Fofana, aqui em luta com Moutinho, marcou o golo do triunfo portista

Banco de Farioli foi decisivo na intensidade que deu a vitória (crónica)

Quando mais precisou, Farioli foi buscar ao banco meios para o investimento na vitória: com mais pulmão, o FC Porto foi capaz de vergar uns arsenalistas que, exceto num curto período no segundo tempo, nunca tiveram espaço e tempo para circular a bola como tanto gostam

Se este foi o jogo do título (e pode muito bem tê-lo sido), foi um grande jogo de futebol! A sete jornadas do fim, mesmo que o Sporting derrote, em Alvalade, o Tondela, o FC Porto pode empatar dois jogos, e mesmo que os leões vençam sempre, sagrar-se-á campeão. Olhando para o calendário dos dragões - Estoril, Amadora e Aves, fora; e Famalicão, Tondela, Alverca e Santa Clara, em casa - só um cataclismo evitará que os azuis-e-brancos cheguem, depois de uma seca de três anos, à condição de campeões nacionais.

O embate com os arsenalistas na Pedreira era a mais exigente prova de fogo da equipa de Farioli e há que dizer que o FC Porto ganhou bem, tirando muito proveito dos argumentos que tinha no banco, e que o treinador italiano utilizou com maestria. Poderia usar o argumento, redutor, que até foram dois dos suplentes utilizados a marcar os golos que valeram os três pontos aos dragões.

Mas a regeneração que uma equipa que começava a evidenciar sinais de perda teve depois das substituições, deve falar muito mais alto. Recorde-se que, do jogo com o Estugarda para Braga, Farioli mudou oito titulares, enquanto que o seu homólogo ‘apenas’ mexeu em duas peças. E será nesta diferença de profundidade, nas dimensões quantidade/qualidade, entre os plantéis, que terá sido desenhada a sorte do jogo.

Grande primeira parte

Duas equipas com modelos de jogo muito diferentes - os donos da casa num 3x4x3 que tanto virava 5x4x1 como 4x3x3, e os forasteiros com um 4x3x3 que só funciona se estiver musculado - o FC Porto começou por fazer uma prova de autoridade, exercendo pressão alta à entrada da área arsenalista, metendo até oito jogadores no meio-campo do SC Braga, o que dificultou sobremaneira a forma habitual de jogo da equipa de Vicens, onde a posse de bola e o futebol rendilhado são imagens de marca.

Mesmo com um super-Zalazar (percebe-se que vai dar o salto, resta saber para onde…) e dois médios com a precisão de um bom relógio suíço, Moutinho e Grillisch, o SC Braga teve dificuldade em fazer chegar jogo a Horta, obrigado a recuar muitas vezes, quando via a sua equipa sufocada pela pressão portista, e especialmente a Pau Víctor, perdido na frente.

Provavelmente, esta dificuldade será bem ilustrada com o facto dos arsenalistas não terem enquadrado qualquer remate na primeira parte, enquanto que os portistas, que foram gigantes a não deixar jogar o SC Braga, tiveram duas bolas, uma de Varela e a outra de Gabri Veiga, a tirar tinta ao poste esquerdo da baliza de Hornicek.

O primeiro ataque rápido dos minhotos só surgiu aos 14 minutos (Zalazar, quem mais?) e muito raramente Varela teve de se colocar na linha de Bednarek e Kiwior, porque poucas foram as vezes em que Ricardo Horta surgiu em apoio direto de Pau Víctor. A primeira parte esgotou-se com predomínio portista, tendo ainda os dragões reclamado um cartão vermelho a Niakaté (por falta sobre Gul, aos 33 minutos), num lance em que árbitro e VAR acordaram num amarelo que deixou muitas dúvidas.

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Golo e remontada

Se a primeira parte, apesar de pobre em oportunidades de golo, foi rica do ponto de vista da intensidade e do rigor tático de ambas as equipas, a segunda foi ainda mais espetacular.Logo aos 51 minutos, uma falta clara de Gabri Veiga sobre Niakaté resultou num castigo máximo favorável aos arsenalistas, que Zalazar não desperdiçou.

A reação de Farioli foi imediata e um minuto depois da bola ter ido ao centro trocou Gul e Pepê por Moffi e William Gomes, que embora tenham trazido ao jogo portista maior vivacidade, não foram imediatamente decisivos. O SC Braga, que gosta e sabe ter bola, teve então alguns minutos em que a pressão portista baixou e pôde jogar como se sente confortável, dando a sensação de que teria argumentos para derrotar os posrtistas.

Porém, enquanto que as trocas de Niakaté por Moscardo e Diego por Martinez, aos 63 minutos, pouco acrescentaram (no caso de Moscardo foi precisamente o contrário), Farioli, aos 66 minutos, fez as duas substituições mais decisivas da partida, fazendo entrar Pablo Rosário para o lugar de Varela e Fofana para o de Gabri Veiga.

Sem mudar a tática, mudou a dinâmica, que regressou à intensidade sufocante da primeira parte. Como prémio, o treinador italiano viu, três minutos volvidos, Kiwior fazer um grande passe para Pietuszewski, que deixou Moscardo, mal posicionado, para trás e assistiu William Gomes para o golo do empate. 

Com maior capacidade física, o FC Porto foi-se impondo cada vez mais, recuperou o controlo do meio-campo e estancou as iniciativas atacantes do SC Braga.

Sendo verdade que no futebol nada é impossível, começou a criar-se a convicção fortíssima de que os forasteiros podiam a qualquer momento chegar à vantagem, e que Vicens não tinha argumentos que pudesse contrapor para devolver a frescura à sua equipa.

Quando, dois minutos depois de Pietuzeswski ter dado o lugar a Borja Sainz (mais agressividade e velocidade na esquerda numa altura em que o polaco já dera o que tinha para dar), Fofana, após canto da direita desviado ao primeiro poste por Froholdt, meteu a bola no fundo da baliza de Hornicek, percebeu-se que o destino dos três pontos estava traçado.

Vicens ainda mandou (tarde) a jogo Gorbi, Navarro e Dorgelis (86), mas ainda foi Fofana a estar mais perto de marcar (87), rematando à malha lateral. 

A vitória do FC Porto não teve a ver com tática, nem foi por causa da tática de Vicens que o SC Braga perdeu. A verdade é que os dragões tiveram mais argumentos para colocar no relvado da Pedreira uma estratégia que rouba cedo a bola ao adversário, mas que só é eficaz se tiver executantes folgados; e Farioli teve-os, no campo e no banco, executando as rotinas que dão solidez à equipa (por exemplo a incorporação de Varela ou Rosário na linha dos defesas), a rotatividade de Froholdt e Gabri Veiga, e o excelente jogo aéreo de Kiwior e do líder Bednarek.

Pode ser cruel para os arsenalistas, que se viram em vantagem, mas a equipa mais adulta em campo e que fez mais para conquistar os três pontos foi a de Francesco Farioli.