Beckenbauer: a última vénia ao 'Kaiser'
Franz Beckenbauer, capitão da Alemanha campeã do mundo em 1974 (Foto: Sven Simon/IMAGO)
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Beckenbauer: a última vénia ao 'Kaiser'

INTERNACIONAL09.01.202402:35

Alemanha despede-se da sua maior lenda aos 78 anos; Campeão do mundo enquanto jogador e treinador, reinventou o líbero; Transformou o Bayern numa força planetária

A Alemanha chora convulsivamente. A maior figura do seu futebol e uma das maiores da história do jogo, der kaiser Franz Beckenbauer, morreu, aos 78 anos. Capitão de equipa, treinador e dirigente, foi primeiro um defesa e tornou-se, aos poucos, maior do que a posição que ocupava em campo. 

Reinventou o líbero e, fruto da dimensão estratosférica que ganhou, aliada à elegância, inteligência e perfil de gentleman, deixou marcas profundas no futebol do seu país. A revolução das últimas décadas, com o gegenpressing e um futebol verticalizado, linha defensiva alta e marcação zonal, teve-o a si como um dos maiores obstáculos ideológicos. Rosto de um passado glorioso, foi um dos três, a par de Mário Zagallo e Didier Dechamps, a sagrar-se campeão do mundo enquanto jogador e selecionador.

A sua interpretação do papel do líbero mudou o jogo. Esse papel e a amizade com a bola tornaram-no um homem livre. Era capaz de flutuar no relvado. Como futebolista e depois como treinador, foi sublime, levitava sobre todas as coisas. Quando entrava numa sala esta acendia-se

Não falta quem lhe atribua o mérito de transformar um clube mediano na Alemanha num dos maiores do planeta, e começou a fazê-lo desde logo em pleno relvado. Esteve em três Campeonatos do Mundo, o primeiro em 1966, em Inglaterra, onde foi eleito o melhor jovem.

Beckenbauer e Eusébio (IMAGO / Sven Simon)

O novo líbero

Beckenbauer foi o último grande obstáculo ao primeiro título mundial da Mãe do Futebol Inglaterra. Depois da expressão e importância que teve na Itália de Vittorio Pozzo e na Suíça de Karl Rappan, o líbero foi reinventado pelo Kaiser, agora um elemento elegante, com 1,80 metros, pernas longas e progressão rápida, que iniciava os ataques. 

Era uma unidade precisa e incansável. Com a bola nos pés, houve poucos futebolistas mais arrogantes. Não tinha problemas em controlá-la, em driblar, em arrancar contra-ataques furiosos ou em fazer tabelas, sobretudo com Gerd Müller, para tentar finalizar, com o seu remate forte. Bisa na estreia diante da Suíça, volta a marcar nos quartos de final frente ao Uruguai e novamente nas meias-finais perante a União Soviética.

«A sua interpretação do papel do líbero mudou o jogo. Esse papel e a amizade com a bola tornaram-no um homem livre. Era capaz de flutuar no relvado. Como futebolista e depois como treinador, foi sublime, levitava sobre todas as coisas. Quando entrava numa sala esta acendia-se», lembrou ontem o atual selecionador germânico Julian Nagelsmann.

O percurso mostra-nos uma maturidade precoce. Aos 18 anos, chega à primeira equipa do Bayern, dois anos depois à Mannschaft, da qual se torna capitão aos 25. Na primeira final de um Mundial cabe-lhe marcar Bobby Charlton. Não é o seu dia.

Beckenbauer ao serviço do Hamburgo (Foto: IMAGO / Sven Simon)

O ‘jogo do século’

No México, quatro anos mais tarde, joga no Azteca a meia-final perdida para a Itália, a que chamaram Jogo do Século em Mundiais, com um braço ao peito. O argumento tem muitos twists até ao epílogo. Desde logo, o empate, que anula a esquerdaça de Boninsegna já no segundo minuto de compensação. A finalização é uma estranha tesoura do defesa germânico Schnellinger. 

Beckenbauer, lesionado, continua. São cinco golos no prolongamento. O primeiro surge logo no pontapé de saída, o que confere à partida o seu próprio ritmo, ilógico, selvagem. O jogo do século não vale a Taça Jules Rimet para sempre ou sequer o título mundial, e não falta quem garanta que, para ganhá-lo, a Itália teve de abdicar da final. Mesmo perante um imenso Brasil.

A ideia que nos chega até hoje de que os alemães nunca desistem foi também em parte construída no Azteca. Ao empate a um golo no segundo de três minutos de compensação segue-se nova igualdade a três aos 110. Os rapazes de Helmut Schön correm a todas as bolas.Beckembauer comanda as operações. 

Beckenbauer de braço ao peito na meia-final do Mundial de 1970 diante a Itália (Foto: IMAGO / Sven Simon)

O triunfo italiano começa a desenhar-se ao minuto oito. Como quase em todas as jogadas, Boninsegna tenta servir Riva. O ressalto em Schulz e Beckenbauer, que tentam cortar a ligação, beneficiam-no, recuperando a bola. E o remate de pé esquerdo, fulminante, bate o gato Maier pela primeira vez. A Alemanha reage. Por volta do quarto de hora, o Kaiser arranca, passa por três e cai na área, mas o juiz nada assinala. 

