«Os meus filhos souberam da morte do pai pela televisão»
8 de março de 2025. Os jogadores do Barcelona e do Osasuna já se encontravam nos balneários, prontos para entrar em campo, quando o jogo da 27ª jornada da La Liga foi adiado devido à morte súbita de Carles Miñarro, médico de 53 anos do clube catalão. O médico sofreu uma paragem cardíaca no hotel onde o Barcelona estava hospedado, em estágio, enquanto dormia. Quase um ano depois da morte de Carles Miñarro, a viúva Mar Ballester falou sobre esse momento dramático e o efeito que a tragédia teve na família.
«O meu marido e o meu filho mais velho eram adeptos [do Barcelona], e ele ia sempre com um amigo, mas naquele sábado, como o tempo estava mau ou não sei o que aconteceu, ele ficou em casa. Eu estava a voltar de uma conferência em Madrid e, bem, cheguei a casa. A minha filha não estava a sentir-se bem e, como o Carles estava no hotel porque eles estavam em estágio, a minha irmã foi ver o que se passava. Quando me ligaram, eu estava com a minha irmã e os meus dois filhos. Perguntaram se eu era a esposa de Carles e disseram-me que ele não estava a sentir-se bem. Eu disse: 'Bem, o que há de errado com ele? Para que hospital estão a levá-lo?' E eles disseram: 'Não, ele não está no hospital, está aqui no hotel.' Um colega médico de Carles ligou-me e disse que ele não estava a sentir-se bem, que estava no hotel e perguntou se poderia ir lá. Fiquei surpreendida por ele não ir para um hospital, então pedi para a minha irmã ir comigo porque pareceu-me muito estranho», começou por recordar em entrevista à Catalunha Radio.
Amb molta tristesa, us comunico la sobtada mort del meu marit , Carles Miñarro el passat 8 de març. Marit, pare, germà, cosi, net, cunyat,…una gran persona que sempre recordararem. DEP pic.twitter.com/XujBIpyXU3
— Mar Ballester (@MarBallest87254) March 9, 2025
A notícia da morte foi dada aos jogadores pelo presidente Joan Laporta, já no estádio, deixando-os abalados — os capitães do emblema blaugrana pediram a suspensão do jogo, que viria a ser aceite. Também foi Laporta que falou com a viúva Mar Ballester: «A caminho do hotel, o presidente, Joan Laporta, ligou-me e confirmou o que já havia saído na imprensa sobre a notícia da morte do Carles, e que se sentia péssimo por ter de me contar dessa forma, mas que eu precisava saber. Liguei para a mãe de Carles para lhe contar, e depois liguei para casa e o meu cunhado disse-me: 'Não te preocupes, eles já sabem...' Foi um pouco desagradável. Os meus filhos souberam da morte do pai pela televisão. Nem eles nem eu estávamos preparados.»
Apesar dessa mágoa, Mar Ballester agradece o apoio recebido do Barcelona e dos colegas do marido, e confessou que foi importante despedir-se de Miñarro no hotel onde a equipa estava concentrada, e onde morreu: «Consegui vê-lo, e acho que isso fez-me bem, porque vê-lo na sexta-feira, poder dar-lhe um beijo, dizer adeus, e depois, no sábado, vê-lo morto, bem, acho que a minha cabeça percebeu que aquilo realmente tinha acontecido, porque senão tu pensas que é uma brincadeira. Eu vi-o, aceitei a situação, e foi isso.»
Consegui vê-lo, e acho que isso fez-me bem, porque vê-lo na sexta-feira, poder dar-lhe um beijo, dizer adeus, e depois, no sábado, vê-lo morto, bem, acho que a minha cabeça percebeu que aquilo realmente tinha acontecido, porque senão pensas que é uma brincadeira
Assimilar a realidade da perda não tem sido um caminho fácil neste último ano para a família de Carles Miñarro. «Cada um lida à sua maneira. Por exemplo, de vez em quando, quando é uma data especial, eu mando-lhe uma mensagem pelo WhatsApp, porque é como se estivesse a mandar uma carta. Frequento um grupo de apoio para pessoas em luto que ajuda um pouco nestas fases do luto, e alguém sugeriu que escrevesse. Eu não sou muito boa a escrever, mas gostei da ideia, e parece que isso me liberta. Explico tudo o que aconteceu comigo, por exemplo, no Natal, o que fiz, como preparei os presentes, que era o que ele costumava fazer. Digo que fomos visitar as tias dele… Explico-lhe tudo e mando mensagens pelo WhatsApp, mas ele não as recebe», explicou a viúva.
"Els meus fills es van assabentar de la mort del seu pare per la tele": Mar Ballester, vídua del doctor del Barça Carles Miñarro, al #SuplementCatRàdiohttps://t.co/ClAqzYV0mH pic.twitter.com/6nVrc73dSL
— Catalunya Ràdio (@CatalunyaRadio) March 1, 2026
Mar Ballester descreveu o marido como uma pessoa humana, dedicada e apaixonada pelo trabalho, e recordou como se apaixonaram: «Na universidade, no meu primeiro ano, em Reus. Nós morávamos em Tarragona. O Carles estava sempre a viajar entre as duas cidades, e eu tinha uma casa lá com meus pais. Conhecemo-nos no comboio, e ele tinha a certeza absoluta de que éramos feitos um para o outro. Eu estava mais hesitante, mas ele estava completamente certo. Faria tudo de novo. Gostava da personalidade dele, da perseverança e do tipo de pessoa que ele era. Ele era muito humano e generoso, sempre presente quando eu precisava de algo. Também era incrivelmente habilidoso. Tinha um talento nato e era uma boa pessoa.»
Carles Miñarro começou a trabalhar no Barcelona em 2017, como médico da equipa de futsal. Em 2024, juntou-se à equipa principal como braço direito de Ricard Pruna, que está no clube há quase três décadas. Estava na primeira época ao mais alto nível no Barça, e morreu cumprindo o sonho: «Era o sonho dele e realmente realizou-o. Talvez não tenha vivido muito, mas pode dizer-se que alcançou o máximo que poderia. Acho que se lhe dissessem o que aconteceu e lhe perguntassem se ele faria tudo de novo, ele diria que sim, porque aproveitou imensamente o tempo que passou com a equipa.»
Acho que se lhe dissessem o que aconteceu e lhe perguntassem se ele faria tudo de novo, ele diria que sim, porque aproveitou imensamente o tempo que passou com a equipa
Apesar do enorme vazio que sente devido à morte, a viúva Mar Ballester espera que as pessoas continuem a lembrar Carles Miñarro não só pelo papel profissional que desempenhou no Barcelona e pela pessoa que foi.