Orgulhosamente nós
«CONTRA tudo e contra todos». Esta é uma frase que, com laivos de belicismo, ouvimos, frequentemente, na linguagem futebolística. Claro que há clubes e protagonistas mais especializados no contexto e no tempo de a dizer. Sobretudo como arma motivacional. A técnica é simples: escolhe-se o real adversário, transforma-se num imaginado inimigo, junta-se-lhe um discurso incontido de animosidade, senão mesmo de inveja e fúria, faz-se uma rodinha folclórica de atletas, técnicos, auxiliares, similares, correlativos e afins para dar uns gritos de guerra e, por fim, o doping anímico invade o sangue dos heróis-mártires. No fundo, trata-se de um estimulante energético que, embora se venha tornando estéril, ainda produz nos tifosi uma aura de quase invencíveis, apenas derrotados em situações ignóbeis, sempre por culpa alheia e persecutória dos outros intervenientes nos jogos.
«Para o Benfica, vence-se contra nada e contra ninguém. Apenas pelos benfiquistas»
Tenho para mim que esta coisa de avançar «contra tudo e contra todos» é um modo de menorizar aqueles a quem se dá a respectiva ordem de comando. Por outras palavras, buscar nos adversários ou rivais o potencial inimigo quando, tantas vezes, o verdadeiro adversário está nas entranhas de quem protagoniza aquela palavra de ordem. É que simular ser forte pode acabar por revelar-se como um sinal de fraqueza. No futebol, como na vida, o queixume, a revolta constante, a mania da perseguição ou da discriminação, a ideia de que tudo se opõe, que todos estão contra, que ninguém compreende a verdade de que se julga possuidor, acabam por ser expressões que significam complexos de inferioridade. Melhor seria apelar à frase «é preciso comer a relva!», que é bem mais neutra e ecológica.
Há um ano, era o FCP meritório campeão nacional e um dos seus máximos dirigentes disse:
«Muitos obstáculos, muita gente que nos quer mal. A máxima do contra tudo e contra todos continua muito presente. Temos de lutar contra muitas coisas, uma delas o facto de o poder político estar na capital.[…] Os perigos estão ao virar da esquina, temos de estar atentos porque incomodamos muita gente.»
Este ano, depois de o SLB se ter sagrado meritório campeão nacional, o seu presidente exprimiu-se publicamente a propósito da reconquista do título:
«Conquistámos mais um título para o Benfica, contra ninguém, por nós, pelo Benfica. Procurámos sempre uma postura positiva, capaz sempre de defender o espectáculo, valorizando o futebol português e lutando contra uma permanente crispação que em nada ajuda a nossa Liga e o nosso futebol.» Para o FCP, o «contra tudo e contra todos» é sinónimo de «contra o Benfica».
Para o SLB, vence-se contra nada e contra ninguém. Apenas pelos benfiquistas.
Com a memória e a gratidão inesgotáveis para com Eusébio da Silva Ferreira e Fernando Chalana.
Em suma, orgulhosamente nós.
FOLHA SECA – O PORTUGAL DO FUTEBOL
TTerminados os campeonatos profissionais de futebol, o país primodivisionário fica mais limitado. Apenas com 6 distritos e a hipótese da Madeira ainda por determinar. Dois deles só com um clube (Aveiro, com o Arouca e Vila Real, com o Chaves, único que, aliás, representa o país não litoral), sendo que Braga passa a ter um terço do total (!), ou seja, 6 clubes (Sp. Braga, Vitória SC, Gil Vicente, Famalicão, Vizela e Moreirense), Lisboa terá 4 ou 5 (Benfica, Sporting, Casa Pia e Estoril e a hipótese do Estrela da Amadora), Porto com apenas 3 (FCP, Boavista e Rio Ave) e Faro agora com dois (Portimonense e Farense).
Somando também a 2ª Liga, só mais um distrito está representado, o de Viseu (Tondela e Ac. Viseu), deixando de o estar Castelo Branco com a despromoção do Sp. Covilhã. A RA dos Açores lá voltará com o Santa Clara. Curiosamente, o distrito de Braga não tem agora clubes nesta 2ª liga, maioritariamente representada por Lisboa e Porto, com 4 equipas cada.
Ainda me lembro de, na 1ª Divisão, ter havido representantes do Alentejo (Évora, com o Lusitano e Portalegre, com o ‘O Elvas’ e o Campomaiorense), de Santarém (União de Tomar), além do Sp. Covilhã e do Académico de Viseu. Nos tempos mais recentes, os distritos de Leiria, Setúbal e Coimbra deixaram a 1ª Divisão!
Eis mais uma consequência dos tempos do futebol contemporâneo fortemente associado ao maior desenvolvimento e poder económico e social, aspecto que, todavia, é menos acentuado em outros países, como Espanha, França, Inglaterra. O caso mais comparável com o português, é o do campeonato italiano, mais concentrado no Norte e sem expressão a sul de Roma (as excepções são, curiosamente, o campeão Nápoles e o Lecce).
JOGOS FLORAIS
A PRIMEIRA FRASE
Esta frase foi dita na chegada ao Aeroporto de Lisboa pelo então novo técnico encarnado. Logo na altura e como benfiquista gostei muito. Pouco me interessou se foi espontânea ou previamente pensada. Findo o campeonato, está à vista o que ele queria dizer nesta relação de amor e afecto que o Benfica gera em tanta gente. No caso do treinador alemão sempre com a sabedoria de juntar dedicação, elegância, compromisso, exigência e - esse recurso tão escasso - a sensatez.
FAVAS CONTADAS
19
Taremi ganhou A Bola de Prata. Felicito o jogador portista por esta conquista. Mas, gostaria aqui de deixar também as minhas felicitações a Gonçalo Ramos que foi o atleta que mais golos marcou, não considerando a marcação de grandes penalidades. Neste enquadramento, a classificação hipotética, teria sido: 1.º - Gonçalo Ramos (19 golos), 2.º - Taremi (15), 3.º - Fran Navarro (14), 4.º - Ricardo Horta (13).
FOTOSSÍNTESE
BANCO(S) A MAIS – No futebol de agora, faz-me confusão a (muita) quantidade de pessoas nos bancos e a (pouca) qualidade de alguns desses mesmos bancos. É gente a mais, que esbraceja, grita, corre, protesta, está sempre em pé (em alguns clubes), entra desalmadamente no relvado. Um regabofe a que muitos árbitros fecham os olhos. Já não basta uma quase outra equipa sentada, por causa das agora 5 substituições. Para além do treinador e adjunto, do director de departamento, do médico, massagista, que faz lá outra tanta gente? No Mundial de 2022, a FIFA determinou que poderiam estar no banco 26 pessoas (!), ou seja, até 15 jogadores e 11 elementos do staff. Por cá, o Regulamento das Competições é menos generoso, mas mesmo assim é uma fartura!!!