Unai Emery: de bom a mau, e agora vilão
Unai Emery tem feito um grande trabalho no Aston Villa (Foto: Sportimage/IMAGO)

Unai Emery: de bom a mau, e agora vilão

INTERNACIONAL28.12.202311:00

Após falhar em Paris e Londres, o espanhol reiventou-se no Villarreal e reinventa agora o Aston Villa; equipa de Birmingham está a ter um ano absolutamente incrível, apesar dos resultados mais recentes

A aura de Unai Emery extingue-se no Arsenal. Mesmo no banco do milionário Paris Saint-Germain falha ao não conseguir dar ao emblema da cidade-luz uma expressão continental, logo ele que pode ser chamado de senhor Liga Europa depois de quatro canecos conquistados, e até perde parte da hegemonia em França, ao deixar fugir o campeonato para o Mónaco de Leonardo Jardim no primeiro ano no Parque dos Príncipes. É em Birmingham agora, depois de se ter reinventado no Villarreal, que o espanhol volta a colocar o nome entre os maiores técnicos da Premier League e, por consequência, do resto do mundo.

Emery sempre foi organização, foco e estratégia, e talvez simplesmente o seu perfil não tenha encaixado no lado futebolístico mais burguês de algumas das principais figuras do PSG, sobretudo num segundo ano em que vê chegar estrelas como Neymar ou Kylian Mbappé. É, obviamente, o duplo fracasso nos oitavos de final da Liga dos Campeões que o marca em definitivo durante a passagem por terras gaulesas, na sequência da brutal frustração de ser eliminado em Camp Nou (1-6) depois de golear o Barcelona por 4-0 na primeira mão, e de não conseguir competir no ano seguinte com o Real Madrid, somando duas derrotas. Em Paris, onde se investe muito e se pensa sobretudo para lá das fronteiras do país, o projeto europeu termina sempre cedo demais. 

Depois, no Arsenal, aceita a dura missão de substituir, ao fim de 22 anos de reinado, um tal de Arsène Wenger. Vive-se então no Norte de Londres um momento de profunda mudança. O permanente ausente Stan Kroenke compra a parte de Alisher Usmanov e torna-se acionista único, nomeando pouco depois um novo diretor-executivo, Ivan Gazidis. Passa apenas um mês e o sul-africano de ascendência grega já lá não mora. Sai para o Milan, deitando para trás das costas nove departamentos criados em torno do futebol numa constante tensão entre si, sobretudo na altura das transferências, com uns a quererem privilegiar os dados analíticos e outros a relação mais próxima com alguns agentes. 

Unai Emery, aqui treinador do PSG, cumprimenta Arsène Wenger, congénere do Arsenal, que irá substituir no Emirates (Foto: IMAGO / PanoramiC)

Unai Emery não é visto como um manager como Wenger e o escasso rendimento retirado de Denis Suárez, que chega por empréstimo em janeiro, ainda lhe retira mais peso nas decisões. Vários novos Gazidis vão ocupando o gabinete até o antigo médio do clube, Edu Gaspar, se tornar o diretor técnico, contando finalmente com (o filho) Josh Kroenke mais envolvido e Per Mertesacker a organizar a academia. Mas já é tarde.

Isto é como acaba!

A frase, tantas vezes ouvida, faz também todo o sentido quando se fala de Emery e do Arsenal. O espanhol regista a terceira maior percentagem de vitórias na história dos gunners (55%) e chega a nova final da Liga Europa, contudo, quando sai, a reputação está de rastos: é gozado pelo inglês macarrónico e considerado inadequado para a Premier League.

Não começa mal, no entanto, a aventura. Após duas derrotas diante de Manchester City e Chelsea, os londrinos acumulam 22 jogos sem perder. No entanto, nos últimos cinco da liga arrecadam apenas quatro pontos e, com isso, não terminam nos quatro primeiros lugares da tabela. A redenção está guardada para a final da Liga Europa e o currículo do técnico só pode acrescentar confiança, porém o que se passa é exatamente o contrário. O Chelsea goleia por 4-1. Em novembro de 2019, já a meio da temporada seguinte e após sete jogos sem vencer, não escapa à chicotada. É demitido. 

