Se a contratação de Ba tivesse sido feita pelo Benfica, depois de um clube desistir na sequência de exames médicos, a cobertura mediática seria igual? — Foto: SPORTING CP
Se a contratação de Ba tivesse sido feita pelo Benfica, depois de um clube desistir na sequência de exames médicos, a cobertura mediática seria igual? — Foto: SPORTING CP

As palavras também jogam

O Sporting já ultrapassou os 100 milhões de euros em reforços e a palavra que mais apareceu foi investimento». Quando era o Benfica a fazer mercados desta dimensão, a palavra escolhida era quase sempre diferente. O Benfica gastava. Gastava muito. 'Crónicas de bancada' é o espaço de opinião em A BOLA de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Há palavras que, no futebol português, vão sendo usadas mediante a cor da camisola. Reparei nisso outra vez durante as últimas semanas, quando li e ouvi as análises ao mercado de transferências. O Sporting já ultrapassou os 100 milhões de euros em reforços e a palavra que mais apareceu foi «investimento». Não me choca. Contratar jogadores é investir. Sempre foi.

O que me chamou a atenção foi outra coisa.

Durante anos, quando era o Benfica a fazer mercados desta dimensão, a palavra escolhida era quase sempre diferente. O Benfica gastava. Gastava muito. Gastava acima das possibilidades. Gastava porque precisava de corrigir erros. A discussão começava quase sempre pelo dinheiro. Só depois, se houvesse tempo, se falava dos jogadores, das necessidades do treinador ou da ideia para a época.

Parece um detalhe, mas não é.

As palavras condicionam a forma como olhamos para os factos. «Investir» transmite confiança, ambição e estratégia. «Gastar» desperta imediatamente a ideia de excesso, risco ou desperdício. O valor pode ser exatamente o mesmo. O número de reforços também. A diferença está na perceção que fica em quem lê, ouve ou vê.

O mesmo acontece quando chega a altura de vender.

O Sporting prepara-se para perder um conjunto significativo de titulares. Serão vários jogadores importantes a sair neste mercado. A leitura dominante é a de que se trata do fim de um ciclo. Parece-me uma interpretação perfeitamente aceitável. As equipas mudam, os ciclos terminam e nenhum plantel permanece igual para sempre.

O que já não me lembro de ver foi essa mesma leitura quando o Benfica vendeu vários jogadores importantes também num mercado de verão.

Nessa altura, a conversa era outra.

Falava-se de um plantel enfraquecido.

De uma estrutura incapaz de segurar os seus melhores ativos.

De um clube que tinha perdido capacidade competitiva.

De uma Direção que estava a hipotecar o futuro.

Não me recordo de ouvir, com a mesma frequência, que era apenas o encerramento natural de um ciclo.

É uma diferença que vale a pena assinalar.

Quando uns vendem, estão a renovar o projeto desportivo.

Quando outros vendem, estão a desmontar a equipa.

Quando uns encaixam dezenas de milhões de euros, demonstram inteligência financeira.

Quando outros fazem exatamente o mesmo, é porque foram obrigados a vender.

Os factos mudam pouco. A forma de os contar muda bastante.

Outro exemplo surgiu com Ibraima Ba.

O Estrasburgo desistiu da contratação depois dos exames médicos. Dias mais tarde, o Sporting decidiu avançar para o negócio, investindo ainda mais do que o clube francês estava disposto a pagar. Mais tarde soube-se que o jogador recuperava de uma intervenção cirúrgica.

Pode vir a revelar-se uma excelente contratação. Aliás, desejo que assim seja. Mas isso não impede uma pergunta.

Se este negócio tivesse sido feito pelo Benfica, depois de um clube desistir da contratação na sequência dos exames médicos, a cobertura mediática teria sido exatamente igual? Tenho dificuldade em acreditar.

Imagino dias de debate sobre a competência da estrutura, sobre o departamento médico, sobre o risco assumido e sobre a forma como o processo foi conduzido. Imagino especialistas a perguntar se valia a pena correr aquele risco e comentadores a recordar outros dossiês semelhantes. Talvez esteja enganado. Mas custa-me acreditar que o tratamento fosse exatamente o mesmo.

Também olhei com curiosidade para o caso de Cardoso Varela.

Há poucos meses, André Villas-Boas afirmou publicamente que o futuro do jogador não passava pelo FC Porto. Entretanto, tudo mudou. O jogador regressou e o desfecho acabou apresentado como um sucesso do clube.

Não tenho qualquer problema com isso.

O mercado muda depressa. Os clubes mudam de estratégia. Os dirigentes também podem mudar de opinião. Faz parte do futebol.

O que acho curioso é que nem todas as mudanças de posição são analisadas da mesma maneira.

Há mudanças que revelam inteligência negocial.

Outras revelam falta de rumo.

Há recuos que demonstram capacidade para corrigir um erro.

Outros passam imediatamente a ser sinais de incompetência.

Mais uma vez, a diferença raramente está apenas na decisão. Está na forma como ela é apresentada.

Há quem diga que isto são apenas palavras. Não concordo.

As palavras nunca são apenas palavras. São elas que criam a primeira impressão, que moldam a discussão e que, muitas vezes, condicionam a forma como os adeptos olham para uma contratação, uma venda ou uma decisão de um dirigente.

É por isso que continuo a achar que o comentário desportivo tem uma responsabilidade maior do que às vezes parece reconhecer. Não por ter de elogiar ou criticar mais este ou aquele clube. Mas por aplicar o mesmo critério quando os factos são semelhantes. Se contratar mais de 100 milhões de euros é investir, então que seja sempre investir. Se vender vários titulares representa o fim de um ciclo, então que essa leitura não dependa da cor da camisola.

Se mudar de posição é inteligência, que o seja para todos.

E se for um erro, que também o seja para todos.

No futebol nunca haverá consenso. Nem é isso que se pede. O que se pede é coerência.

Porque os campeonatos decidem-se dentro das quatro linhas.

Mas, cá fora, há jogos que começam muito antes do apito inicial.

E esses também se jogam com palavras.

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