O estado do carro de Michail Antonio (Foto: X/@COYIronscom)

Brilhou na Premier League, mas admite: «Depois do acidente, ninguém olhava para mim»

Quinze meses depois de um violento acidente que quase lhe custou a carreira, Michail Antonio lembra o processo de voltar aos relvados

Quinze meses depois de um acidente de viação quase fatal, Michail Antonio está pronto para voltar a jogar competitivamente. Aos 35 anos, o avançado assinou pelos qataris do Al Sailiya e assume que teve de «engolir o orgulho» para continuar a carreira.

Em dezembro de 2024, o internacional jamaicano sofreu múltiplas fraturas na perna depois de o seu Ferrari se despistar e embater numa árvore. Chegou a partir o fémur em quatro sítios diferentes. «Eu não me lembro do acidente. A minha família é que viveu isso mais do que eu», contou à BBC. Seguiu-se um longo processo de recuperação. «Tive de aprender a andar outra vez, depois a correr, a saltar… A parte mais difícil não foi a recuperação. Foram os contratempos», admitiu.

«Tive de engolir o ego»

Sem jogar a nível de clubes desde o acidente, regressou apenas em junho, com três entradas como suplente pela Jamaica. Ainda assim, vários clubes ingleses mostraram reservas. «Ainda tenho as qualidades que tive na Premier League nos últimos 10 anos. Isso é evidente, porque todos os treinadores me ofereciam um contrato depois de eu treinar com eles. Mas havia clubes que se recusavam a olhar para mim por causa do que aconteceu: o acidente, a lesão. Alguns proprietários se opunham a isso. No futebol, o treinador pode querer, mas é o dinheiro do proprietário que conta», explicou. O antigo avançado do West Ham — onde realizou 323 jogos e se tornou o melhor marcador de sempre do clube na Premier League, com 68 golos — reconhece que a realidade o obrigou a ceder.

«O meu agente ligou para os clubes, e aconteceu a mesma coisa: os clubes queriam que eu treinasse primeiro. Com o ego que eu tinha, dizia: ‘Não vou treinar à experiência. Vocês viram-me jogar durante 10 anos, viram-me na Jamaica. Não tenho de treinar para ganhar contrato.’ E os clubes respondiam: ‘Se não treinas, não assinamos.’»

Depois de treinar com os sub-21 do West Ham e de nova chamada à seleção, ouviu o conselho do agente: precisava de provar que estava apto. «Tive de engolir o ego — foi assim que acabei no Brentford. Treinei lá duas semanas.»

Chegou a estar perto de assinar por Brentford e Leicester, mas novos problemas físicos travaram as negociações. «Quando soube que tinha rasgado o gémeo na véspera de assinar pelo Brentford, fiquei dois dias na cama. No primeiro dia só chorei. No segundo nem queria levantar-me. Pensei: ‘Estou de volta à Premier League.’ E depois aconteceu outra vez com o Leicester. Eu ia para o Leicester, mas eles não me queriam de volta porque não tinham medo de uma recaída. Então, treinei sozinho durante uma semana e depois fui para o Charlton

Antonio manteve conversações exploratórias com o clube do Championship para assinar um contrato de pagamento por jogo, antes de optar por se mudar para o Qatar.

Novo começo

A mudança para o Qatar surgiu de forma inesperada, através do compatriota Mason Holgate. O contrato de dois meses com o Al Sailiya permite-lhe recuperar ritmo competitivo e reavaliar o futuro no verão. «Seja o que for que aconteça no verão, acontece. Preciso de me focar no primeiro golo, em jogar, em estar em forma. Se estiver em forma, vou marcar. Sinto que a melhor hipótese de me manter apto é aqui, em vez de jogar terça e sábado.»

Apesar da saída amarga do West Ham — «foi um comprimido difícil de engolir» — Antonio garante que continua com «muito amor» pelo clube londrino. Mas agora sente-se renascido. «Sinto-me como um miúdo da escola outra vez.»

O regresso, contudo, terá de esperar já que, com o escalar da tensão no Médio Oriente, o futebol no Qatar encontra-se em suspenso. Ainda assim, quando tudo voltar à normalidade, há uma certeza: Antonio estará pronto.