O que está por trás da (possível) venda de João Neves?
1 - Ponto de partida: época 2023/2024
No último ano, o Benfica esteve longe de atingir os objetivos pretendidos. Após um investimento elevado, feito na pré-época, e com as expetativas colocadas bem acima por parte dos dirigentes encarnados, a realidade é que a época foi um insucesso. Apesar de ter conseguido a entrada direta na Liga dos Campeões, o futebol praticado foi muito pobre. Pior foi a forma como quiseram convencer, mês após mês, os adeptos de que a equipa jogava bem e merecia ganhar, quando todos percebiam a direção que as coisas estavam a levar. De uma forma muito simples, os clubes são criados para ter rendimento desportivo. A eficiência financeira deverá, sempre, ser utilizada para tornar os clubes mais competitivos nas diversas modalidades que competem. No caso do futebol, as vertentes financeira e desportiva andam de mãos dadas. Quando não há rendimento desportivo, a pressão financeira aumenta. Quando as decisões financeiramente não fazem sentido, desportivamente fica mais complicado obter sucesso. Assim, depois de um ano de resultados desportivos dececionantes, o Benfica deverá apresentar um resultado negativo, de dezenas de milhões de euros, referente à época 2023/2024.
2 - O Benfica quer vender ou não João Neves?
A venda de João Neves ao PSG é a novela deste verão no mercado de transferências. Já todos percebemos que o Benfica quer vender o jogador. O tema anterior deverá ser o ponto de partida da análise a esta suposta transferência. O Benfica parte para a época 24/25 pressionado em duas áreas: financeira e desportiva. Vamo-nos fixar na parte financeira. A época contabilística atual começou no dia 1 de julho de 2024 e termina dia 30 de junho de 2025. Isto demonstra que, contabilisticamente, o Benfica tem praticamente 12 meses para poder gerir o resultado que vai apresentar, o que significa que a pressão para vender este ou aquele jogador em agosto deverá ser reduzida, uma vez que há tempo para o poder fazer. Então se existe margem para poder gerir a venda do João Neves, por que motivo o Benfica quer vender o jogador agora? Neste enquadramento, importa referir que o Benfica, no último ano, vendeu o Gonçalo Ramos por 60 milhões de euros, esteve presente na Liga dos Campeões (40 milhões de euros) e mesmo assim deverá ter resultados negativos de dezenas de milhões de euros. O que é que isto representa? Duas conclusões são óbvias: a primeira é que os custos estão descontrolados, muito acima da capacidade do clube, e sem que os resultados desportivos espelhem o investimento realizado, ou seja, pouca eficiência e claro descontrolo financeiro; o segundo ponto é que já não basta vender um jogador por ano para equilibrar as contas, e se este trajeto se mantiver, será necessário, pelo menos, vender dois atletas para que o resultado seja positivo. Por fim, havendo margem para gerir o resultado até junho de 2025, parece-me claro que, financeiramente, o único motivo que faz com que o Benfica pretenda vender o jogador é que pode necessitar de liquidez para o curto prazo, o que, mais uma vez, pode ser considerado um sinal alarmante.
3 - Importância do jogador?
Para consumar a venda do jogador, os dirigentes devem questionar-se se o João Neves tem ou não muita importância no rendimento desportivo da equipa. Outro ponto que devem abordar é se o jogador fizer mais uma época, vai ou não perder valor de mercado? Se tem ou não margem de valorização? Se para o Benfica faz ou não mais sentido fazer permanecer o João Neves mais um ano (tem 19 anos), retirar rendimento desportivo e, em simultâneo, daqui a 12 meses, poder gerar o mesmo ou maior rendimento financeiro?
4 - O que o clube fez para ele ficar?
Ao longo dos últimos dias, têm-nos feito passar a mensagem de que o jogador quer sair, de que é impossível manter um jogador no plantel quando este tem uma oferta incrível de um clube como o PSG. A minha pergunta neste caso é: o que fez o Benfica que demonstre querer segurar o João Neves? Fez alguma proposta condizente com o valor atual do atleta? Especula-se que o Benfica propôs 2 milhões de euros brutos. Todos sabemos que o teto salarial do Benfica é bem mais elevado. Ora, se o Benfica quiser mesmo manter o jogador, não faz sentido fazer uma proposta próxima do teto salarial e passar a mensagem ao jogador de que ele é mesmo essencial? É certo que o João Neves queria ficar mais um ano no Benfica. Então o que pode tê-lo feito mudar de ideias? O que o pode ter feito mudar de ideias foi o comportamento oposto de Benfica e PSG. Do lado do PSG, existe um esforço para demonstrar o interesse que tem no jogador. Apresentaram o projeto. Dirigentes e treinador, todos, tiveram a preocupação de falar de uma forma regular com o jogador. Do lado do Benfica, alguém tem falado com o atleta? Para finalizar esta parte, gostava de referir alguns pontos que considero importantes. João Neves perdeu a mãe e alguns dias depois jogou em Toulouse e foi dos melhores em campo, num jogo em que muitos pesos pesados se esconderam. No final da derrota do Dragão por 5-0 foi João Neves a assumir a responsabilidade. Estes são apenas dois exemplos. Não me parece que faça sentido querer passar a imagem de que o jogador quer sair. O que é importante é o clube fazer tudo o que está ao seu alcance para o manter, se for este o seu objetivo. Não se trata de dinheiro porque, se assim fosse, o Benfica não teria, por exemplo, renovado com Di María que representa um investimento substancialmente superior.
5 - Assumir a responsabilidade – transparência
Possivelmente este negócio acabará por se realizar, porque, neste momento, todos querem que se concretize. De uma forma transparente seria importante que os dirigentes do Benfica fossem frontais e dissessem os motivos pelos quais não fizeram um esforço para o jogador ficar e lhe apresentaram a porta de saída. Assumir a responsabilidade não tem nada de errado. No limite, o negócio até pode ser feito por um valor muito considerável e compensador. Nesse momento também irei elogiar a capacidade negocial do clube. Por fim, supondo que estou errado e o Benfica não quer vender o João Neves mas acabará por fazê-lo através de uma proposta irrecusável, todos conseguiremos avaliar isso no momento do pagamento das comissões de intermediação. Se o Benfica não quiser vender e o PSG “forçar” o negócio através de um valor incrível, então, como é lógico, será o clube francês a pagar a intermediação e não o Benfica.
A valorizar: Nuno Borges
Primeiro titulo de ATP250 frente a um dos melhores de sempre, Rafael Nadal.