Benfica: melhor ano novo
Para começar bem o novo ano, nada melhor que uma vitória celebrada em casa própria. O jogo com o Estoril viria a ser interessante e competitivo, disputado contra um vizinho forte e personalizado. O visitante confirmou o porquê da sua posição tranquila, tendo em João Carvalho e Rafik as suas melhores unidades. Num Benfica de calendário cheio, não se esperavam, mesmo assim, grandes mudanças. O regresso de António Silva ao onze acabaria por abortar por queixas musculares do jovem central. Já a saída de Aursnes parecia corresponder à gestão física do médio norueguês, mas percebeu-se no final que seria mais do que isso. A sua entrada só aconteceu, com risco assumido por Mourinho, pelo perigo que a vantagem mínima ainda representava na altura. A única substituição óbvia daria entrada a Manu, para mais uma exibição convincente e segura da sua simplicidade.
A estreia de Sidny Cabral acabaria por ser um dos destaques, rivalizando até com a pontaria de Pavlidis. O jovem internacional cabo-verdiano só não foi uma completa surpresa porque Mourinho já o tinha confirmado de véspera. Desde logo, uma aposta em alguém chegado há tão poucos dias fazia prever algo de bom e diferente, o que se confirmou. Chegou e impressionou o seu treinador. Em pouco tempo de jogo, acabou por ter uma participação muito feliz e prometedora, tendo sido o jovem estreante a figura em foco na parte decisiva do jogo, servindo Pavlidis para o último golo.
Agora, mais do que fazer tradicional balanço do ano que passou, interessa enfrentar o que vem aí, cujo grau de dificuldade não baixou com a passagem de ano, só ficaram mais próximas as decisões. Passado que foi o filme de Braga, e não havendo já nada a fazer, o Benfica repete o confronto, agora para a Taça da Liga, a competição mais duvidosa do nosso calendário anual. A responsabilidade, já se sabe, é de conquistar o troféu, mas num mês especialmente importante e exigente, em que muito se joga, na Liga e na Taça, não esquecendo a Liga dos Campeões.
Construir ou descobrir
A maioria dos jogadores são detetados cedo e, como tal, vão sendo anunciados e promovidos antes de chegarem. Mesmo neste contexto atual ainda é possível alguém, como Sidny, estar escondido numa qualquer liga secundária e saltar, quase diretamente, para o maior estádio português. Sem dúvida uma exceção no panorama atual, em que a pesquisa dos clubes é global. Na sua essência os jogadores descobrem-se, não se fazem. A antecipação na descoberta de jovens promessas é, por isso, crucial. Claro que, a juntar ao talento, há várias capacidades que se treinam e melhoram pelo treino e repetição. Mas a grande capacidade e intuição já vêm com quem a tem. Voltando a Sidny, o seu visível talento técnico é suportado por qualidades físicas interessantes, propícias para o sucesso. No entanto, é a estrutura mental do atleta que define o ótimo funcionamento das demais caraterísticas. O estofo mental e a sua forte personalidade foi o que provou poder possuir, nesta primeira e marcante aparição.
Última hora
Um bom aquecimento para jogar é aquele que prepara o corpo para o esforço e exigência muscular e articular a que o jogo obriga, mas, mesmo assim, uma queixa sem explicação aparente pode sempre surgir. Na proximidade dos jogos é ao médico responsável que cabe informar o treinador da situação clínica dos atletas de utilização eventualmente em dúvida. Os jogadores são, claro, também parte interessada do processo, cuja opinião deve ser levada em conta. Por vezes, como neste jogo com o Estoril, a queixa de António Silva surge no aquecimento para o jogo. Nestas circunstâncias, o tempo é curto para decidir o melhor, se devemos arriscar ou substituir. Verdade é que quando o sinal é muscular e tem origem na coxa ou perna do atleta, é muitas vezes impeditivo, porque além de limitar o deslocamento, tem grandes probabilidades de estender o tempo de recuperação que seria normal.
Torcicolo
No decorrer da minha carreira, muitas e diferentes foram as lesões que vivi. Por exemplo, lembro-me de um aquecimento para jogo em Setúbal em que contraí um inesperado torcicolo numa finalização de cabeça. Foi um exemplo de dor muito desconfortável, mas que não impediu a minha utilização. Na verdade, a articulação do pescoço é muitas vezes, ainda hoje, erradamente esquecida na mobilização articular para a competição. Pela complexidade do corpo humano, fica claro que o entendimento entre a equipa técnica e o corpo clínico é obviamente importante para a saúde das equipas.
Amorim
Por um lado, pressentia-se a saída, por outro acreditava-se que o inegável talento de Amorim acabaria por prevalecer. As expectativas eram altas, mesmo num contexto clubístico de grandiosidade perdida e já distante. Com um trajeto anterior curto, mas impressionante, Amorim impôs-se também pelas suas fortes convicções agora colocadas em causa. Confesso que ainda acreditava na capacidade do antigo jogador do Benfica para impedir aquilo que parecia inevitável. Ser treinador ou jogador, entre muitas outras diferenças, tem esta, que no caso dos treinadores, permite a interrupção do vínculo pelo clube a meio época. Um destino desejado e até sonhado por Amorim, acaba agora sem glória. Pior é difícil, terá pensado na altura. Afinal foi. Na mesma Liga inglesa, Gyokeres, fortemente criticado, prossegue a sua difícil aproximação às novas exigências do mais complicado campeonato da atualidade. Conseguirá o avançado sueco inverter a tendência?