A festa da Taça em Fafe: «Se não fosse o Marques Mendes, tinha sido maior»
Venha quem vier. Jogue onde jogar. Valha o que valer. Com Fafe, já se sabe… ninguém fanfe! O clube minhoto tornou-se o primeiro clube da história do terceiro escalão (ou inferior) a eliminar da Taça de Portugal três equipas da primeira divisão numa só temporada.
No tribunal de Fafe, de nada vale a sobranceria... e muito menos clericalismo: em outubro, os cónegos não lá passaram; no mês seguinte, minhotos também não se deixaram aliciar pelos deliciosos doces conventuais de Arouca; agora, foi o clube da cidade dos arcebispos a sair condenado da terra dos justiceiros.
Moreirense (terceira eliminatória), Arouca (quarta eliminatória) e SC Braga (quartos de final) caíram de forma histórica aos pés do clube da Liga 3. De resto, fafenses levaram a melhor sobre Oriental (segunda eliminatória) e Lusitano de Évora (oitavos de final). Tão épica caminhada fez o Fafe chegar à sua terceira presença em meias-finais da Taça de Portugal - que disputarão com Torrense (da Liga 2) - e primeira depois de quase 50 anos.
Em 1976/77, o clube militava na segunda divisão, chegou a essa fase e perdeu com o FC Porto (0-3). Em 1978/79, igualmente no segundo escalão, voltou a lá chegar, mas caiu aos pés do Sporting: 0-1, com um penálti de Rui Jordão, no prolongamento. Quem bem se recorda dessa última meia final é Paulo Costa, de 55 anos, que almoça no restaurante Feira Velha, no coração de Fafe. «Estava no estádio na meia-final de 1979, quando fomos roubados contra o Sporting. Perdemos 0-1 com um penálti inventado. Estava lá a ver esse jogo, tinha oito anos. Ainda tínhamos o [António] Castro, o Zé Maria, guarda-redes…»
«O Marques Mendes desviou as atenções»
Na mesa ao lado, come Agostinho Freitas, sete anos mais velho, mas que não se recorda desse jogo. Diz não ser grande fã de futebol, mas na quarta-feira até viu o jogo: «Já há anos que não via o Fafe jogar, porque não ligo muito a futebol, mas ontem vi e fiquei admirado com o Fafe.» Admirados ficaram mais, os dois conhecidos, com o resultado final e a passagem à fase seguinte - um bocadinho abafada, ainda assim, por um fator inesperado: «Como esteve aí o Marques Mendes, no mesmo dia do jogo, desviou um bocadinho as atenções», observam.
«Foi isso [Marques Mendes] e o tempo também estar mau, se não a festa tinha sido maior. Mas, mesmo assim, a juventude fez aí festa e bem! Não é todos os dias que se chega às meias-finais da Taça», acrescenta Paulo Costa. Foi o caso de João Lopes, de 23 anos, com quem tínhamos falado uma hora antes e que, por culpa da festa da Taça, não ficou a dever horas à cama na parte da manhã: «Só acordei há um bocadinho, ontem fui festejar com os meus amigos e deitei-me um pouco mais tarde.»
De volta ao Feira Velha, fala agora o dono do restaurante, Carlos Teixeira, de 56 anos. Não pôde ir ver o jogo ao estádio, estava a trabalhar, mas pôs a bola a dar para os clientes, «estava uma casa porreira» e foi acompanhando. «Foi dos melhores momentos que vivemos aqui. Foi histórico. Isto é fantástico, para o clube, para o desenvolvimento da cidade e para nós andarmos mais alegres. Isto trouxe alegria, movimento, e as pessoas não falam de outra coisa», sublinha.
De facto, no Feira Velha, o tema é recorrente durante a hora de almoço, com Henrique Fernandes, trabalhador do restaurante, a ir picando os clientes: «Ó Zé, eu não te disse para apostares no Fafe? Eu disse-te!» O trabalhador, de 46 anos, acha que estes momentos «é que deviam ter grande destaque nos jornais» e quanto a preferências... «queria apanhar o Torreense». E assim foi.
Entretanto, à entrada do restaurante, num dia bastante frio e chuvoso, surge, bem agasalhado, outro senhor, mas que não trazia uns agasalhos quaisquer: vestia um gorro e um casaco do Vitória de Guimarães. Ainda a saborear conquista da Taça da Liga no fim-de-semana passado, juntam-se ali, curiosamente, os carrascos mais recentes do SC Braga. «Mas, se o Fafe for à final, até eu vou ao Jamor com o cachecol do Fafe!», diz aos amigos.
«O Fafe ganhou ao SC Braga? Não acredito»
Com a chuva intensa que cai na terra dos justiceiros, poucos são os que estão na rua. Exceções são os amigos Manuel Costa e José Dias, na casa dos 80 anos, que conversam à beira do emblemático Jardim do Calvário. «Este senhor está aqui porque o Fafe ganhou ao SC Braga com uma pinta do catano, é assim que se joga», diz o sr. Manuel. «Mas ganhou a quem?» questiona o sr. José. «Ao SC Braga!», responde o amigo. «O Fafe ganhou ao SC Braga? Eu nem acredito nisso!», exclama o sr. José. «Ah pois, mas é verdade», garante o sr. Manuel. «Foi para eles se porem finos, ah pois é, então como é», acrescenta. «Mas com o SC Braga? O SC Braga está na primeira divisão», continua a desconfiar o Sr. José, ainda incrédulo. «Está, está… eles bem os quilharam...», contrapõe, prontamente o sr. Manuel, deixando o seu amigo com um sorriso no rosto.