V. Guimarães: «O que já passei na vida leva-me a ir mais além»
Eleito pela Liga Portugal o Homem do Jogo do triunfo do Vitória de Guimarães sobre o Nacional (1-0), no último domingo, Gustavo Silva foi o autor do golo que decidiu a partida da 3.ª jornada e, em entrevista à LigaTV, falou sobre as dificuldades que enfrentou ao longo da vida, até chegar ao patamar em que se encontra atualmente.
«A minha história motiva-me a ir além do que posso. A minha esposa, a minha filha, ser Homem do Jogo, ser melhor marcador do clube, da Liga... É o que me inspira. Olhar para trás e ver a história sofrida que tenho, mas com orgulho enorme de que está a dar certo e que cada vez mais será assim», vincou o extremo, lembrando «os traumas» que enfrentou durante a infância.
«A minha história fala por si. Os traumas que tive fizeram tornar-me mais sério e fechado. Não dou abertura para quem não faz parte do meu convívio. A rua trouxe-me coisas positivas. Muitas vezes digo aos jovens para levarem a essência e a fome que têm para dentro de campo. A fome, a sede de vir para a Europa… É como se fosse um prato de comida que nunca comemos e queremos levar para casa. Aquele garoto de sete ou oito anos, o Gustavo que passou fome, dificuldades e não teve uma base de clube… Foi na rua que cresci», prosseguiu o jogador, de 27 anos, sem esquecer «a vizinha que dizia que ia matar a malta que jogava junto ao portão dela».
«Já fui pedreiro, já apanhei laranjas, já colhi goiaba, fui pescador, vendi peixe... Já trabalhei na rua, na reciclagem. Supermercado, vendi melancia, sorvete... Muita coisa. Trabalhei na loja do meu pai, de construção. Se não fosse futebolista, se calhar pensaria em trabalhar como professor de Educação Física. Quem sabe», acrescentou.
O Nacional, adversário do último domingo, foi o clube que abriu as portas da Europa a Gustavo Silva. A chegada ao Velho Continente, em 2022, é descrita pelo futebolista como «o momento mais importante da carreira», mas ao quarto jogo diante dos insulares, o atacante canarinho conseguiu, por fim, aplicar a famosa Lei do 'ex'.
«Essa lei nunca falha. É sempre importante do ponto de vista pessoal. Sou muito grato por tudo o que passei no Nacional, mas merecia ter feito aquele golo. Não tinha conseguido marcar-lhes antes. Foi espetacular: primeira vitória nossa em casa, motiva-me a ir por mais. O difícil é entrar o primeiro golo, depois sai aquele peso, há aquele alívio, aquela emoção», referiu Gustavo, que, por vezes, de forma a desligar do futebol, vai pescar. Contudo, quando se é jogador do Vitória, mudar o chip não é tarefa simples, fruto da paixão com que a Cidade Berço vive o clube. Algo que agrada sobremaneira ao extremo.
«É o mais importante desde o primeiro dia: a chama que o Vitória tem. Jogo no Vitória, mas a cidade é feita de chamas. É no supermercado, na padaria… Em todo o o lado. A cobrança está ali. A cobrança de querer vencer. 'Gustavo, vai dar, vais conseguir, calma... Continuem', dizem-me. Para nós, é essencial haver essa paixão, essa emoção que os adeptos sentem, de gritar por nós, sofrerem como nós quando queremos dar-lhes as vitórias que merecem. Estou aqui para ser mais um, para ser um louco apaixonado pelo Vitória. Vai ficar para sempre na minha história, na minha vida. Espero fazer grandes números, grandes jogos, trazer muitos títulos enquanto estiver aqui. Essa vai ser a minha missão, com fome até ao fim», rematou Gustavo Silva.