Vinícius Júnior a falar com o árbitro - Foto: IMAGO

Ouvem-se (z)urros de racismo

Enquanto houver um resquício que seja de racismo, xenofobia, homofobia ou outro tipo de discriminação, os temas têm de continuar em cima da mesa, por mais que custe a novas tendências

Não consigo, como fizeram Luisão e mais meio mundo, afirmar que Prestianni foi racista e sentenciá-lo por isso sem direito a defesa e julgamento. Muito menos consigo censurá-lo por tapar a boca quando fala em campo, sabendo nós, que vemos jogos na TV, como isso é prática ainda mais comum que jogadores cuspirem para o chão (o que também não é bonito, já agora).

A reação espontânea de Vinícius Júnior, porém, faz-me pensar que algo aconteceu. Ele ouviu algo, não premeditou aquela chamada de atenção ao árbitro. Poderá, como alega Prestianni, ter percebido mal o que foi dito. Nunca saberemos, aposto. Mas achar que futebolistas podem premeditar acusações de racismo para prejudicar outros futebolistas faz lembrar quem acha que mulheres se queixam de abusos ou violações só porque lhes apetece ou querem dar nas vistas (já viram o documentário sobre Jeffrey Epstein?).

O que mais importa aqui, porém, é tudo o que se segue na reação ao festejo do golo de Vinícius. Ele foi mal educado, como é muitas vezes, e por isso levou cartão amarelo. Estamos no domínio das leis do jogo. A partir daqui está tudo errado: achar que uma provocação justifica atos racistas passa uma linha vermelha. E não, não estou a falar de Prestianni. Basta ver as filmagens das bancadas da Luz.

Achar justo insultar Vinícius de forma racista por ele ter provocado os adeptos equivale à decrépita e desprezável ideia de que uma mulher que vai de minissaia a uma discoteca «estava a pedi-las» antes de ser assediada ou violada.

Os urros, que na verdade são zurros, ouvidos nas bancadas da Luz (e saltam de tantas outras em tantos sítios) extravasam em muito o futebol, e era bom que os adeptos, neste caso do Benfica, conseguissem separar as águas, sob pena de compactuarem com atos absolutamente vergonhosos e reprováveis. A discussão — se quisermos ser sérios, humanistas e civilizados — vai muito para além disso.

A primeira saída encontrada para o caso (não sabemos se por Prestianni ou pelo Benfica) foi passar a ideia de que ele tinha chamado «maricón» e não «mono» a Vinícius. E é aqui que tudo fica mais explícito: «Não podemos ser racistas, mas homofóbicos talvez escape.»

Não escapa. Enquanto se ouvirem zurros de racismo, homofobia, xenofobia e discriminação, teremos de continuar a falar sobre os temas. Faz lembrar a temática do Dia da Mulher...