Segundo minuto de compensação, lançamento lateral. Grabowski insiste pela esquerda, arregaça as mangas do físico e cruza em desespero, praticamente sem olhar. É então que aparece sem marcação o defesa Karl-Heinz Schnellinger, que atira ambas as pernas para a frente, em tesoura, e acerta com a direita. Os italianos não podem acreditar. 

Com as duas substituições permitidas já feitas, Beckenbauer aparece com o braço ao peito. A clavícula cedera. Ao quarto minuto do tempo-extra, Cera arrisca atrasar para o seu guarda-redes numa área lotada e Müller interpõe-se para o 2-1. É com um erro parecido que os transalpinos recuperam. O livre é de Rivera e Held borra a pintura, numa abordagem quase infantil, para Burgnich fuzilar Maier. 2-2, aos 98 minutos. 

O décimo terceiro minuto do prolongamento revela-se azarado para a RFA. O suplente Reinhard Libuda cai e Rivera abre rápido para Domenghini, já com as meias em baixo, sobre a esquerda. O cruzamento é curto, para a entrada da área, onde Riva define a jogada com três toques com o pé esquerdo: recebe, afasta-se de Schnellinger e remata cruzado, rasteiro, para o poste mais distante. 

Aos 110 minutos, novo canto. É a Alemanha de sempre, com o golo mais alemão que pode existir. Libuda cruza, Seeler ganha no ar, Müller desvia com a cabeça. 3-3. A bola vai ao círculo e, pouco depois, está de volta a Boninsegna, agora sobre a esquerda. O italiano passa Schulz e cruza rasteiro para a zona de penálti. Rivera é rápido a aparecer na área e a finalizar. Desta vez, a Mannschaft e o seu kaiser não voltam a levantar-se. 

Finalmente, o título

A imagem de sofrimento em 1970 consolida ainda mais o estatuto de símbolo do seu país, que organiza a competição em 1974 já como campeão europeu em título. O capitão é o líder e não se coíbe de ditar escolhas táticas e até reclamar substituições ao selecionador Helmut Schön. A RFA bate a Holanda de Cruijff e é ele quem ergue a Taça do Mundo. 

Os capitães e rivais Günter Netzer (B. M'Gladbach) e Franz Beckenbauer (Bayern) cumprimentam-se (Foto: IMAGO / Sven Simon)

Adepto do rival 1860 Munique, joga praticamente toda a carreira no Bayern (1959-1977), antes de uma pré-reforma dourada no Cosmos, ao lado de Pelé, com um título pelo Hamburgo já na reta final. Antes, ajuda a consolidar o estatuto continental dos bávaros, que conquistam três Taça dos Campeões consecutivas (1974, 75 e 76), já depois da Taça das Taças, em 1967.

Depois de uma primeiro Bola de Ouro em 1972, conquista a segunda em 1976, após ter sido segundo classificado em 1974 e 1975.

Franz Beckenbauer, selecionador alemão campeão do mundo em 1990 (Foto: IMAGO / WEREK)

Ainda mais imortal

Em 1984, Beckenbauer torna-se no novo selecionador alemão. No Azteca, é espectador privilegiado dos sorrisos de Diego Maradona e da Argentina, porém quatro anos depois superioriza-se a uma Albiceleste ainda mais dependente do seu astro, um Pelusa que, limitado por problemas no joelho, desta vez não pode fazer muito mais do que chorar.

Como técnico, venceu ainda uma Bundesliga e uma Taça UEFA pelo Bayern, e ainda um título francês pelo Marselha. Torna-se presidente da organização do Mundial 2006, na Alemanha, já depois de ter sido membro do comité executivo da FIFA. É ainda líder honorário do Bayern. 

O segredo? Beckenbauer revela-o à revista Stern, em 1977. «Tenho um método particular para me manter ao mais alto nível: a injeção do meu próprio sangue. Assim, algumas vezes por mês, o meu amigo Manfred Koehnlechner [uma das mais fortes vozes germânicas a favor da medicina alternativa] tira-me sangue de um braço para injetá-lo numa nádega.»

Beckenbauer, presidente do Comité de Organização do Mundial 2006 (Foto: IMAGO / Sven Simon)

Os comités e as acusações

O Kaiser não escapou, no entanto, a suspeitas de corrupção. Em junho de 2014, foi suspenso por 90 dias pela Comissão de Ética da FIFA por se ter recusado a cooperar com um inquérito sobre a atribuição das fases finais de 2018 e 2022, respetivamente a Rússia e Catar. 

Investigaram-no pela candidatura da Alemanha para 2006. Depois, alegou que o pagamento de 1,7 milhões pela federação da África do Sul, que organizou a fase final de 2010, encontrado nas averiguações, era relativo a trabalhos consultoria. Mais 5,5 milhões não declarados resultantes de um acordo de patrocínio da federação alemã foram descobertos, apesar de o seu envolvimento ser publicamente pro bono. Tal como pagamentos de três milhões por votos, mais 1,5 milhões pelo sucesso da candidatura russa, foram revelados em correspondência que veio a público. 

Tudo isto, mais as acusações de fuga a impostos, afastaram-no da vida pública, ensombrando uma carreira ímpar no futebol mundial.