Sporting de Frederico Varandas não se limita a beneficiar do aproveitamento do bom momento desportivo — Foto: IMAGO
Sporting de Frederico Varandas não se limita a beneficiar do aproveitamento do bom momento desportivo — Foto: IMAGO

As contas de outro campeonato

O Sporting regista assim um resultado operacional positivo, mesmo excluindo transações do plantel, de €9,55 M. As receitas operacionais, sem transações do plantel, ascenderam a €95,843 M e os gastos operacionais equivalentes quedaram nos €86,291 M. O facto de a operação corrente ser positiva dá ao Sporting o perfil mais saudável entre os três grandes. 'A Bola é redonda. O Verde é futuro' é o espaço de opinião quinzenal de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Quando os holofotes se concentram nos lugares ocupados na tabela classificativa, na forma e no momento das equipas, nas polémicas de arbitragem tão típicas do nosso futebol, ou nas picardias e nos mind games de protagonistas fora das quatro linhas, há um outro campeonato, menos ruidoso e mais técnico, que continua a ser jogado e com impacto, mais cedo ou mais tarde, e por isso relevante no jogo futuro dentro das quatro linhas. Falo do campeonato das contas, aquele que garante a sustentabilidade e a capacidade estrutural de cada clube para transformar a sua ambição desportiva em desempenho competitivo.

Analisar os relatórios e contas do primeiro semestre da época desportiva 2025/2026 não implica substituir a paixão do jogo pela folha de Excel, nem a reduzir a emoção do futebol pela racionalidade dos números vertidos em balanços. Significa, isso sim, perceber melhor aquilo que antecede e condiciona o rendimento desportivo, a margem para atacar o mercado e reforçar plantéis, assim como para sindicar a consistência das decisões estratégicas e perceber melhor os projetos, sem que estejam condicionados pelas oscilações de forma das equipas e pelas inevitáveis contingências do jogo, como o erro de quem apita.

É uma forma mais completa de compreender o jogo como ele hoje verdadeiramente é: um espaço onde o talento, a ambição desportiva e a liderança das organizações convivem cada vez mais com a disciplina financeira, a capacidade de gerar receita e a solidez dos projetos.

Os três grandes do nosso futebol apresentam neste primeiro semestre sinais distintos, ainda que muito claros do momento que atravessam. O Sporting apresentou um resultado líquido que ascende a 32 milhões de euros, mais do dobro do período equivalente, beneficiando do forte contributo da participação na UEFA Champions League, na qual conseguiu historicamente qualificar-se nos oito primeiros classificados, aliando o êxito desportivo à soma de prémios financeiros muito relevantes.

O Benfica conseguiu um resultado líquido superior, no valor de €40,6 M, fruto acima de tudo das mais-valias realizadas com transferências, pese o sofrido desempenho e a mera qualificação para o play-off da Champions.

O FC Porto, por seu turno, apresentou um resultado líquido bem mais comedido, somente €1,9 M, fruto do contexto exigente de recuperação de uma situação financeira mais débil e da não participação na liga milionária.

A crueza dos números revela histórias diferentes e aconselha a alguma prudência, não devendo ser feita de leituras mais apressadas. Não basta dizer que um clube lucrou mais num determinado período para concluir que está mais bem preparado para enfrentar as competições em que está envolvido.

É preciso descortinar a composição dos números, perceber a sua recorrência, a dependência, por exemplo, das transferências de jogadores, o peso da participação nas competições europeias e a consistência da trajetória subjacente.

Deve ser reconhecido que o Benfica confirma neste semestre uma linha de estabilidade que lhe permite manter um patamar de investimento elevado, tendo sido o clube que mais investiu na aquisição de jogadores: €112 M. Ainda assim, se desconsiderarmos as mais-valias com direitos de atletas, no negócio corrente, isolado de transferências, o clube apresenta um saldo negativo nos rendimentos operacionais em cerca de €6,6 M.