Os jogadores param aparentemente de ouvi-lo, a mensagem já não passa, e as suas escolhas não ajudam. Não há como não ver indecisão ao contar-se os jogadores utilizados (35) e as substituições ao intervalo (32), números-recorde nesse campeonato. O ginásio que instalara para melhorar a forma dos futebolistas está ao abandono. Um símbolo da desunião.

Quanta responsabilidade do insucesso não estará nesse balneário? Mikel Arteta chega e livra-se de imediato dos pesos pesados. Saem Mesut Ozil, Willian, Mustafi e até o capitão Pierre-Emerick Aubameyang é autorizado a assinar pelo Barcelona. Novas relações se estabelecem e a juventude é sempre bem mais fácil de moldar. O ex-adjunto de Pep Guardiola e seu compatriota assume a linha manager de Wenger que ele nunca chegou a ser. Declarações posteriores de Emery ao The Athletic confirmam a ideia: «No Arsenal, temos de derrubar as paredes primeiro antes de construir.»

Entre os ‘villains’ ser um vilão

Com mais uma Liga Europa no bolso, conquistada ao serviço do Villarreal, Unai Emery volta a Inglaterra para assinar pelo Aston Villa, já reinstalado na Premier após a descida ao Championship, graças ao investimento do egípcio Nassef Sawiris — que detém atualmente também 46 por cento do V. Guimarães — e do norte-americano Wes Edens, a partir de 2018.

Dean Smith leva a equipa à promoção, porém não sobrevive a um segundo ano no primeiro escalão. Sucede-lhe Steven Gerrard, que até tinha dado muito boa conta de si na Escócia, no banco do Rangers, mas cedo se revela aposta falhada. Ou, pelo menos, uma condizente com as expectativas de donos e adeptos. Também Stevie-G não resiste à segunda temporada e Unai ainda chega a tempo de conduzir os homens de Birmingham a um sétimo posto. Em todo o ano de 2023, consegue 82 pontos, mais um do que o Arsenal, segundo classificado em 2002/23 e atual líder do campeonato, e apenas atrás dos 90 do Manchester City.

Ezri Konsa pressiona Erling Haaland no jogo entre Aston Villa e Manchester City (Foto: IMAGO / Sportimage)

Se a estratégia desempenha parte importante no sucesso, a evolução de jogadores como Ollie Watkins e Tyrone Mings também não passa despercebida a ninguém. Antes de aceitar a proposta, o espanhol reúne um dossier detalhado sobre cada um dos elementos do plantel — Mings, Ezri Konsa, Matty Cash e Lucas Digne eram preocupação devido aos inúmeros golos consentidos; pretendendo ainda que os dois primeiros ganhem um bem maior à-vontade com a bola nos pés —, e os treinos, em comparação com a era-Gerrard, evoluem para um lado mais tático, focados no detalhe, que favorece o crescimento coletivo e individual.

Além disso, Emery desenha uma pré-época tremendamente exigente no plano físico, com várias viagens, entre as quais uma digressão de três jogos nos Estados Unidos. O objetivo é dar aos jogadores a capacidade física ideal para uma liga tão intensa como a Premier. 

Uma mentalidade de todos por um ganha raízes. O mercado de transferências é encarado de forma séria e qualquer contratação tem de ser feita no sentido de evoluir. O treinador espanhol quer ter consigo os melhores, de nada lhe vale aquisições de caráter mediano. No verão passado, chegam o endiabrado Moussa Diaby de Leverkusen e o central internacional Pau Torres, que Emery treina no Villarreal. Gasta 88 milhões de euros em ambos, mais cinco pelo empréstimo do médio ofensivo Zaniolo. Lenglet é cedido pelo Barcelona e Tielemans recrutado livre depois da descida do Leicester.

O ginásio que não tinha clientes em Londres é essencial no dia a dia em Birmingham. Os futebolistas estão mais bem preparados a nível muscular e de flexibilidade. Unai acompanha-os na passadeira, ao mesmo tempo que analisa vídeos de adversários, à procura de fragilidades para explorar, que transmite ao plantel em extensos vídeos documentados. A química entre todos é visível e o técnico espanhol estende o relacionamento para lá das quatro linhas, com convites para almoços em conjunto fora das instalações. 

