«Guarda-redes que jogue bem com os pés oferece vantagens e ajuda a ganhar jogos»
Silvino e Neno com Baía ao colo (Nuno Ferrari)

ENTREVISTA A BOLA «Guarda-redes que jogue bem com os pés oferece vantagens e ajuda a ganhar jogos»

NACIONAL25.03.202412:00

– Silvino, um penálti bem marcado não tem defesa?

-Não. Foi o que aconteceu ao Diogo Costa, que até é bom a defender as grandes penalidades. Porém, os que apontaram os jogadores do Arsenal não lhe deram qualquer hipótese. No jogo do Atlético Madrid com o Inter, o Oblak, que raramente acerta, defendeu dois e o Sommer, que é um especialista, só o fez num. Isso quer dizer que, por muita preparação que se faça, depois vêm as circunstâncias do jogo que decidem tudo. É preciso sermos justos: quando um penálti termina em golo, deve reconhecer-se o mérito de quem o marcou e não culpar o guarda-redes que deve tentar defendê-lo, mas não está obrigado a fazê-lo.

Diogo Costa a defender um penálti frente ao Farense (ANDRE ALVES/GRAFISLAB)

-O que é que vocês, os treinadores, procuram ensinar aos guarda-redes?

- Quando, por exemplo, há um sorteio de uma competição europeia, no dia seguinte toda a equipa técnica começa a estudar o adversário, incluindo os habituais marcadores de penáltis. Andamos um ou dois anos para trás e analisamos as gravações dos jogos para ver como eles o costumam marcar, ferramenta que antes não havia.

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MADRID - Em plena forma e com um aspeto jovial quase impróprio dos seus 65 anos, Silvino Louro, antigo guarda-redes, campeão pelo Benfica e pelo FC Porto, vive feliz em Madrid, onde teve a amabilidade de conceder esta entrevista, em que fala do passado e dos seus projetos:

- O que é que faz com que, no lançamento dum penálti, o guarda-redes se atire para um lado ou para o outro?

- Quando o guarda-redes não conhece bem o marcador, tenta ver a sua reação. Como se posiciona e como mete o corpo para rematar. Se é canhoto o mais provável é que chute para o lado esquerdo e o contrário com o outro pé, mas nunca se tem a certeza do que ele vai fazer. Muitas vezes o que o treinador diz ao guarda-redes é que seja ele a decidir e era isso o que algumas vezes me dizia o Eusébio, que era o meu treinador de penáltis. E fui um dos que mais vezes os defenderam. Também é verdade que agora as coisas estão mais difíceis, pois o guarda-redes só pode sair quando o marcador chuta, no meu tempo tínhamos mais possibilidades porque podíamos dar um passo em frente, o que ajudava muito. Foi o que sucedeu na final da Europa League que o Benfica perdeu com o Sevilha, que tinha um guarda-redes, o Beto, que estava um metro à frente e defendeu. Hoje é obrigatório estar ali quietinho e não mexer os pés e eu procuro dizer aos meus guarda-redes como, nessa situação, têm mais possibilidades de defender.

-Agora os guarda redes também têm que saber jogar com os pés…

-Isso depende do sistema de jogo do treinador. Há uns que preferem jogar com passes curtos e outros, como o do Real Madrid, que preferem a pressão alta e, para isso, é necessário ter um guarda-redes que seja, tecnicamente, bom com os dois pés e assim ser capaz de meter a bola pelas alas, permitindo à equipa subir rapidamente no relvado. É evidente que um guarda-redes que saiba jogar com os pés oferece muitas vantagens e ganha desafios.

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25 março 2024, 10:00

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MADRID – Silvino Louro foi treinador de guarda-redes das equipas técnicas de José Mourinho até final de 2018. Depois a dupla separou-se. O nosso entrevistado explica porquê:

-Quais foram os melhores guarda-redes que treinou?

-Tive vários muito bons. Peter Cech, Vitor Baía, Iker Casillas, De Gea, Júlio César ou o Dudek. Um treinador que teve o privilégio de trabalhar com jogadores como estes, alguns até receberam prémios importantes, como o Baía, que num ano foi considerado o melhor guardião de Champions, tem de sentir-se orgulhoso. O sucesso deles é o meu sucesso e isso só o consegui com muito trabalho e muitas horas de dedicação.

Silvino e Neno com Baía ao colo (Nuno Ferrari)

-Quais são os melhores guarda redes da atualidade?

-O Diogo Costa é o melhor. O Rui Patrício também é bom, mas agora não anda a jogar tanto [na Roma], mas o que considero importante é que temos alguns com grande futuro. Jovens com grande qualidade que não tardará a que venham a ser cobiçados por grandes clubes europeus. São os casos do Samuel [Soares] do Benfica ou do Diogo Fernandes do FC Porto. Outro dia vi-o jogar contra o Mainz e fiquei impressionado. O Benfica e o FC Porto têm que se ir preparando porque não falta muito para que fiquem sem eles.

Rui Patrício, Diogo Costa e José Sá no Mundial-2022 (Miguel Nunes)

-Fez bem o Benfica em ter trocado de guarda-redes?

- Foi uma decisão do treinador e que há que respeitar. O Vlachodimos saiu porque queria jogar mais, mas em Inglaterra também não tem jogado muito. Nos anos que esteve no Benfica evoluiu bastante. Entendo que ninguém queira ser suplente, mas há coisas que é preciso aceitar. Quando eu estava no Benfica ficámos apurámos para a final da Taça com o Boavista [1992/1993], era o Neno que nela tinha vindo a jogar e, quando já ela se aproximava, o mister Toni decidiu tirar-me da equipa. Não tinha o direito de lhe ir perguntar por que me tinha tirado e entendi perfeitamente a decisão de dar mais tempo ao Neno para que ele chegasse ao jogo na melhor forma possível. Ganhámos e fiquei muito feliz. Os suplentes têm que entender que o treinador quer o melhor para a equipa.

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