Treinador do Benfica afirmou que cada elemento tem que «fazer o seu papel»

Boa notícia, qualidade do plantel... e comportamento: tudo o que disse Marco Silva

Mercado já é tema, mas foco está colocado no plantel à disposição, sem «hierarquias». De Lukebakio a Kaminski, há «boas dores de cabeça» para o treinador do Benfica

Marco Silva antecipou a receção do Benfica ao Alverca, a contar para a décima jornada da Liga, na segunda-feira.

—  Que características são inegociáveis para defrontar o Alverca?

— Acima de tudo, aquilo que temos tido como equipa. Boas exibições ajudam-nos a sermos mais fortes e a ganhar jogos, sempre fiéis à nossa identidade e à nossa forma de jogar. Há sempre um adversário pela frente que, por vezes, nos complica a tarefa. São características que temos de ter como equipa. Na preparação e dentro do campo, sermos a equipa que temos sido, iguais a nós mesmos, e melhorarmos alguns aspectos que há para melhorar, é fundamental para que possamos ter um controlo do jogo com e sem bola, contra um adversário que joga numa estrutura um pouco diferente com bola, com características também diferentes e que temos de ajustar no nosso momento de pressão. Acima de tudo, sermos iguais a nós mesmos, ter uma boa versão de nós mesmos amanhã, porque vamos precisar para ganhar o jogo. Fazer uma boa exibição, somar os três pontos que estão em disputa e que os adeptos possam desfrutar de uma boa exibição do Benfica.

—  Ao dia de hoje, como olha para a luta pela titularidade entre Lukebakio e Rafa? O extremo belga está neste momento um passo à frente do Rafa? Vai ser titular amanhã?

— Em relação à titularidade ou não, terão de esperar por amanhã. São jogadores com características completamente diferentes. O Rafa teve um excelente início de temporada, a jogar numa posição em que não jogava há algum tempo. Tem ajudado muito a equipa e eu não vou criar nenhuma hierarquia nesse espaço. Sei que eles têm começado no papel na mesma posição, mas quando jogamos com o Rafa naquela posição, ele está sempre por dentro. Mesmo não querendo entrar em comparações, não são comparações possíveis, são dois jogadores completamente diferentes. No futuro, de certeza que iremos acrescentar mais um jogador para esse corredor direito para essa luta. Acho que vai ser possível porque queremos dar à equipa todas as soluções possíveis, e é para isso mesmo que trabalhamos e analisamos jogadores. Neste momento, com alguns meses com estes jogadores, já os conheço muito melhor e naturalmente vamos tomando decisões. O Lukebakio fez dois golos, fez uma exibição muito boa no último jogo, acabou por jogar 90 minutos, o que não tem sido muito normal, porque é um jogador que vive muito de acelerações. Ele tem de ter a capacidade para essas acelerações, mas ser consistente com e sem bola durante os 90 minutos, e é importante ele ganhar essa capacidade de o ser, porque só assim irá começar jogos também. Satisfeito com o rendimento que ele teve, acima de tudo com a capacidade de ligar à equipa, porque, e falei na altura, é um jogador diferente, vive muito do 1x1, mas, na nossa forma de jogar, essa é uma das formas de lá chegarmos, mas não é a primeira nem a segunda. São importantes as ligações que queremos para a equipa, são importantes as conexões que temos por dentro ou por fora. No último jogo, por exemplo, foi percetível isso mesmo, com o Lukebakio e o Sudakov. A fazermos movimentos de perfuração com o Sudakov entre o lateral e o central e o Lukebakio a servir e não a finalizar. São esses os passos que têm de dar na nossa forma de jogar e vi-o a dar no último jogo com melhorias em relação aos anteriores. Quando falei da exibição, foi muito mais por aí. Os golos são o importante no futebol, mas são um final de ações que queremos. Acabou por fazer um bom golo numa segunda ação e um golo num canto que nem é muito normal para ele, estando numa posição mais para fazer algum tipo de bloqueio. Foi uma exibição boa, mas, por um jogador ter uma exibição muito boa, não quer dizer que esteja à frente dos outros que estão a lutar. O Rafa acabou por entrar muito bem no jogo também. Entrou só 10 minutos numa posição diferente que faz muito bem. É um jogador que faz todas as posições na frente, por trás do avançado, e contamos muito com ele. Não vou definir hierarquias porque elas não existem na nossa equipa. Por vezes, nem sempre quem está melhor é que vai jogar. É a estratégia e o planeamento tático e o que queremos explorar ou ter mais atenção no adversário. Há muitas questões aqui que nós colocamos em cima da mesa para depois tomar a decisão final.

