Benfica a uma vitória do título 25 anos depois: «Estamos mesmo muito perto»
25 anos depois, o Benfica pode ser campeão. Um triunfo diante o CDUL, hoje, 17h00, no Estádio Universitário de Lisboa (transmissão na BOLA TV), garante-lhe o 10.º troféu na modalidade centenária. A acontecer, iguala o Belenenses como 3.º emblema mais titulado, atrás de Direito (12) e CDUL (20).
A duas jornadas do fim, soma 32 pontos, sete vitórias e uma derrota (diante o Belenenses, em casa).Tem oito pontos de vantagem sobre o segundo, o Cascais (visita o Belenenses) e nove em relação ao Direito (defronta o São Miguel). No total, há 10 pontos em disputa nos últimos 160 minutos (80+80) da 66.ª edição do Campeonato, se contabilizados pontos de bónus ofensivo (quatro ensaios) e defensivo (derrota por uma diferença de menos de sete pontos), ou oito, no caso de duas vitórias sem bonificação.
A vitória diante os universitários permite aos encarnados erguerem a placa de madeira um quarto de século depois do título carimbado a 5 de maio de 2001, vitória diante a Académica, em Coimbra, na última jornada. Pontificava, então, uma equipa totalmente portuguesa e Rodrigo Alves, atual responsável da secção, integrava o XV. As águias perderam só um jogo em dez e venceram, ainda nesse ano, a quarta e última Taça Ibérica.
A BOLA visitou um dos locais de treino do rugby encarnado, o campo dos Pupilos do Exército, em frente ao Estádio da Luz.
«PASSO EM FRENTE»
Os jogadores começam a chegar de carro quando o relógio aponta o meio-dia. Partilham as quatro rodas para aceder ao treino. Há portugueses, três canadianos, três argentinos, dois nascidos na África do Sul, no Uruguai, Colômbia, Brasil, Irlanda, Inglaterra, África do Sul e Itália.
Francisco Fernandes e António Aguilar, dupla de treinadores, são dos primeiros a estacionar este exército global em que predomina a comunicação em português, inglês e espanhol, e onde o francês é mais direcionado a Xico Fernandes.
Ex-Lobo, mais de 50 internacionalizações e 20 anos como jogador na Pro2, segunda divisão gaulesa, Fernandes, lusodescendente de 40 anos nascido em França, assumiu este ano um novo desafio. Juntamente com António Aguilar, completa a dupla de timoneiros do Benfica: «A minha família está em França. Mudo de país, mudo de cultura, mudo tudo», recordou o finalista do França 2023. «Venho para o Benfica e ganhamos. Isto é mais fácil para mim também.»
Reconhece as diferenças entre países. «Aqui é sempre difícil, mas é bom», elogia. O conhecimento da realidade portuguesa advém da passagem pela Seleção. «Já sei como é a malta, o que tem na cabeça», apontou o responsável igualmente pelo treino de avançados.
A mudança é aposta ganha, independentemente dos resultados. «Mesmo que não ganhemos o campeonato, foi passo em frente», assumiu, procurando esvaziar a pressão para os derradeiros encontros.
«PROFISSIONALISMO É... ATITUDE»
António Aguilar, 47 anos, faz dupla com Fernandes. Observa que nada está conquistado. «Estamos muito perto, há muito tempo que não estávamos tão perto», exclamou. «É com orgulho que eu e o Xico conseguimos criar rapidamente uma dinâmica engraçada, um grupo muito unido, amigo, o que é difícil para jogadores de vários sítios», realçou. Pronunciando-se sobre a liderança bicéfala, Aguilar diz: «Encaixámos muito bem. Temos perfis diferentes, mas a mesma exigência. O feedback é que trouxemos mais exigência e mais qualidade para o grupo.»
Reforçado com internacionais estrangeiros, o Benfica tem no plantel portugueses, alguns nascidos em pequenos clubes de cariz social, São João da Talha (o lobo Guilherme Vasconcelos) e Escolinha de Rugby da Galiza (Tomás Picado, capitão).
