Em 2030, Portugal não será avaliado apenas como organizador, mas também como modelo. Foto Miguel Nunes
Em 2030, Portugal não será avaliado apenas como organizador, mas também como modelo. Foto Miguel Nunes
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O maior jogo de Portugal em 2030 não se joga no relvado

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Luís Simões e Cláudia Seabra, respetivamente Doutorando em Turismo, Património e Território no Departamento de Turismo e Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Professora com Agregação no Departamento de Turismo e Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Em 2030, Portugal vai jogar um dos jogos mais importantes da sua história recente. E talvez nem se dispute dentro das quatro linhas.

O Campeonato do Mundo que vamos coorganizar com Espanha e Marrocos, o primeiro Mundial transcontinental da história, representa muito mais do que futebol, estádios cheios e noites de celebração. Representa uma oportunidade rara de afirmação e projeção internacional, num tempo em que a reputação dos países se constrói tanto pela narrativa como pelos resultados. Durante algumas semanas, os olhos do mundo estarão sobre Portugal. Mas o essencial não está apenas no que acontece durante os 90 minutos de cada jogo. Está naquilo que se passa antes e fica depois da competição desportiva.

O futebol tornou-se uma das formas mais eficazes de projeção internacional. Os megaeventos desportivos deixaram de ser apenas competição para passarem a ser vitrinas globais de modernidade, capacidade organizativa, hospitalidade, segurança e visão estratégica. É aqui que ganha força o conceito de soft power, desenvolvido pelo politólogo norte-americano Joseph Nye: a capacidade de um país influenciar os outros pela atração, pela confiança e pela legitimidade, e não pela força. A Alemanha percebeu-o em 2006, ao usar o Mundial para projetar uma imagem de abertura e hospitalidade; a África do Sul fê-lo em 2010, ao afirmar-se como nação moderna e capaz de acolher o Mundo; o Brasil reforçou-o em 2014 através da projeção global da sua cultura e diversidade; a Rússia, em 2018, procurou reposicionar a sua imagem externa; e o Qatar, em 2022, mostrou como um megaevento pode simultaneamente ampliar visibilidade e influência, mas também expor tensões reputacionais ligadas à sustentabilidade e aos direitos humanos.

Em 2030, Portugal terá essa mesma oportunidade e essa mesma responsabilidade perante uma audiência global sem precedentes. Mais do que receber jogos, receberá um teste à sua capacidade de transformar exposição internacional em prestígio e confiança duradouros. Um Mundial bem organizado pode fazer mais pela perceção internacional de um país do que anos de campanhas promocionais ou diplomacia tradicional. Pode alterar a forma como milhões de pessoas olham para um destino, reforçar a sua notoriedade e criar uma ligação emocional entre públicos globais e um território.

A capacidade de acolhimento, a segurança, a qualidade urbana, a gastronomia, a paisagem, a cultura e a própria relação do país com o futebol oferecem uma base excecional para consolidar a marca Portugal no mundo. Mas esse acolhimento não se resume às infraestruturas ou à logística. Mede-se também na forma como os residentes recebem quem nos visita, no orgulho com que mostram a sua cidade e no sentimento de pertença a um momento histórico.

É por isso que este impacto não se mede apenas na forma como o mundo nos vê. Mede-se também na forma como os portugueses vivem o país depois de 2030 e na perceção que têm dos benefícios de acolher o evento. Se os residentes sentirem melhorias reais nas acessibilidades, nos serviços, na requalificação urbana, nas oportunidades económicas, na valorização dos territórios e na autoestima coletiva, tornam-se os primeiros embaixadores do sucesso do Mundial.

Quando um megaevento é bem pensado, o legado não termina no apito final, permanece nas cidades, nos serviços, nos espaços públicos e na memória positiva de quem lá vive. Permanece também na forma como um país aprende a organizar-se melhor e a promover a cooperação entre instituições e nações.

O sucesso de 2030 dependerá da capacidade de transformar o Campeonato do Mundo de Futebol num verdadeiro projeto nacional, onde Federação Portuguesa de Futebol, clubes, Liga Portugal, autarquias, setor do turismo, empresas, comunidades locais e cidadãos estejam alinhados em torno de uma visão comum. Esse alinhamento coletivo terá reflexos diretos no próprio ecossistema do futebol português. O Mundial pode acelerar investimento em academias, centros de treino, inovação tecnológica, qualificação de recursos humanos, profissionalização da gestão e valorização internacional dos clubes e das competições nacionais. O legado não deve ficar apenas nos estádios que recebem jogos, mas irradiar para a formação, para o futebol feminino, para os escalões jovens e para os territórios que vivem o jogo longe dos grandes centros. Porque estará em jogo a forma como Portugal se apresenta ao Mundo e melhora a vida dos seus residentes.

Mas há uma nuance essencial: a visibilidade não se transforma sozinha em reputação duradoura. A atenção mediática é apenas o início. O verdadeiro impacto depende da forma como essa atenção é convertida em experiência, narrativa, legado e memória coletiva. Cada transmissão televisiva, cada imagem partilhada por adeptos, cada reportagem internacional sobre a experiência de estar em Portugal e cada comentário positivo sobre mobilidade, organização ou ambiente urbano contribuem para uma construção simbólica que vai muito além do torneio.

O maior legado pode surgir depois do apito final: mais desejo de visita, maior reconhecimento internacional, reforço da confiança externa e uma imagem ainda mais sólida de Portugal enquanto destino turístico e país moderno, aberto e confiável. Num contexto internacional competitivo, essa vantagem pode ter efeitos muito concretos e prolongados.

Há, porém, uma condição que hoje decide a credibilidade de qualquer megaevento: a sustentabilidade. O mundo já não avalia estes acontecimentos apenas pelo espetáculo. Avalia o impacto nas comunidades, a utilidade futura das infraestruturas, a responsabilidade ambiental, a gestão dos recursos públicos e a coerência entre discurso e prática.

Em 2030, Portugal não será apenas observado como organizador. Será avaliado como modelo. E essa avaliação dependerá também da coerência entre ambição internacional e benefícios reais para as populações. A singularidade desta edição aumenta ainda mais a exigência. Portugal dividirá a narrativa global com Espanha e Marrocos, dois países com identidades, posicionamentos turísticos e enquadramentos institucionais distintos. Essa complexidade faz do Mundial 2030 um exercício raro, mas também uma oportunidade única para Portugal afirmar a sua própria narrativa dentro desta coorganização transcontinental. Ser anfitrião é um facto; transformar essa condição em valor estratégico é outra coisa.

Quando faltam apenas quatro anos, a pergunta mais importante não é «vamos ganhar o Mundial?». A verdadeira questão é se Portugal está, já hoje, a fazer tudo o que é necessário para transformar esta oportunidade histórica numa vantagem real, coletiva e duradoura.

É aqui que se decide a diferença entre evento e transformação. O Mundial de 2030 pode ser o palco onde Portugal confirma a sua maturidade institucional, a qualidade dos seus territórios, a força da sua hospitalidade e a capacidade de alinhar desporto, turismo, sustentabilidade e visão estratégica numa mesma narrativa de país. Num tempo em que a reputação se constrói na experiência vivida, cada detalhe contará: mobilidade, segurança, ambiente urbano, eficiência organizativa e legado útil às comunidades. No fundo, o maior troféu que Portugal pode conquistar em 2030 talvez não seja apenas uma taça, mas uma posição reforçada no mapa mental e emocional do mundo.

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