1980), Steaua (1967-1970), Ajax (1971-1973), França (1973-1975), Panathinaikos (1982-1983), Mónaco (1986-1987)
Palmarés como treinador: Steaua - 1 título Roménia (1968) + 2 Taças da Roménia (1969, 1970); Ajax - 3 títulos Holanda (1972, 1973), Taça da Holanda (1972), Taça dos Clubes Campeões Europeus (1972, 1973), Supertaça Europeia (1972), Taça Intercontinental (1972); Roménia - Taça Balcânica (1980); Panathinaikos - Taça da Grécia (1982).