Por seu turno, o FC Porto apresenta um valor modesto de resultado líquido, muito condicionado pelo contexto vivido no passado recente. Ainda assim, logrou aumentar as receitas operacionais, excluindo proveitos com passes de jogadores para €80,9 M, um crescimento de realçar, em 5%, conseguindo melhorar também o EBITDA, cortando ainda €46,4 M na dívida financeira líquida e recuperando capitais próprios, ainda que estes permaneçam numa situação negativa, em €6,2 M no final de dezembro.

O Sporting exibe uma subida do resultado líquido muito expressiva, mas mais impressionante revela um modelo operacional particularmente robusto e um enquadramento estratégico que merece ser destacado. O apuramento direto no top-8 da fase de liga da UEFA Champions League permitiu encaixar €67 M de receitas associadas à participação nessa prova e os rendimentos obtidos de transferências com jogadores em €110,2 M, mais 161% do que no período homólogo, habilitando a realização do maior investimento de sempre na composição do plantel, no montante recorde de €98,9 M, conforme fez questão de frisar o presidente Frederico Varandas no debate que antepassou as eleições.

A estes valores deve-se ainda somar os máximos registados em receitas de linhas de negócio operacionais, com o crescimento significativo no valor das vendas de gamebox, €9,6 M, o que representa um incremento de 20% face ao mesmo período, merchandising com vendas no valor de €11 M, mais 12% do que no primeiro semestre da época precedente e um recorde na rubrica hospitalidade, os produtos corporate que atingiu o montante de €5,4 M. E, sim, todas estas receitas são importantes, não devendo ser diabolizada a estratégia dedicada a este modelo de produto, havendo certamente espaço para todos através da segmentação da oferta.

O Sporting regista assim um resultado operacional positivo, mesmo excluindo transações do plantel, de €9,55 M. As receitas operacionais, sem transações do plantel, ascenderam a €95,843 M e os gastos operacionais equivalentes quedaram nos €86,291 M. O facto de a operação corrente ser positiva dá ao Sporting o perfil mais saudável entre os três grandes clubes, podendo ser classificada como uma operação de 'qualidade dos lucros'.

Outra decisão com impacto transformador foi a colocação de dívida de €225 M, num financiamento de longo prazo, a 28 anos, com taxa fixa de 5,75%, no âmbito do projeto constante no plano de negócios de criação de um verdadeiro hub de entretenimento em torno do Estádio José Alvalade. Não deve haver qualquer anátema sobre a emissão de dívida, particularmente esta, desde que esteja assente, como parece ser o caso, numa política de investimento e geração de receita superior aos custos suportados com o serviço dessa dívida.

Em suma, o Sporting não se limita a beneficiar do aproveitamento do bom momento desportivo, parece estar a caminhar sob uma estratégia e um rumo que visa garantir a sustentabilidade do sucesso desportivo, passando a vencer de forma muito mais recorrente do que aquela que, malogradamente, nos habitou nas recentes décadas.

Os relatórios semestrais e as contas não atribuem títulos, mas ajudam muito a perceber quem está a criar as condições e as bases sólidas para os disputar com consistência, não somente numa época, mas num ciclo longo. As contas não jogam sozinhas, quem joga e decide os jogos são os jogadores, os verdadeiros artistas.

O futebol será sempre apaixonante pelo seu espaço de imprevisibilidade, de emoção e de desmentido do nosso racional. Continuaremos a ver equipas com menos recursos financeiros superar outras, bem mais apetrechadas e com superlativos investimentos, fazendo, muito por isso, do futebol o desporto mais empolgante e apaixonante. Ainda assim seria hoje um erro ignorar os sinais das contas numa era em que o futebol também é negócio e os clubes, além de coletividades e sentimento, são verdadeiras empresas.

A força de um projeto desportivo mede-se, muitas vezes, na qualidade das suas contas. No futebol contemporâneo os campeonatos também se atacam com contas fora das quatros linhas. As contas de outro campeonato.