Vitinha, médio luso do PSG
Vitinha, médio luso do PSG - Foto: IMAGO

A fórmula para criar um Vitinha: espanhóis procuram segredo do sucesso em Portugal

Renato Paiva, Hélder Cristóvão e João Brandão analisaram em entrevista ao Diario As o processo de desenvolver um jogador como o internacional português

Vitinha, médio do PSG, é atualmente uma referência mundial na sua posição, e o modelo de formação português é cada vez mais elogiado. João Brandão, antigo treinador do jogador, juntamente com Renato Paiva e Hélder Cristóvão, ex-técnicos da formação do Benfica, analisam o fenómeno e a receita para o sucesso em entrevista ao As.

João Brandão, atual treinador do FC Porto B e com um percurso de várias décadas na formação do clube, acredita que é possível replicar o sucesso. «É possível criar muitos mais jogadores com o nível de Vitinha, para isso é que estamos aqui e é esse o propósito», afirmou. No entanto, o técnico que orientou Vitinha nos júniores sublinha a importância da individualidade de cada atleta.

«Agora, Vitinha só há um. Rodrigo Mora só há um e Rúben Neves só há um. Creio que essa originalidade é o que temos de entender e é um perigo se quisermos que um rapaz seja a cópia de outro. Isso não existe no futebol», alertou. Ainda assim, o surgimento de médios de topo como Vitinha e João Neves na mesma geração não é visto como uma mera coincidência. «Creio que não é casualidade. Todos têm um perfil muito parecido, de jogo associativo, de inteligência, de espaços... Mas cada um mantendo a sua originalidade», explicou Brandão.

Hélder Cristóvão, que treinou a equipa B do Benfica durante cinco anos, partilha da mesma opinião, considerando que o aparecimento de tantos talentos é uma mistura de «um pouco de casualidade e um pouco de trabalho». O ex-jogador aponta o sistema tático como um fator crucial: «Em Portugal, basicamente trabalhamos em 4-3-3, com três médios, o que permite ter muito passe curto, ter um trabalho de jogo posicional muito intenso... um pouco como se faz em Espanha». Segundo Cristóvão, esta abordagem tática beneficia os médios, que «tocam muito na bola» e aprendem a «olhar o jogo de frente», o que considera «uma vantagem».

Para além da tática, João Brandão destaca a importância da cultura do clube, referindo-se à «Marca FC Porto». «Se falamos de Vitinha, ou dos próximos talentos que vêm do FC Porto como Rodrigo Mora, Mateus Mide... é interessante que todos têm algo muito parecido, que são os valores do Porto. Ser muito competitivos, apaixonados pelo jogo, pelo futebol do FC Porto...»

A mentalidade de Vitinha foi, de resto, o que sempre o distinguiu. «Era diferente dos outros pela mentalidade. Óbvio que tem qualidade, mas como todos os rapazes que há aqui na academia. É diferente pela ambição que tinha. A paixão que tinha pelo futebol», recorda Brandão, descrevendo um jovem que vivia o desporto intensamente e «ficava tremendamente zangado quando não conseguia jogar como queria ou quando ficava de fora da equipa».

Formação em Portugal

Este ecossistema de sucesso foi construído ao longo de anos. Renato Paiva, que trabalhou 18 anos na formação do Benfica, sublinha que o que se vê hoje é fruto de um investimento estratégico que nasceu da necessidade. «O trabalho de Benfica, FC Porto, Sporting ou SC Braga está a ser muito bom. Estão a fazer um investimento muito forte no futebol de formação, nos treinadores jovens, nos centros de treino, nas condições que têm... tudo», analisa.

Paiva explica que a aposta na formação foi uma resposta a dificuldades financeiras. «É um trabalho que se faz por necessidade, porque não havia dinheiro. Acabou-se e começou-se a olhar para os jovens». A própria Federação Portuguesa de Futebol (FPF) desempenhou um papel importante, ao criar um programa que avaliava os clubes e os seus treinadores, atribuindo verbas em função da qualidade do trabalho desenvolvido na formação.

