A emoção de Nuno Santos e Daniel Bragança no terceiro golo do Sporting ao Estoril - foto: IMAGO
A emoção de Nuno Santos e Daniel Bragança no terceiro golo do Sporting ao Estoril - foto: IMAGO

AI o terceiro golo do Sporting

Um esforço nada artificial para tentar defender a ideia de que um golo como aquele que foi fabricado por Nuno Santos e Daniel Bragança jamais pode ficar remetido a nota de rodapé

Há não muito tempo tive oportunidade de ouvir um responsável da Liga alemã falar da aplicação da Inteligência Artificial nos conteúdos digitais da Bundesliga. Explicou a regra dos 90%, que não permite que nenhum conteúdo seja integralmente artificial, sem revisão humana, e defendeu uma utilidade virada sobretudo para tarefas repetidas.

Para reforçar esta visão de que a IA (ou AI, em inglês) deve facilitar a vida ao humano, e não ocupar o seu lugar, esse responsável da Liga alemã deu um exemplo curioso, que tento reproduzir de memória: «Imaginem um 0-0 entre duas equipas que lutam pela permanência, sem grandes oportunidades, e às tantas alguém tenta combater a monotonia com um remate do meio-campo. A bola sai ao lado, mas todo o estádio aplaude a iniciativa. A Inteligência Artificial nem vai valorizar este lance!»

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Lembrei-me da pertinência deste exemplo alemão quando o Sporting marcou o terceiro golo ao Estoril. Apontado ao minuto 90+4, com o jogo já mais do que resolvido pelo bis de Luis Suárez, esse momento seria pouco mais do que uma nota de rodapé num qualquer texto elaborado com Inteligência Artificial.

A realidade é outra, porém: o golo apontado por Daniel Bragança, com assistência de Nuno Santos, tem um simbolismo que nenhuma máquina consegue reproduzir. Representa a capacidade de sacrifício de dois jogadores que têm conseguido reerguer-se sempre nos momentos de dor.

Não é difícil imaginar que Bragança podia ser agora um dos melhores médios do futebol europeu, ou que Nuno Santos podia estar a pensar na convocatória para o próximo Campeonato do Mundo, mas os esquerdinos do Sporting recusam ficar a remoer no que podiam (mais) ter sido, preferem colocar o foco naquilo que ainda podem ser.

Aquele último golo do Sporting ao Estoril, apontado ao minuto 90+4 de um jogo já resolvido, também tem significado: lembra-nos que o futebol deve ser vivido, e que o caminho é tão ou mais importante do que o destino.

Os resultados perduram mais facilmente na história, mas os adeptos querem algo mais. É por isso que vão ao estádio em vez de ficarem sentados no sofá à espera da notificação, ao fim de 90 minutos.

Se é verdade que todos os golos têm uma história, alguns deles jamais podem ser remetidos a insensíveis notas de rodapé artificiais.