—No final do jogo com o FC Porto, o Marco tinha dito que não ia fazer comentários em relação à expulsão do Lenglet. Recentemente defendeu de forma muito clara o Durán e disse que, se ele não pudesse jogar, não teria existido verdade desportiva. Que postura vai tentar ter em relação às questões da arbitragem?

— É difícil dizer como é que irei reagir daqui para a frente. Muitas vezes reajo como ser humano, tento ser o mais equilibrado possível e tento ter a calma suficiente, mas por vezes não tenho. Basta olharem para o jogo e perceberem durante os 90 minutos que sou emocional, tento jogar o jogo com os meus jogadores. Depois, quando analiso o jogo, não analiso só a minha equipa, analiso as minhas ações, quer técnicas, quer táticas, mas também de comportamento, que é assim que eu giro o meu comportamento. Naturalmente, às vezes, não fico muito satisfeito comigo mesmo, mas faz parte e sou o primeiro a criticar-me, porque só assim eu consigo ser melhor. Por vezes, não faço melhor porque não consigo. Em relação às minhas declarações no jogo que falou, disse que não queria falar porque, naquele momento, havia questões muito mais importantes para mim para falar do que arbitragem. Não estava tão satisfeito com a nossa exibição. Tentei ao máximo que isso acontecesse. Durante todo o flash consegui não fazê-lo, depois fui para a conferência e vieram mais oito perguntas sobre o mesmo e acabei por, uma ou outra vez, falar, mas esse era o meu objetivo. Por vezes não consigo fazer. A forma como irei ou não reagir depende do momento, depende de mim mesmo. Não consigo dizer. Se todos nós conseguíssemos ter um comportamento consistente, seria sempre melhor, mas o futebol tem muita emoção por trás. Todos nós, mesmo querendo em alguns momentos, parece fácil consegui-lo, e não é tão fácil. Basta olhar para mim no banco durante o jogo e percebem isso. Por vezes eu quero e a emoção do jogo leva-me para outros lados. Faz parte e depois tenho de reconhecer quando erro.

—Na Assembleia Geral do clube, Rui Costa assumiu que a época passada ficou aquém das expectativas e que ao Benfica não basta apenas ganhar uma Supertaça. Também decidiu voltar a Portugal e ao Benfica por sentir que pode ajudar a inverter este cenário?

— Não vou comentar as declarações do presidente. Estamos aqui e começámos a época porque acreditamos que o Benfica tem condições para ganhar e todos nós temos de fazer o nosso papel para que o Benfica esteja mais perto de vencer. É esse o objetivo quando estás nesta casa, quando representas o clube desta dimensão. Cada um, no seu papel, tem que trabalhar nesse sentido. Nós, enquanto equipa técnica, os jogadores no papel que têm, todo staff à volta dos jogadores para darem as melhores condições para que eles possam ter as performances que precisamos, tão simples como isso. Acreditamos muito em nós mesmos.

— Ainda falta muito até ao mercado de janeiro, mas, sendo que Leandro Barreiro e Barrenechea ainda estão a recuperar de lesão, já falou com o presidente e com a direção para, no mercado de janeiro, poder reforçar a posição?

— O nosso contacto é permanente, diariamente. Nem todos os dias com o presidente, mas algo que precisemos, está sempre presente connosco. Com a direção, estamos diariamente. Não precisamos de um dia específico para falarmos sobre situações, há momentos em que será mais ou menos importante. O Enzo está muito perto de estar de volta, felizmente para nós. É um jogador que começou muito bem a temporada; infelizmente, teve uma lesão. Tem concorrência forte, mas também faz a vida difícil para quem concorre com ele e isso é muito importante para mim como treinador. É um jogador com características que nós apreciamos para a posição, principalmente, no nosso momento com bola, que tem uma capacidade muito boa. Nos últimos dois ou três treinos tem estado com a equipa e a reagir bem. É importante tê-lo perto da equipa e pronto para ajudar. Vamos ver se, a partir de amanhã, nos próximos jogos, já poderá estar em condições de ajudar a equipa, o que é muito bom para nós. Reduzo um pouco a questão a um jogador que está lesionado. Acreditamos, continuo a dizer, não querendo pôr muita pressão no nosso departamento médico, mas colocando, acreditamos que estará disponível antes de janeiro. Olhando às opções que temos, em janeiro não se irão colocar tanto dentro daquilo que foi a questão, mas janeiro ainda falta. Nós estaremos atentos quando chegar essa altura e, como sempre, em todos os mercados, o que for possível fazer para melhorar a equipa dentro das possibilidades, que sabem que são diferentes no verão ou em janeiro, aqui estaremos. Mas, neste momento, não há, nem é a nossa preocupação. Não é o momento certo de falar, nós queremos toda a gente focada naquilo que são os jogos, que são bastantes, e muitas decisões até o princípio de janeiro.

