Cinco substituições mudaram o futebol? O caso invulgar de médio do Dortmund
O nome de Carney Chukwuemeka tornou-se um tema de destaque nas redes sociais esta semana, mas não por um golo espetacular ou uma jogada de génio. O médio do Borussia Dortmund, de 22 anos, atingiu um marco invulgar: soma já 97 jogos oficiais como sénior, mas nunca completou uma partida inteira de 90 minutos.
Desde a sua estreia pelo Aston Villa na última jornada da Premier League de 2020/21, contra o Tottenham, o antigo jogador do Chelsea tem tido uma carreira marcada por substituições. Foi titular em 18 ocasiões, mas saiu sempre antes do apito final. As duas vezes em que esteve mais perto de completar um jogo foram quando foi substituído aos 82 minutos: numa derrota do Chelsea por 1-4 contra o Manchester United, em maio de 2023, e num empate a um golo do Dortmund em Hamburgo, em novembro de 2025. Os restantes 79 jogos foram todos como suplente utilizado.
A sua carreira distribui-se por 16 jogos pelo Aston Villa, 32 pelo Chelsea e 49 pelo Borussia Dortmund, clube para o qual se transferiu em 2024. Esta estatística, contudo, não reflete uma falta de qualidade, como sublinha o seu treinador, Niko Kovac, que já o descreveu como «sensacionalmente bom».
«A forma como recebe a bola e a transporta, a forma como se vira imediatamente na direção do jogo, é verdadeiramente única», afirmou Kovac após uma vitória por 6-0 sobre o Union Berlin no ano passado. «Tem uma aceleração e uma técnica muito boas. O rapaz vai dar-nos alegrias», acrescentou.
Como a regra das cinco substituições mudou o futebol
Esta nova realidade pode ser diretamente associada à pandemia de Covid-19. Quando o futebol regressou em junho de 2020, o International Football Association Board (IFAB) introduziu uma medida temporária que permitia cinco substituições em vez das três habituais, para gerir o esforço dos jogadores num calendário condensado. A regra, que foi prolongada por duas épocas, acabou por se tornar permanente.
A Premier League resistiu inicialmente, mas acabou por adotar a regra a partir da época 2022/23, alinhando com as outras principais ligas europeias. «O mais importante é que permite gerir melhor a carga de trabalho dos jogadores», comentou Mikel Arteta, treinador do Arsenal. «Dá aos jogadores a oportunidade de estarem em campo e oferece opções para mudar e refrescar o jogo».
Com mais substituições, o número de jogadores que completam os 90 minutos diminuiu drasticamente. Nos cinco anos anteriores à pandemia, a média de jogadores de campo que cumpriam o tempo regulamentar nas cinco principais ligas europeias era de 7,1. Desde 2022/23, esse número caiu para 5,5. A Premier League regista uma média ligeiramente superior (5,9), enquanto a LaLiga e a Serie A estão no extremo oposto, com apenas 5,3 jogadores a terminarem os jogos que começam.
Chukwuemeka é um caso único?
Embora o caso de Chukwuemeka seja notável, não é caso único. Uma análise aos jogadores com pelo menos 50 jogos nas cinco principais ligas europeias revela que, entre 2014 e 2019, na era das três substituições, não houve um único jogador que não tivesse completado pelo menos um jogo. No entanto, desde a introdução das cinco substituições, já há 10 jogadores nessa situação.
O líder desta lista é Randy Nteka, avançado que se juntou ao Rayo Vallecano em 2021. O internacional angolano já disputou 106 jogos na liga espanhola, incluindo um período de empréstimo ao Elche, sem nunca ter jogado 90 minutos. Ao contrário de Chukwuemeka, Nteka conseguiu completar dois jogos na Taça do Rei.
Outro caso é o de Jeff Ekhator, avançado de 19 anos do Génova, que se estreou em agosto de 2024. O internacional sub-19 italiano soma 51 jogos na Serie A e na Taça de Itália, com o seu tempo máximo em campo a ser de 72 minutos.
Por fim, destaca-se Alan Virginius. O jogador de 23 anos, com passagens por Sochaux, Lille e Young Boys, acumulou 166 jogos oficiais desde a sua estreia em 2020/21. O internacional sub-21 francês completou os 90 minutos apenas uma vez, numa derrota do Young Boys na meia-final da Taça da Suíça, em abril de 2025.