Arrumar a Casa
No futebol, a ambição ocupa quase sempre o centro da conversa. Queremos mais tempo útil de jogo, mais adeptos nos estádios, um produto audiovisual moderno, maior projeção internacional e novas receitas. Queremos, em suma, um futebol português maior. Mas há uma palavra menos presente neste debate: rigor.
Na última semana, a AG da Liga Portugal aprovou, por unanimidade, as contas da época 2025/26. Os resultados ficaram 46% acima do orçamentado e 121% acima do exercício anterior, enquanto o cash flow operacional passou a positivo. O crescimento das receitas, com particular destaque para a angariação de novos patrocínios, acompanhou uma reorganização firme, rigorosa e humana da estrutura e dos projetos da Liga Portugal.
São números positivos, que nos orgulham. Mas não é sobre os números que quero escrever. É sobre aquilo que eles provam.
Na banca, há um princípio simples: não existe crescimento sustentável sem um balanço sólido. No futebol, a lógica não deve ser diferente. Antes de investir, é preciso criar condições para o fazer. Antes de crescer, é necessário garantir que esse crescimento assenta numa estrutura equilibrada. Por isso, antes de transformar o futebol, é preciso arrumar a casa.
Uma organização que pretende liderar uma mudança não pode exigir aos outros aquilo que não pratica. Deve provar que essa mudança é possível. Que o rigor financeiro é compatível com a ambição comercial. Que controlar custos não impede a criação de novas receitas. Que se pode gerir melhor e vender melhor.
Durante demasiado tempo, parte significativa da discussão no futebol português concentrou-se na divisão do valor existente. O desafio que temos pela frente é diferente: criar valor novo, aumentar a dimensão do mercado e assegurar que esse crescimento chega a todo o ecossistema.
É neste quadro que se inserem três projetos estruturantes: a centralização dos direitos audiovisuais, o Liga+ e o Fair Play Financeiro. A centralização procura valorizar o produto audiovisual e reforçar a competitividade do Futebol Profissional. O Liga+ pretende mobilizar investimento para acelerar o crescimento. O Fair Play Financeiro deve garantir que esse percurso assenta em bases sólidas. Em conjunto, respondem a três perguntas essenciais: como criamos valor, como investimos para o ampliar e como asseguramos a sua sustentabilidade?
As contas da época 2025/26 não representam um ponto de chegada. Constituem uma prova de possibilidade. À nossa escala, demonstrámos que é possível reforçar o rigor, melhorar a gestão e aumentar receitas. O passo seguinte é contribuir para que o Futebol Profissional português faça o mesmo à escala coletiva.
O nosso futebol já tem valor. Falta transformá-lo, com maior eficácia, em valor económico. Isso exige rigor na gestão, capital e visão no investimento, ambição no crescimento.
Os grandes projetos não começam no dia em que se anuncia a grande ideia. Começam muito antes, nas decisões menos visíveis, na exigência diária e na capacidade de preparar o futuro. Começam quando se arruma a casa. E é quando a casa está arrumada que podemos começar a pensar em torná-la maior.