— O que é possível fazer diariamente para evitar que o Benfica sofra tantos golos?

—É óbvio que nós não conseguimos mudar características individuais de muitos jogadores num curto espaço de tempo e alguns até com muito tempo a trabalhar. Acima de tudo, questões coletivas e posicionamento, compete-nos trabalhar com mais ou menos tempo. Às vezes terá de ser uma forma quase passiva, sem retirar muita energia aos jogadores, vídeos. Há muitas formas de conseguirmos pelo menos passar informação e que os jogadores compreendam aquilo que pretendemos. Naturalmente, depois, quando chega a momentos de criar essas mesmas situações com a intensidade que o treino precisa para que haja um entendimento mais claro, precisamos de tempo de trabalho para fazê-los crescer nesse aspeto. Muitas vezes, com semanas limpas, há claramente momentos de aquisição de aspetos importantes, coletivos, defensivos e ofensivos, que nós queremos ter. Nessas semanas é mais fácil. Os aspetos individuais têm uma importância cada vez maior. Cada vez mais equipas defendem numa situação de homem a homem. E, quando levas o jogo para estes momentos, a capacidade individual de ganhares ou não duelos tem uma uma importância muito grande. Não estamos a falar só dos jogadores da linha defensiva, estamos a falar muito mais do que isso. E, por vezes, é importante que todos os jogadores percebam o quão fundamental é estarem focados naquele momento, e depois tem a ver com aspetos coletivos que nós temos que continuar a trabalhar com os jogadores. Temos tentado e é a nossa obrigação incorporar isso a nível de treino e depois com outras ferramentas que temos para os jogadores atenderem a esses momentos também.

— O Kaminski disse recentemente numa entrevista que encontrou no Benfica um dos balneários mais fortes, com vários jogadores a competir pela mesma posição. Encontrou no Benfica um dos melhores plantéis que já teve enquanto treinador?

—É difícil de avaliar. Temos um plantel em que acreditamos muito. Não é justo estar a avaliar este plantel com outros plantéis que tive nas minhas mãos para poder trabalhar, não faz sentido entrar por esse caminho. São contextos diferentes, clubes diferentes. Nós temos um plantel que nos agrada bastante, em que nós acreditamos, com uma boa mescla de maturidade e experiência com jogadores jovens para podermos ir incorporando, crescerem connosco e terem oportunidade. O Kaminski referiu uma coisa importante, ele vem num contexto diferente e percebe qual é a a divisão da competividade que ele tem para a posição. É algo com o qual eu gosto muito de trabalhar, por vezes nem com plantéis muito longos, mas que haja uma competividade muito grande entre os jogadores. Quanto maior o número de jogos que tens, tens de ter soluções que te permitam ter essa competição e rotatividade e estares preparado em termos de profundidade de plantel para lesões ou algo que possa acontecer. É importante e o Kaminski na posição dele sabe bem o que é que enfrenta e quando teve a oportunidade de jogar recentemente antes da lesão também deu uma boa resposta, está a voltar. Acima de tudo é importante que todos os jogadores sintma que, mesmo estando a jogar, se olharem um bocadinho assim mais para o lado, percebem que há alguém ali pronto para ganhar a a posição deles. Quem ganha com isso é o Benfica, é o treinador que tem um pouco mais de dores de cabeça para decidir. Mas são boas dores de cabeça, boas decisões para ter e consoante o planeamento estratégico para os jogos podemos decidir em função daquilo que é o melhor para a equipa.

—O Alverca tem quatro derrotas em nove jogos esta época no campeonato, contra FC Porto,Sporting, SC Braga e Arouca a jogar com 10 quase o todo o jogo. É por isso, uma equipa que pode representar maiores dificuldades do que à partida se podia esperar?

— É uma equipa que representa dificuldades, mesmo nos jogos em que saíram derrotados. É uma equipa que tem em algumas posições jogadores muito jovens, irreverentes, com qualidade técnica. Joga claramente com uma linha de três com bola atrás e depois com laterais muito profundos e ofensivos depois fecha cinco. Tem princípios com bola e devido a essa mesma referência que eu falei de alguns jogadores, principalmente do meio-campo para frente, são um pouco imprevisíveis no que conseguem colocar no jogo e com bola conseguem criar alguns problemas aos seus adversários. É um adversário difícil, não olhamos para a tabela. Temos de respeitar todos os adversários e respeitarmo-nos ainda mais enquanto grupo,sabendo que temos estar sempre a top. Jogo após jogo, três em três dias chegar estar sempre a top, porque a nossa obrigação é fazer tudo aquilo que conseguimos para ganharmos os nossos jogos. É isso que temos que fazer novamente.

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