Rafa marcou o golo do Benfica na derrota dos encarnados diante do Real Madrid, no Santiago Bernabéu - Foto: Imago
Rafa marcou o golo do Benfica na derrota dos encarnados diante do Real Madrid, no Santiago Bernabéu - Foto: Imago

Benfica: eliminados pela eficácia, firmes nos princípios

'Crónicas de bancada' é o espaço de opinião quinzenal de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Há eliminações que se explicam com facilidade estatística. Outras exigem mais contexto. A do Benfica frente ao Real Madrid pertence à segunda categoria. No fim, o que conta é a eficácia. O Real Madrid foi mais eficaz. Concretizou melhor as oportunidades que criou. E, no futebol de alta competição, sobretudo em eliminatórias europeias, essa diferença é quase sempre decisiva.

O Benfica perdeu. Convém começar por aqui, sem rodeios nem subterfúgios. No Benfica não há vitórias morais. Não podem existir. O resultado é o que fica. A história regista quem passa, não quem se bate bem. Ainda assim, seria intelectualmente desonesto não reconhecer que o Benfica se bateu bem. Competiu. Discutiu a eliminatória. Não foi inferior em organização, nem em intensidade, nem sequer em vários momentos de domínio territorial.

Desta eliminatória há muito a analisar no plano estritamente futebolístico. A qualidade individual de alguns jogadores do Real Madrid fez a diferença em momentos-chave. A arbitragem do primeiro jogo deixou marcas evidentes no desenrolar da eliminatória. Houve decisões difíceis de compreender a este nível. Tudo isto faz parte do jogo. Deve ser discutido, analisado, escrutinado. É matéria de futebol.

O que não faz parte do futebol não deve ser tratado como se fizesse.

O racismo não é um detalhe lateral. Não é um episódio menor. Não é um excesso de fervor competitivo. É intolerável. Sempre. Em qualquer contexto. E é preciso dizê-lo sem ambiguidades.

O que aconteceu no Estádio da Luz com Vinícius Júnior é inaceitável. Houve atos e insultos racistas vindos de pessoas nas bancadas. Foram visíveis. Foram audíveis. Não há espaço para relativizações. Não há provocação que legitime um insulto racista. Não há atitude menos correta que justifique a desumanização de alguém pela cor da pele. Ponto final.

Esteve bem o Benfica ao anunciar a abertura de um inquérito interno para identificar os responsáveis e, caso se confirmem como sócios, avançar com processos disciplinares que podem culminar na expulsão. A credibilidade dos valores não se mede em comunicados inflamados, mede-se em decisões concretas.

Diferente é a situação que envolve Gianluca Prestianni. Vinícius Júnior acusou-o de lhe ter dirigido um insulto racista. Prestianni nega. Entre uma acusação feita em campo, num ambiente de enorme tensão competitiva, e a ausência de provas públicas inequívocas, há um espaço que deve ser preenchido por investigação, não por julgamento sumário.

Não consigo aceitar discursos que tentam minimizar atos racistas com base em alegadas provocações. Mas também não consigo aceitar a condenação automática de alguém apenas porque foi acusado. A presunção de inocência não é um formalismo jurídico. É um princípio civilizacional.

O presidente do Benfica veio dizer que acredita que o jogador não proferiu qualquer insulto racista, acrescentando que, se acreditasse no contrário, ou se tal se vier a provar, o jogador já não seria jogador do Benfica ou deixará de o ser. É uma posição clara: tolerância zero ao racismo.

As duas situações são distintas. Ambas graves, mas diferentes. Numa há evidência objetiva de insultos racistas vindos das bancadas. Noutra há uma acusação que precisa de ser apurada com rigor. Defender uma investigação séria não é desvalorizar a palavra de ninguém. É garantir que a luta contra o racismo é conduzida com firmeza, mas também com responsabilidade.

A luta contra o racismo não se faz com folclore, nem com comunicados apressados de organizações que tantas vezes reagem mais depressa do que investigam. Faz-se com medidas, com sanções quando há prova, com pedagogia e com coerência. O racismo é intolerável. Mas a condenação sem prova clara também corrói os fundamentos que se pretendem defender.

Fechado este capítulo, regressamos ao futebol.

A eliminatória foi decidida por detalhes. Pela qualidade individual de quem resolve em dois ou três lances. Pela eficácia. E também por uma arbitragem no primeiro jogo que condicionou momentos relevantes. Não vale a pena fingir que isso não existiu. Existiu.

Mas esta eliminatória mostrou uma evolução evidente da equipa do Benfica. A recuperação de jogadores lesionados trouxe estabilidade e soluções. As contratações de inverno acrescentaram profundidade. A subida de rendimento de alguns elementos consolidou uma ideia de jogo mais consistente. Hoje, o Benfica não depende exclusivamente do seu onze inicial. Tem banco. Tem alternativas de qualidade semelhante. Tem margem de gestão.

Isso não significa que esteja tudo feito. Significa que o caminho que está a ser seguido está correto. Não há necessidade de revoluções permanentes, nem de alterações estruturais precipitadas num futuro próximo. A tentação de começar de novo a cada época é grande. Mas raramente produz estabilidade.

O Benfica caiu perante o Real Madrid porque, do outro lado, estava uma equipa com jogadores capazes de decidir em segundos aquilo que outros constroem durante minutos. Isso não diminui o que foi feito. Mas também não o transforma em algo que não foi.

Perder faz parte do futebol. O que não pode fazer parte é a perda de identidade. E nisso, nesta eliminatória, o Benfica não falhou. Competiu. Respondeu. Não se encolheu.

Agora é manter o rumo. Sem euforias quando se ganha. Sem dramatismos estruturais quando se perde. Com a mesma exigência de sempre. No Benfica não há vitórias morais. Mas também não há derrotas que apaguem o caminho quando ele está a ser bem trilhado.