O spa dos horrores
Há momentos em que o desporto deixa de ser um espelho da sociedade para passar a ser um amplificador das suas piores fragilidades. O episódio ocorrido no jogo de andebol entre FC Porto e Sporting não é, por si só, o centro do problema. É apenas mais um sinal de um ambiente que há muito ultrapassou os limites do aceitável.
O alegado incidente no balneário, suficientemente grave para levar o Sporting a pedir uma audiência governamental, acabou por expor algo maior. Não se trata de um odor tóxico, nem de um jogo. Trata-se de um clima. Um clima que se instalou, cresceu e normalizou. Um clima que já não surpreende. E essa é a parte mais inquietante.
Frederico Varandas foi ouvido pela ministra do Desporto, Margarida Balseiro Lopes, com a intenção de denunciar aquilo a que chamou um «comportamento miserável» dos dragões ao longo da época. Pouco depois, André Villas-Boas passou pelo mesmo gabinete. À saída, escolheu o tom. Um tom leve, quase jocoso, que transformou episódios sucessivos em ruído habitual. Falou em enviar bolas, cones e toalhas para Varandas. E ao bom estilo da ironia de Pinto da Costa, sugeriu que os dragões iriam preparar um spa para receber o Sporting, com camas em condições e toalhas de veludo, reduzindo a questão a uma ironia logística quando o problema é, há muito, estrutural.
É aqui que a história se torna preocupante. Porque quando a liderança desvaloriza, legitima. E quando legitima, perpetua. Não é apenas uma questão de palavras. É uma questão de cultura. E a cultura constrói-se tanto pelo que se diz e se faz como pelo que se aceita.
Os episódios acumulam-se. Uma televisão no balneário de Fábio Veríssimo foi o pontapé de saída. As bolas e os cones que desaparecem durante um jogo importante são a continuação. E até as toalhas de Rui Silva, que foram desaparecendo nesse jogo, lembrando a final da CAN, é algo que André Villas-Boas considera dentro dos limites do desporto.
São vários gestos que, isoladamente, podem parecer irrelevantes, mas que juntos desenham um padrão. Um padrão de pressão, de desconforto, de tentativa de condicionamento. Um padrão que, repetido vezes suficientes, deixa de ser exceção para passar a ser método.
Nada disto é novo. O que é novo é a sensação de regressão. Havia uma expectativa, talvez ingénua, de que uma nova geração de dirigentes trouxesse outra linguagem, outro comportamento, outra responsabilidade. Uma forma diferente de competir fora de campo. Mais transparente. Mais adulta. Mais consciente do impacto que cada gesto tem num país onde o futebol não é apenas um jogo.
Em vez disso, assistimos a uma reedição de práticas antigas, agora com um verniz mais sofisticado, mas com a mesma lógica de fundo. A lógica de que vale tudo desde para vencer. De que a fronteira pode ser empurrada, testada, dobrada.
O problema não é apenas o que acontece dentro dos recintos. É o que acontece fora deles. A normalização. A banalização. A ideia de que faz parte. De que é rivalidade. De que é assim. Como se o desporto tivesse regras diferentes das restantes esferas da vida pública.
Não tem. Não pode ter.
Quando um presidente de um dos maiores clubes do país relativiza comportamentos que colocam em causa a integridade competitiva, está a enviar uma mensagem clara. Não apenas para os adeptos, mas para todo o ecossistema desportivo. A mensagem de que a linha pode ser esticada. Sempre um pouco mais até deixar de existir. Até rebentar.
Entretanto, as instituições observam. Liga, FPF e Governo. Todos com margem para agir. Todos com responsabilidade. E todos, demasiadas vezes, a optar pela prudência silenciosa. Pela gestão do momento. Pela esperança de que o tempo resolva aquilo que a liderança não resolve. É uma estratégia confortável, mas raramente eficaz.
Desta vez, o Ministério Público decidiu avançar com um inquérito, admitindo a possibilidade de crimes de natureza pública antes do jogo de andebol entre as duas equipas. É um sinal. Um sinal claro de que o assunto é sério. Demasiado sério. De que se estão a ser ultrapassadas todas as barreiras do aceitável. E devia servir de motivação para que as autoridades desportivas e governamentais deixassem de assobiar para o lado. Porque o problema não é apenas jurídico. É cultural. E os problemas culturais não se resolvem apenas com processos. Resolvem-se com posicionamento. Com liderança. Com exemplo.
O desporto português não precisa apenas de investigação. Precisa de autoridade. Precisa de consequências. Precisa de um ponto de rutura. Precisa que alguém diga, de forma inequívoca, que há um limite. E que esse limite não é negociável.
Quando a agressividade do futebol começa a contaminar outras modalidades, algo se perdeu. O andebol, como todas as modalidades, deveria ser um espaço de competição limpa, não um prolongamento das guerras de bastidores do futebol. E, no entanto, aqui estamos. A falar de balneários, de odores, de provocações pouco ou nada subtis transformadas em estratégia.
Tão inquietante como o episódio é a reação ao mesmo. Ou a falta dela. É a facilidade com que se desvaloriza. Com que se sorri. Com que se transforma o sério em anedota. Como se tudo isto fosse apenas parte do espetáculo.
Há uma linha invisível que separa a rivalidade da degradação. Alguns clubes estão perigosamente perto de atravessá-la por completo.
E quando isso acontece, o desporto deixa de cumprir a sua função mais básica. Deixa de ser um espaço de confronto leal para passar a ser um território de suspeita permanente, onde tudo se contamina, até aquilo que deveria estar protegido.
Não há vitória que compense. Pelo contrário. Há uma derrota silenciosa, partilhada, que não entra nas estatísticas nem levanta troféus. Uma derrota que se instala devagar, que corrói a confiança, que afasta quem ainda acredita que isto pode ser diferente.
E essa derrota é de todos. Dos dirigentes que alimentam o clima, das instituições que hesitam, do poder político que tarda em agir.
Mas também é de quem olha e aceita.
Porque há feridas que não se veem no fim de um jogo, mas que ficam. E essas são sempre as mais difíceis de sarar.
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