A falta de critério
João Pinheiro foi criticado por Roger Schmidt após o jogo da 2.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal (Miguel Nunes)

A falta de critério

OPINIÃO04.04.202411:00

Jogo após jogo, lances idênticos analisados de forma distinta. Ninguém percebe, claro

A época aproxima-se do final e, logicamente, começam as decisões. A Taça de Portugal está nas meias-finais e o campeonato entra nas últimas jornadas. Na Europa vão permanecendo os melhores dos melhores. Nada de novo. Tão-pouco a arbitragem nos surpreende. Em Portugal, as polémicas aumentam e a contestação sobe de tom. Um clássico. Apenas novos episódios do velho fado lusitano. Os anos passam e pouco ou nada muda.

O futebol português, sob a bênção da Federação Portuguesa de Futebol, foi um dos pioneiros na introdução da videoarbitragem. Pensei que finalmente a classe estabilizaria, com a tecnologia a compensar os muitos erros dos nossos árbitros. Afinal, seria mais fácil tomar as melhores decisões com a possibilidade de recorrer às imagens televisivas. O árbitro intervém, a decisão pode não ser a mais correta, mas há sempre forma de a emendar, com o VAR a ser um precioso auxiliar. E é, em muitas ocasiões. O pior é quando não é. E é aqui que surgem as dúvidas. As críticas. Os problemas.

Não é preciso é preciso recuar muito. Basta meia dúzia de dias. A jornada transata da Liga ou ao dérbi das meias-finais da Taça de Portugal. No Benfica-Chaves, na sexta-feira santa, o árbitro Hélder Malheiro assinalou uma falta inexistente de Júnior Pius sobre Di María e o VAR Luís Ferreira só interveio para dar a indicação ao juiz que a falta foi cometida dentro e não fora da área. Um dia depois, no Estoril-FC Porto, António Nobre marcou falta de Mangala sobre Francisco Conceição e o VAR Tiago Martins sugeriu-lhe ver as imagens e o penálti acabou por ser revertido. Já na quarta-feira, na Luz, Coates cometeu falta na área sobre Rafa e João Pinheiro mandou seguir. O VAR Hugo Miguel também nada disse e o jogo prosseguiu. A polémica, claro, instalou-se. Ninguém percebe a falta de critério.

Ouvimos, até à exaustão, que, segundo o protocolo, o VAR só pode intervir em «lances claros e óbvios». Claros e óbvios para o VAR, evidentemente. Mesmo que só ele veja o que ninguém vê ou que só ele não veja o que toda a gente vê…

Jogo após jogo, semana após semana, lances idênticos analisados de forma distinta. Sem qualquer critério. Ninguém percebe, claro. Mesmo que o vice-presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, João Ferreira, bem se esforce por selecionar os lances que depois leva para explicar na televisão…

Neste capítulo, concordo com as críticas de Pinto da Costa à arbitragem após o jogo da Amoreira. Descontrolo emocional dos dragões à parte após mais um episódio de desvario coletivo, o presidente do FC Porto pôs o dedo na ferida. «O VAR não pode servir para dar emprego a árbitros despromovidos, a árbitros reformados e a árbitros sem qualidade.» Nem mais. É tudo uma questão de qualidade, que em Portugal é cada vez mais escassa.