A receita é simples. «Tentámos profissionalizar o mais possível. O profissionalismo não é tanto o dinheiro, mas a atitude e dar a oportunidade aos jogadores de treinar em horas normais, de manhã e à hora do almoço.» Assim, «inevitavelmente, eles melhoram». «É um passo difícil, nem todos os clubes conseguem fazê-lo», compara. «Temos de aproveitar as condições que o Benfica nos dá, da análise, do controlo físico... Estamos inseridos num ambiente profissional. Era inevitável dar este passo», sublinha.
«TIVEMOS SORTE NAS ESCOLHAS»
Para além das infraestruturas, «a qualidade dos jogadores ajuda muito, mas também a mentalidade e serem boas pessoas», qualifica. «Tivemos o cuidado de perceber como os jogadores eram, o perfil, se encaixavam na equipa. Felizmente tivemos sorte nas escolhas», explicou. «Ganhar ajuda a criar esses laços mais rápido, mas são todos bons homens e isso é muito importante», enaltece.
Sobre a perspetiva de estar muito perto de escrever história, é claro. «Esta é a pressão boa, que nós queremos e que o Benfica quer. Muitos destes jogadores nunca estiveram nesta posição. É quase guiá-los um bocadinho e tentar fazê-los ver que não é preciso fazerem nada de extraordinário», para além do que «tem sido feito até agora», sem necessidade «de inventar a pólvora», atirou Aguilar.
«APOSTA CERTEIRA» NO BANCO
José Lima, 34 anos, é um dos jogadores mais experientes. Após mais de 10 anos de profissional em França, regressou a Portugal a seguir ao Mundial 2023. Vestiu, uma temporada, a camisola da Agronomia e está desde 2024/25 nos encarnados. «Foi uma grande evolução desde a época passada» entre as mudanças na equipa do Benfica e na «própria estrutura» de râguebi. «Hoje, estamos a colher os frutos. E se a época acabasse agora, já teria sido evolução brutal em relação ao ano passado», elogiou o antigo vice da Seleção, recordando o «último lugar do Top 6», na pretérita época.
Antes de iniciar o treino, explica o que está na génese da mudança: «O momento decisivo foi, no início da época, ir buscar dois treinadores referenciados. Foi evidente o que queríamos construir a partir daí», referiu. «A escolha dos estrangeiros e de alguns portugueses foi muito clínica e isso tudo fez com que possamos estar nesta situação.»
Antigos colegas de Seleção, Francisco Fernandes, hoje treinador, e José Lima, partilham o balneário de forma diferente. Prevalece o respeito pelas hierarquias, «sem beliscar a amizade», reconheceu Lima. «Continuamos a falar muito sobre o râguebi, a partilhar opiniões, a tirar dúvidas, a querer fazer evoluir a equipa e isso é sempre o mais importante», sintetizou.
O mesmo estado de espírito se debateu na relação, assumidamente «mais próxima» com Aguilar, «um padrinho» quando chegou à Seleção. «É ótimo ter dois jogadores com quem joguei, que respeito e tenho uma boa amizade, a coordenar as tropas», resumiu o centro.
«AINDA NÃO GANHÁMOS NADA»
«Estamos numa boa posição para o conquistar, mas, por alguma razão, já não é conquistado há 25 anos. Não vai ser fácil, o CDUL não nos vai dar o título, nem o Cascais. Ainda não ganhámos nada» O aviso é de Tomás Picado, o capitão, que compara: «Sinto que Este ano estamos a ser bem preparados para encerrar jogos, que é muito importante», constata Picado.
Nas vésperas de uma jornada que pode definir o campeonato, deixa uma mensagem para dentro do balneário. «É um momento muito importante. Para mim, é muito importante porque nunca fui um jogador de ganhar muitos títulos e este seria o primeiro título importante da minha vida», conclui.
Reportagem de Miguel Morgado.