O processo de especialização passa por expor os jovens a contextos adversos, forçando-os a desenvolver as suas lacunas. Hélder Cristóvão, antigo colega de Paiva no Benfica, recorda o trabalho diferenciado com Renato Sanches e Bernardo Silva. «Tentámos que, se o centrocampista era mais defensivo, desenvolvesse a parte ofensiva. Se era ao contrário, pois ao contrário», explica. Com Renato, um «animal fisicamente» que chegava rapidamente à área, o foco foi refinar a técnica de remate, o posicionamento e o discernimento tático. «Renato queria estar sempre onde estava a bola, por isso tivemos de lhe dar algumas regras táticas», recorda. Já com Bernardo Silva, de menor porte físico, o trabalho centrou-se no desenvolvimento das «condições defensivas».

Cristóvão defende ainda uma abordagem multidisciplinar, inspirada no modelo do Ajax. «Eu acredito que os jogadores têm de passar por vários desportos. Futebol de salão, voleibol, basquetebol, natação... e isso ajuda a desenvolver outras qualidades no teu jogo. O futebol de salão deveria ser obrigatório em todas as equipas», sugere.

Casos particulares

Bernardo Silva é um caso paradigmático. Paiva, que o treinou, afirma: «O Bernardo Silva baixou a sua posição porque joga com o Guardiola. Mas as características do Bernardo sempre foram e sempre serão as de um 10». A sua capacidade de atuar em múltiplas posições no 4-3-3 do Manchester City ilustra esta nova realidade.

João Brandão, treinador no FC Porto, explica que as posições são vistas como «pontos de partida, não lugares fechados». Sobre jovens talentos como Rodrigo Mora e Mateus Mide, teoricamente números 10, Brandão sublinha que o segredo está em onde começam e onde terminam as jogadas. «A estrutura é um ponto de partida, não de chegada. Se me falas do Mora, vejo drible, finta, remate... se vejo o Mide, vejo um jogador para espaços reduzidos, de um primeiro toque fantástico», descreve, acrescentando que «estes jogadores têm uma liberdade de responsabilidade maior que outros».

Esta polivalência é fundamental. Brandão nota que os jogadores de topo entendem as várias funções do meio-campo (6, 8 e 10), possuindo não só polivalência posicional, mas também funcional. «Eles conseguem entender todas as posições, mas se colocares o Vitinha a 6, ele vai dar-te coisas diferentes do que o Mora a 6», explica. A capacidade de interpretação durante o jogo, com constantes trocas posicionais, é «a base de tudo».

Renato Paiva, antigo treinador de Bernardo Silva na formação do Benfica, recorda a notável inteligência do jogador desde tenra idade. «Exceto o físico para defender, Bernardo Silva tinha tudo», afirma Paiva. Numa história reveladora, Paiva conta que, após um torneio em que Bernardo, ainda criança, brilhou contra adversários fisicamente imponentes, o jogador explicou a sua abordagem: «Mas senhor, a questão é que eu não procuro o contacto. Eu procuro estar sozinho, porque sei o que sou, sei o que sofro, então se me posicionar bem no campo, estarei sempre sozinho e passar-me-ão a bola. E estando sozinho, o contacto chega mais tarde. E quando o contacto chega, a bola já não está». Bernardo teria apenas 10 anos.

Esta capacidade de pensar mais rápido é, para Cristóvão, o que permite a estes jogadores ter sucesso. «Bernardo, pensando mais rápido, conseguia estar ao nível ou melhor que os maiores, mais rápidos e fortes», explica, sublinhando que a inteligência permite «chegar à bola antes dos outros» e «ter sucesso com um toque ou uma finta perante jogadores mais fortes e mais rápidos».

«Vitinh não jogava muito na formação do FC Porto»

O percurso de cada jogador é único, e o crescimento nem sempre é constante. Brandão usa os exemplos de Vitinha e Rúben Neves para ilustrar esta ideia. «Falando de Vitinha, com 17 e 18 anos não jogava muito nas equipas da formação do FC Porto. Saiu para o Wolves e quando voltou estava pronto para tudo. Em contrapartida, Rúben Neves desde os 17 anos estava pronto para a equipa principal», compara, rejeitando a ideia de que um jogador que não está pronto aos 17 anos já não tem futuro. «Cada um amadurece de uma forma distinta».

Brandão conclui, reforçando a singularidade de cada talento e o perigo de tentar criar cópias. «Vitinha só há um. Rodrigo Mora só há um e Rúben Neves só há um. Creio que essa originalidade é o que temos de entender e é um perigo se quisermos que um rapaz seja a cópia de outro. Isso não existe no futebol».

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