A primeira paixão de Aaron Muss foi o snowboard. IMAGO
A primeira paixão de Aaron Muss foi o snowboard. IMAGO

A morte clínica levou-o aos Jogos Olímpicos e agora à Aston Martin

Pensaram que tinha uma 'overdose' e o erro de diagnóstico fez com que o pulmão rebentasse. A experiência de quase morte mudou-lhe a vida e a atitude que o levou até à Coreia do Sul! A história de Aaron Muss dava mesmo um filme

O piloto norte-americano Aaron Muss, que este fim de semana se estreia no GT World Challenge em Paul Ricard, tem uma história de vida digna de um filme. Em 2013, com apenas 18 anos, foi declarado clinicamente morto num hospital do Colorado, mas recuperou milagrosamente e chegou a representar os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, na Coreia do Sul, em snowboard!

A sua estreia no automobilismo, ao serviço da Comtoyou Racing, é apenas o mais recente capítulo de uma jornada extraordinária. O próprio Muss acredita que a sua experiência de quase-morte foi o catalisador que o transformou como atleta. «Antes do acidente, eu era um atleta mediano», admite. «Não era nada de especial. Mas a mentalidade mudou depois e tornou-me o atleta que acredito ser hoje; foi por isso que cheguei aos Jogos Olímpicos».

Criado no Colorado, Muss desenvolveu desde cedo uma paixão pelo snowboard e pelo sonho olímpico. «Sou um patriota convicto e queria representar o meu país no maior palco do mundo. E para mim, os Jogos Olímpicos são isso mesmo», recorda. Apesar de competir na North American Cup, reconhece que lhe faltava dedicação. «Tinha um grande talento natural, mas em jovem não me esforcei o suficiente».

Tudo mudou em 2013. Após uma cirurgia a um ombro deslocado, sofreu uma complicação rara. «Tive um edema pulmonar pós-operatório de alta altitude. Basicamente, formou-se um buraco no meu coração», explica. A situação agravou-se drasticamente devido a um erro de diagnóstico dos paramédicos, que presumiram uma overdose.

«Nos Estados Unidos, quando veem um jovem de 18 anos com sintomas de overdose, é prática comum induzir o vómito. Mas eu não tinha consumido nada, por isso o meu pulmão rebentou!», relata Muss. Sem um hospital equipado para um caso tão grave nas proximidades, o transporte de ambulância demorou cerca de uma hora, durante a qual o seu coração parou. «Ali, o meu coração parou e eu morri», afirma com naturalidade.

Após ser reanimado, foi colocado em coma induzido durante um mês. Ao acordar, não conseguia ler, escrever ou falar, e os médicos alertaram a sua mãe para a possibilidade de danos cerebrais graves. No entanto, a recuperação foi surpreendentemente rápida. «Em três meses, estava de volta ao snowboard, pronto para as qualificações olímpicas».

A experiência transformou a sua ética de trabalho. «Antes, dava o meu talento como garantido. Mas os atletas olímpicos não são bons, são excecionais. Para alcançar a grandeza, é fundamental ter uma ética de trabalho sólida. Foi isso que mudou em mim. Na época seguinte, venci 16 em 18 corridas».

O sucesso culminou com a qualificação para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018 em Pyeongchang. Contudo, Muss retirou uma lição importante da experiência. «Estava tão focado na medalha e no desempenho que não aproveitei a experiência como deveria. Atingir um objetivo é fantástico, mas a jornada para lá chegar é o mais importante. É isso que recordaremos para sempre».

Após uma carreira no snowboard que o levou aos Jogos Olímpicos, Muss encontrou uma nova paixão no automobilismo, conseguindo até manter o seu patrocinador principal nesta transição. A sua dedicação à modalidade de inverno estava a diminuir, mas as corridas de automóveis reacenderam a sua chama competitiva.

«Comecei com carros de turismo e depois corri durante dois anos no Lamborghini Super Trofeo. Ganhei o campeonato Pro-Am em 2024 e depois passei para os GT3», recorda o piloto.

No ano passado, Muss teve a oportunidade de competir em algumas corridas da IMSA e esperava continuar na América do Norte este ano. No entanto, um convite inesperado mudou os seus planos. «O Kyle Marcelli ligou-me de repente e perguntou: "Ei, o que vais fazer no próximo ano?". Conversámos e ele falou-me da equipa Comtoyou Racing. Depois, tive uma chamada com o François Verbist, o diretor da equipa», explicou.

A decisão de se juntar à Comtoyou Racing foi motivada pela filosofia da equipa. «São pessoas fantásticas. Muitas vezes, o dinheiro conta mais do que a lealdade e os valores, mas não tive essa impressão deles. Além disso, os resultados que alcançaram com a Aston Martin em tão pouco tempo falam por si».

Este ano, Muss vai pilotar o Vantage n.º 11 na Endurance Cup, integrando uma equipa com um forte sotaque americano, ao lado do canadiano Kyle Marcelli e do brasileiro Marcelo Tomasoni. Apesar da sua experiência limitada em circuitos europeus como Portimão e Nürburgring, e de apenas uma volta em Spa-Francorchamps num carro da Fun Cup, o piloto norte-americano está confiante no potencial da equipa.

Muss elogia bastante os seus companheiros. «O Marcelo é rapidíssimo. A sua ética de trabalho é incomparável entre os pilotos de categoria Bronze que já vi», afirmou, acrescentando que Tomasoni pediu para ser tratado como um profissional e não como um cliente, destacando-se pela sua análise de dados e trabalho árduo.

Sobre Marcelli, os elogios continuam: «Conheço o Kyle do Lamborghini Super Trofeo e ele é um tipo muito simpático, humilde e extremamente rápido. Quando estamos numa boa posição, é nele que confiamos para lutar pela vitória. Podemos confiar que ele levará o carro até ao fim».

A transição do snowboard para as corridas trouxe consigo uma lição valiosa: a força mental. «A mentalidade! Acredito que o meu ponto fraco em comparação com os pilotos profissionais é a experiência e a técnica. Mas, mentalmente, diria que sou um dos mais fortes da grelha. Tive 25 anos como atleta de classe mundial. A minha força mental é muito sólida. E foi isso que aprendi com o snowboard», sublinha.

Apesar de enfrentar a série GT mais competitiva do mundo com um carro novo e pouca experiência nos circuitos, Muss não se sente pressionado, lembrando os desafios que já superou. «A vida é uma dádiva. Em teoria, já a perdi uma vez».