Conselho de Arbitragem premeia quem grita e penaliza quem quer perceber
Lembro-me bem do momento em que passei a gostar de Duarte Gomes, ex-árbitro e atual diretor técnico de arbitragem da FPF. Ele não se lembrará do que vou contar, nem me levará a mal que o conte... Há uns bons anos, a seguir a um jogo no Algarve, cuja cobertura fui fazer para A BOLA, calhou cruzar-me com ele no restaurante que ambos escolhemos para jantar. O jogo ficou marcado por uma grande penalidade assinalada a favor de um dos grandes e que gerou muitas dúvidas, numa altura em que o VAR era apenas uma miragem. Duarte Gomes entrou e parou para cumprimentar companheiros de trabalho que reconheceu. E quando questionado sobre o lance da polémica, não se escondeu. «No relvado pareceu-me claro, até pela movimentação dos jogadores e o tipo de queda. Vi as imagens no final e já não me pareceu tão claro. Admito que possa ter cometido um erro», desabafou Duarte Gomes, com naturalidade, mas contrafeito. Percebia-se que a decisão lhe estava a retirar paz de espírito. E fiquei naquele dia com a convicção, pela forma como falou e por toda a linguagem corporal, que Duarte Gomes era um árbitro sério, competente e humano. E também reforcei uma aprendizagem de vida: o assumir do erro humaniza-nos. Se feito de uma forma correta, a agressividade cai a pique.
Não entendo a posição de Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, que na recente entrevista a A BOLA anunciou o recuo na decisão de sessões públicas de esclarecimentos sobre decisões concretas de arbitragem e participação em programas televisivos. A razão? «As pessoas não estão preparadas». Eu compreendo que há sempre quem não queira ser esclarecido, queira até usar os esclarecimentos com efeito de ricochete... Então e os outros? Os muitos que querem ser esclarecidos, querem entender, querem a explicação em vez do grito?
Acusem-me de ser ingénuo, mas eu sou daqueles que acredito que deviam ser os próprios árbitros a falar das suas decisões, em especial quando erram. Há tantos bons exemplos um pouco por todo o mundo: por cada pedido de desculpas e explicações para uma decisão assumidas por um árbitro são mais os aplausos e a compreensão do que as críticas e incompreensões.
Falo até pelo meu exemplo. De quando em vez recebo emails com insultos. Poucos, felizmente. O recorde foi por coisas que disse num único programa de A BOLA TV, ao fim do qual um telespectador me chamou «lampião de m...», outro um «corrupto como o FC Porto», um terceiro ser «largarto da pior espécie». Não gosto, porque sou filho de boa gente - é que sou mesmo, acreditem - mas a consciência tranquila dá-me a paz quando o sangue ferve. Respondo a todos. Peço desculpo quando erro, explico o meu ponto de vista e a agressividade baixa 90 por cento. Na maioria dos casos, assunto sanado após algumas trocas de emails. Em num ou outro caso, não digo que fiquei amigo, mas ganhei alguém com quem ainda hoje troco opiniões. Gosto disso. Da sensação que, conversando, explicando a razão das minhas opções, pedindo desculpa pelas vezes que erro, a agressividade dá lugar à conversa e esta à compreensão.
Sabem quando deixei de criticar os árbitros? Quando arbitrei o meu primeiro jogo. E último.