Se voltarmos à comparação com um quase sempre passivo Gerrard, que dá de si um ar de perdido, sobretudo nos últimos tempos, o contraste não pode ser maior: Emery é figura constante na linha lateral e, se não faz ideia por onde quer ir, está longe de demonstrá-lo. Obsessivo, o detalhe é fundamental e não está um minuto quieto. 

Todos unidos pela causa

Nassef Sawiris, um dos donos do Aston Villa, está hoje mais bem presente, mesmo durante os treinos. Não raras vezes é apanhado a aplaudir e a incentivar os futebolistas. Juntamente com Edens, não perde uma partida. Os resultados, obviamente, ajudam, mas sentem-se parte da nova filosofia.

Nassef Sawiris, dono do Aston Villa, olha para o telemóvel do antigo diretor técnico do clube de Birmingham Johan Lange (Foto: IMAGO / Colorsport)

Também por isso, os responsáveis têm acrescentado valor à volta de Emery. Monchi, histórico diretor desportivo do Sevilha, e Pako Ayesterán, ex-adjunto de Rafa Benítez no Liverpool de 2004 a 2007, período em que os reds conquistam uma Liga dos Campeões, são contratados. Por falar em contributos importantes, também Javi García tem muito ajudado na segurança e jogo de pés do guarda-redes argentino Dibu Martínez, recorrendo, sempre que possível, às novas tecnologias e à big data.

A V Sports, empresa de Edens e Sawiris, faz entretanto uma parceria com os bascos da Real Unión, detida maioritariamente por Unai e pelo irmão Igor, sobretudo por questões sentimentais, uma vez que tanto o pai como o avô aí jogaram. O intercâmbio de ideias e de dados está naturalmente nos planos de ambos os emblemas.

A entrada de Emery coincide com a remodelação e modernização do centro de treinos e de muitas das infraestruturas do clube, e encontra-se ainda em estudo o aumento da capacidade do Villa Park de 42 mil para 50 mil lugares.

Bodymoor Heath, centro de treinos do Aston Villa (Foto: O'Brien Contractors Limited)
Bodymoor Heath, centro de treinos do Aston Villa (Foto: O'Brien Contractors Limited)

De Arsenal a Arsenal, com um sorriso no fim

Com o repto de que não sejam repetidos os erros da época anterior diante do seu velho conhecido Arsenal (2-4), os villains conseguem, precisamente frente aos gunners, dar ao treinador novo recorde de triunfos consecutivos em casa (15) 159 anos depois. O clube passa de sobrevivente pela diferença de golos a candidato, pelo menos, à Champions. Até Guardiola admite, depois da derrota, que o título é possível. 

No final da partida de fevereiro deste ano com os londrinos, já Emery perspetiva a ideia a implementar. Alerta os jogadores que tinham batido a bola demasiadas vezes na frente, em vez de reterem a posse e serem autoritários, controlando o jogo. O raciocínio é recuperado nas últimas semanas após os triunfos sobre City e Arsenal, lembrando o que a equipa tinha evoluído.

Após um treino matinal no dia do jogo, para acertar os detalhes estratégicos, os quatro homens do meio-campo do Villa (Kamara, Douglas Luiz, Tielemans e McGinn) estrangulam a construção dos cityzens e, com bola, criam demasiadas rotas de fuga à pressão dos homens de Guardiola. O Aston Villa é a versão 2.0 de Emery: atrai para ganhar espaço entre linhas e progride de forma vertical, sempre com a equipa bem junta e os jogadores apoiando-se uns aos outros.

Cada vez mais confiantes, nem o empate inesperado diante do Sheffield United ou a reviravolta consentida ao Manchester United deverá abalar a confiança dos jogadores, cada vez mais ligados ao modelo.

Emery sorri depois da vitória frente ao Arsenal (Foto: IMAGO / PA Images)

O Aston Villa promete continuar a dar passos sustentados rumo ao crescimento e à recuperação de uma grandeza que não se traduz em títulos desde a época de 80, se excluirmos a menos relevante Taça da Liga. Unai Emery é, sem dúvida alguma, o maior rosto da retoma. Mesmo que o inglês ainda não seja perfeito.