Seba Pérez em luta com Luis Suárez (Foto: Miguel Nunes)
Seba Pérez em luta com Luis Suárez (Foto: Miguel Nunes)

Três belos pensos rápidos para atenuar as dores do leão (crónica)

Rui Borges dissera que já estava dormente após a lesão inesperada de Diomande, no regresso da CAN. A esta insensibilidade física respondeu o Sporting com vitória tranquila (Catamo-Catamo-Bragança) e ainda com dois regressos: Debast e Daniel Bragança.

Dormência é falta de sensibilidade em algum dos membros do corpo humano. Não é dor, não é grito, torna-se impotência. É o que Rui Borges diz ter sentido após saber da inesperada lesão de Diomande e das múltiplas paragens, longas ou nem por isso, de muitos dos mais marcantes jogadores leoninos ao longo desta temporada. Além disso, para juntar a esta insensibilidade física, havia o empate com o Gil Vicente (2 de janeiro), a derrota com o V. Guimarães (6 de janeiro), a abrir 2026, e dez dias de paragem. Havia, pois, uma espécie de nevoeiro em redor daquilo que o Sporting poderia ou não fazer perante um Casa Pia com um novo treinador. Porém, no final do jogo, tudo bem mais tranquilo para o lado de Alvalade: 3-0, três pontos, regressos de Debast e Daniel Bragança à equipa titular, embora, para já, apenas como suplentes utilizados. E, para que a cereja em cima do bolo tivesse algo de romântico, surgiu o golo de Bragança com a braçadeira de capitão.

Mas nem tudo começou bem. O Sporting entrou com o seu agora habitual 4x2x3x1. Sem os castigados Maxi Araújo e Hjulmand e sem os lesionados Quaresma, Ioannidis e Diomande, se apenas falarmos dos últimos momentos de dormência leonina; dando a primeira titularidade a Luís Guilherme, recuperando Geny Catamo vindo da CAN e avançando com um quase insólito quarteto defensivo: Vagiannidis, Gonçalo Inácio, Matheus Reis e Fresneda. Álvaro respondeu colocando o Casa Pia no seu também habitual 3x4x3, transformado, quando a defender posicionalmente, num 5x4x1.

O jogo teve quase 35 mil pessoas a bocejar até perto da meia hora, com a bola a andar da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, a passar muitas vezes pelo meio, mas nada de muito interessante. Tudo demasiado insípido. Os primeiros momentos de algum empolgamento surgiram apenas de livre direto, talvez inesperadamente, através de Luis Suárez, com a bola a passar duas vezes muito por cima da baliza casapiana. O primeiro remate minimamente perigoso apareceu apenas ao minuto 27, num cruzamento de Catamo, ao qual a cabeça de Fresneda não deu o seguimento ideal para os leões, passando dois ou três metros ao lado.

A jogada pareceu aquecer o Sporting. Aos 34 minutos, apareceu Luis Suárez: imponente e rápido. Recebeu a bola sobre a direita, deixou José Fonte pregado (e lesionado) ao relvado, cruzou rasteiro para o lado esquerdo da pequena área, onde não estava o guarda-redes Patrick Sequeira e estava o avançado Luis Guilherme. De Luis para Luís, era só encostar para aparecer o primeiro golo. Porém, o brasileiro chegou um milésimo de segundo atrasado ao passe do colombiano e rematou, desajeitadamente, ao lado.

Quatro minutos depois, sim, o golo. Bola perdida pelo Casa Pia, Trincão recebe-a e abre bem na direita em Catamo. O moçambicano acaricia-a e remata forte. A bola desvia ligeiramente em David Sousa e entra, rasteirinha, junto ao poste esquerdo. Não foi preciso esperar muito para chegar o segundo golo. E que golo. Se o remate de Catamo foi brilhante, o passe de Gonçalo Inácio, talvez a cerca de 40 metros, foi exuberantemente teleguiado. Em apenas cinco minutos, entre os 38 e os 43, a dormência de Rui Borges passou.

A perder ao intervalo, Álvaro Pacheco trocou de ala esquerdo: Nsona por Tiago Morais, tentativa de explorar melhor algum eventual desposicionamento de Vagiannidis. Rui Borges continuou a apostar no mesmo 11. O Sporting, por Luís Guilherme, logo a abrir a segunda parte, criou um momento bem perigoso, num cruzamento rasteiro que Patrick Sequeira defendeu para a frente, com Trincão a falhar a recarga.

O jogo entrou então, de novo, num período morno e só em cima da hora de jogo surgiu algo entusiasmante, com Tiago Morais, de muito longe, a pôr à prova os reflexos de Rui Silva, que foi obrigado a desviar a bola perigosa pela linha de fundo. Pouco depois, Alvalade levantou-se para aplaudir um dos motivos de dormência de Rui Borges, embora uma dormência com já quase um ano: Daniel Bragança substituiu Luís Guilherme e, ao fim de 335 dias, voltou a jogar na equipa principal.

A ideia era óbvia: dar ritmo a Bragança. Porém, já depois de Catamo ter visto um golo de cabeça anulado por fora de jogo, Alvalade voltou a levantar-se. Xander Severina falhou um passe, João Simões recuperou a bola, colocou-a em Luis Suárez e este viu um enorme espaço vazio à sua direita. E colocou a bola, suavemente, a deslizar para o pé direito (!) de Bragança fechar o resultado e sacudir mais um bocadinho da dormência do treinador leonino.